
Edmilson Panguana"
Todo o ser humano nasce com a delicadeza de quem precisa doutro para se sentir completo. Assim como o sol nasce para todos, desatamos todos em choro no primeiro contacto com o mundo. Sim, todos nascemos todos com a mesmíssima necessidade de oxigénio. Mas a trégua da igualdade termina quando se coloca nas mãos dos indivíduos, um crachá, um livro sagrado ou um extracto bancário. Logo, a biologia cede o passo à tecelagem social, os pastores tosquiam com elegância e as ovelhas balem em coro, convictas de que o curral é, na verdade, um condomínio fechado. É justamente nessa bazófia que a classe pastoral inventou o sistema de precedência, um tipo de código de trânsito de almas. Uma invenção desenhada para que as elites não mesclem o seu purificado oxigênio com o dióxido de carbono da burguesia. O protocolo seria simples, a fila seguiria o ritmo do mérito, mas, como se sabe, o mérito é uma entidade tímida e incapaz de sobreviver à luz do dia. Neste sentido, A prestigiada Doutora Astúcia, não sofre do mal da competência explícita, essa heresia que obriga os homens a trabalhar a sério. Pois, foi abençoada com o dom divino de decifrar o manual de instruções dos pastores. Munida de uma inteligência superior, termo técnico usado para designar a capacidade de adular as pessoas certas sem perder a postura, percebeu ela que saltar cercas exigia uma trindade específica. Era preciso, primeiro seduzir os arquitetos do Aprisco. Senhores à caminho da meia-idade, enfadados pela própria burocracia que pariram, que passavam os dias a carimbar a própria imortalidade. Para eles, validar a rapariga, é um simples exercício de mecenato intelectual. Afinal, uma mente tão brilhante não pode ficar sujeita à poeira da fila comum, seria um desperdício de estofos litúrgicos. Depois, vinha o Sumo-Sacerdote do Trinco, vulgo Zelador. O homem que não dita as leis, mas que decide a que velocidade a fechadura range. Ele, que conhecia o preço exacto de cada silêncio e o valor de um aceno de cabeça na penumbra do corredor secundário, tornou-se o lubrificante perfeito para as engrenagens do Regime. E assim consumou-se o milagre de multiplicação das conveniências. Enquanto as ovelhas académicas e os cordeiros da retidão permaneciam disciplinados na fila, de olhos fixos no manual de pastoreio e confiantes de que a sua vez chegaria por direito divino, a nossa heroína já tomava o chá dos eleitos nas traseiras do templo, rindo-se baixinho da ingenuidade dos que confundem paciência com virtude.2025/12/3
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