
Edmilson Panguana"
O segredo para uma vida longa está no sobressalto matinal, já diziam os especialistas da boa forma. Há quem prefira o ioga, o pilates, ou aquela corrida tensa que castiga o joelho no alcatrão frio e esburacado logo pela manhã. Particularmente, guardo a convicção de que, no grande ginásio da vida em sociedade, as manifestações são as verdadeiras actividades ginásticas matinais.
Observe-se miticulosamente a dinâmica. A indignação colectiva é dos personaltraineres mais rigorosos que existe. Sem precisar de alarmes, ela tira o povo do colchão. Aí, se verifica o âpice do exercício fisico civil, quando os estimados chapeiros, decidem decretar o seu próprio plano de treino. A meta é nobre: uma manifestação coreografada rigorosamente das 8h as 16h. o objectivo? Chamar a atenção do Governo, exigir o aumento das tarifas em virtude do agravamento do preço do combustível e, claro, no fundo do coração “ajudar o povo” (aumentando o preço que o próprio povo paga, uma lógica matemática digna de um nó cerebral).
Aqui reside o nível olímpico da ironia. Numa demonstração de solidariedade logística sem precedentes, os chapeiro entram em acção, primeiro com um exercício de aquecimento. Das 5h às 8h, recolhem os funcionários dos bairros e, com cuidado de quem empacota sardinha em latas, levam-nos ao posto de serviço. Afinal, o protesto só começa às oito!
Chegada a hora do exercício estático, os carros param. Cruzam-se os braços. Buzina-se ao rítmo de um Pandza improvisado. É o momento do suor, do debate acolorado debaixo do sol e da firme convicção de que “hoje o patrão lá de cima vai ouvir-nos!”. E, quando termina o horário de expediente do protesto, os chapeiros ligam os motores, engatam a primeira mudança e com uma amabilidade comovente, levam devolta seus passageiros sãos e salvos à casa.
Neste aspecto, o chapeiro é o único revolucionário no mundo que faz a grave, mas garante que os funcionários do sistema contra o qual contesta não apanhe falta no trabalho. Enquanto o circuito acontece, na bancada da alta moldura do Estado, o Governo pratica a sua modalidade favorita: o ioga contempativo do silêncio absoluto. Os ministérios continuam a funcionar. Os chefes nem reparam que houve protesto, até porque os seus motoristas privados não usam chapa.
O Governo não emite uma nota, não faz um pronunciamento, não mexe uma palha. Pratica a imobildade terapêutica. Olha para o relógio às 16h e boceja. Lá no finalizinho da tarde, quando as pernas já doem de tanto estar de pé ao lado do pneu, os chapeiros olham uns para os outros. O Governo não sentiu falta de ninguém. O preço do combustível continua igual. As tarifas não subiram.
Nesse momento, cai a fixa dos manifestantes, “Pois é... estávamos só a fazer ginástica.”. sem drama, limpa-se o suor da testa e voltasse a operar com a maior normalidade possível. Amanhã há mais estrada. O corpo agradece o exercício, o bolso, esse, continua a precisar de fisioterapia.
2025/12/3
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