
Edmilson Panguana"
Vinhamos de uma sequência de duas semanas com finais de semana prolongados. Sentia-me entediado, já tinha lido todos os livros da estante e tinha igualmente torrado as últimas moedas do salário do mês anterior na saída com amigos. Então, decidi ler o diário de uma professora estagiária misteriosa que encontrara no meu cacifo.
Era tarde de domingo, 4 de outubro de 2026. Abri o diário e comecei a ler. O primeiro parágrafo é algo que gravita entre a riqueza metafórica e a profundidade filosófica. Conforme se lê nas primeiras linhas: quando fomos perceber, o vírus já tinha degenerado todo o sistema imunológico. Não sobrara nada; a infecção já se tinha espalhado por cada fresta da escola. Até o ar que ali circulava se havia infectado por este mal que assola a nação.
O conselho de professores tinha deliberado por unanimidade abdicar da arte de ensinar para tentar acompanhar a "evolução do mundo". Do outro hemisfério chegavam boas novas, pregadas por pedagogos e didactas que defendiam metodologias de ensino mais envolventes e afectivas. Neste sentido retorcido, o aluno deixava de ser visto como alguém em busca do saber para se transformar em potencial cliente — ou, pior, em objecto de satisfação. Naquele momento, a leitura do diário prendia mais e mais a minha atenção. Nas linhas seguintes, a autora narrava como tinha sido o seu primeiro dia como professora estagiária, um verdadeiro choque de realidade logo à chegada.
A professora titular, uma veterana de guerra cansada de utopias, recebeu-a com conselhos pedagógicos, que deviam servir-lá como código de sobrevivência. “Os alunos de hoje não gostam de estudar, minha filha”, disparou sem rodeios, como quem dita uma verdade incontestável da física. E a orientação prática veio logo a seguir, despida de qualquer pudor académico: “Portanto, se estiveres txonada e precisar de moedas para chapa, não te preocupes com teorias; basta elaborar uma ficha de apontamentos fotocopiada, vender a um preço acessível à turma, e prontos o problema fica resolvido”.
A mente da estagiária foi imediatamente invadida por pensamentos intrusivos. O estômago apertou-se-lhe. Enquanto ouvia aquilo, a voz da universidade ecoava na sua cabeça como um eco longínquo e ingénuo: Mas não era suposto orientar os alunos a pesquisar os seus próprios apontamentos, a tornarem-se autónomos, como preconizam os novos métodos de ensino? Ali, naquele instante, percebia que o fosso entre o papel e o chão da escola era um abismo intransponível. A cátedra já não era o altar do saber; tinha virado um balcão de negócios.
No diário, a estagiária relatava a sua resistência obstinada. Recusara-se a vender a "ficha-salva-vidas". De alma armada com os manuais e os métodos importados para lá do hemisfério, tentava aplicá-los cegamente, ignorando por completo as coordenadas daquele terreno. Queria autonomia, investigação e debates construtivos. Contudo, a resposta da turma foi um balde de água fria: decepção pura. Os alunos, habituados à lei do menor esforço e à lógica da sobrevivência, não viam naquelas metodologias modernas a emancipação, para eles aquilo nada mais era senão uma maçada desnecessária. E, enquanto ela sofria para arrancar uma única palavra crítica daquela plateia apática, a professora titular nadava de braçada.
Para a veterana, a turma era um mercado de altíssima rotatividade: vendia fichas de apontamentos por cima das aulas da estagiária e aplicava testes corriqueiros que funcionavam como taxas de portagem obrigatórias. Aliás, a aquisição da ficha era condição primária para a realização do teste. Cada dia de aula transformava-se num suplício mental para a jovem estagiária. A exaustão vinha do esforço físico, do desespero de tentar semear trigo num chão de cimento armado, percebendo tarde demais que a teoria que aprendera na universidade era uma miragem inútil perante a miséria material e moral daquela escola.
O peso daquelas palavras começou a acumular-se no meu peito. A descrição daquela exaustão, unida à ironia trágica do sistema, trazia uma tristeza densa, quase palpável. De gole em gole, a mistura da leitura com os resíduos de um vinho barato e solitário na sala quase me arrancou lágrimas. Era um reflexo espelhado: a estagiária sufocada no passado daquelas páginas era, no fundo, o reflexo de qualquer educador lúcido no presente. Com um suspiro pesado, fechei o diário com força, como quem tenta trancar um monstro de volta à caixa. Deitei a cabeça para trás, mas a mente, esta continuava a remoer em círculos, prisioneira daquela espiral de perguntas sem resposta sobre o rumo desastroso que a educação tomara.
No entanto, por entre todas as denúncias de corrupção e desinteresse, uma frase específica continuava a latejar-me na cabeça, recusando-se a sossegar: aquela insinuação sombria sobre os alunos vistos como potencial e clientes ou... objetos de satisfação.
Se mente vazia é oficina do diabo, uma mente cheia deve ser próprio diabo. Porque eu pensava, até onde tinha chegado a depravação daquela cátedra? O que mais escondiam as páginas seguintes daquele diário?
2025/12/3
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