A escrita que Obriga o recolher do Coração

Edmilson Panguana"

A ideia de pensar num “Recolher Obrigatório do Coração” exige, forçosamente, uma incursão na semântica do étimo latino “recolligo”. Segundo o dicionário Priberam, o termo remete ao acto de reunir coisas dispersas. Em diálogo com este, surge o conceito de “obligatorius” que designa o indispensável e/ou inevitável, aquilo que se impõe, e não pode deixar de ser cumprido. Juntos, os termos sugerem uma necessidade vital de reorganizar o íntimo, transformando o recolher num compromisso inadiável com o próprio ser.

Nesta linha de pensamento, Álvaro Taruma, em sua obra “Recolher Obrigatório do Coração”, conduz-nos a um universo de poemas intimistas e confessionais. Fortemente, marcados pela presença dum sujeito lírico confrontado pela impossibilidade prática de suas aspirações, vendo-se, por isso, compelido a recolher-se entre os destroços do coração. Sem deixar, contudo, de explorar as antinomias e absurdos que a vida impõe. E, é precisamente neste sentido que Marcelo Panguana identifica nesta obra um sujeito poético inquieto e revoltado face ao seu tempo, excitado pela ideia de violar novas e virgens linguagens e formas de estar.

Esta tensão entre o ímpeto de expansão e a necessidade de recolhimento ganha força na epígrafe de abertura da primeira parte da obra “Animais com cordas no coração”. Essa frase carrega uma terrível força metafórica, trazendo a imagem dum animal, símbolo da pulsão, da liberdade e do instinto preso as cordas. Estas representam, neste contexto, laços afectivos e desejos que prendem o sujeito ao amor e à busca pela satisfação ou como tensões de um instrumento que, para emitir som, precisa estar sob pressão.

Assim, o recolher é, antes, um estado necessário para que essas cordas não se rompam face à impiedosa realidade. Nesta sonoridade dolorosa, entre o instinto e a restrição, que a poesia se apresenta como um “manifesto sobre e para o amor”, conforme o próprio autor sugere na sua dedicatória a um leitor desconhecido. Essa dualidade entre a vibração afectiva e a contenção existencial ganha corpo em composições como “Poema” e “Sozinho”.

“Poema” é título do texto no qual o recolhimento e a tensão das cordas tornam-se palpáveis, quando o sujeito lírico assume-se como um operário do impossível, tentando “edificar o céu” (tarefa que ele próprio descreve como um “estranho oficio”) com a “argamassa dos sonhos”. Um esforço que remete à ideia da primazia da Vontade de Arthur Schopenhauer. Para o qual, mesmo que o mundo seja a representação do Eu, é movido por um desejo cego e incessante que raramente encontra satisfação na realidade material.

Todavia, é, justamente, no choque entre o desejo criativo e a teimosa indiferença do mundo que a tragédia se instala. À medida que a relutância da matéria em submeter-se à vontade do poeta resulta na percepção do mundo como real, constrangedor, limitante e desobediente. Por conseguinte, o sujeito poético assiste, impotente, ao desabamento dos “blocos de nuvens” sobre a sua própria cabeça de vidro, restando-lhe apenas o recolhimento como refúgio para a consciência ferida.

Enquanto no poema “Sozinho” o recolher atinge uma profundidade quase cirúrgica. O eu lírico actua com uma perícia forense para “decantar o silêncio” e “reconstruir o derradeiro grito”. A solidão, neste contexto, funciona como um espaço de exilio onde o encanto se perdeu (“os pássaros cantam sem encanto”), restando apenas a saudade que desce “hirto em minhas frias veias”. Entretanto, o poeta resgata a sonoridade, a música daquelas cordas no coração, ao questionar “quem ressuscita a voz dos búzios?”.

Essa recuperação ocorre após ele descer ao abismo, num barco nocturno que navega dentro de si mesmo, num movimento de introversão que remete à “vida contemplativa” de Byung Chul Han. No sentido em que para este, o silêncio significa, antes de tudo, a interrupção necessária da hiperactividade do mundo. Entretanto, ao decantar o silêncio, o eu lírico exerce o que Martin Heidegger chamaria de escuta do ser, um estado de recolhimento, onde o sujeito despojado das distrações externas, finalmente confronta a verdade da sua própria existência. Portanto, o barco noturno não foge da realidade, mas mergulha na única substância que o tempo não pode, a memória e a essência do sentir.

Se na primeira parte da obra confrontou-nos com a imposição vital de reunir os fragmentos internos, sob o título “Recolher para dentro a noite”, a parte dois aprofunda o movimento da introversão. A partir da transmutação do acto de recolher, de uma simples acção de defesa contra o desabamento do real para uma imersão deliberada num território metafórico onde as fronteiras entre o sujeito e o mundo se diluem na obscuridade. Enquanto o dia funciona como expressão da hiperactividade e da visibilidade constrangedora da “Sociedade do desempenho” (Han), a noite surge como um ninho onde o eu lírico pode, finalmente, habitar o seu próprio desassossego.

Neste estágio da obra, a escrita de Álvaro Taruma parece sugerir que o verdadeiro “recolher” exige coragem para confrontar o obscuro e indizível. Pois, é a noite que as cordas no coração vibram de forma mais densa, transfigurando a solidão forense da primeira parte num mergulho absoluto na essência da sombra, onde buscar por outras linguagens se torna um imperativo éctico e estético. Neste contexto de imersão nocturna, o poema “Cordas para suicídio e violinos” abrevia a angústia existencial do sujeito poético.

Aqui, a corda que antes sustentava a tensão afectiva ressurge com uma ambiguidade mortífera. Isto é, o objecto capaz de interromper a vida (acto de suicidar-se) permite a vibração da arte (acordes do violino). Nesta linha de ideias, a exaustão do sujeito de desempenho, descrita por Byung-Chul Han, manifesta-se no cansaço de quem perde o comboio a estacão e se vê preso num jardim humano de ilusões. O poeta, contudo, ancora essa dor na topografia urbana de Maputo através de uma devastadora riqueza polissémica no verso “perdi my love na paragem”.

Literalmente, a expressão refere-se à mágoa que o sujeito poético sente pela perda da sua amada, contudo, o seu sentido figurado, e profundamente local, expressa desilusão de quem perde o transporte precário de caixa aberta popularmente conhecido como my love. Esta homonímia trágica funde o plano íntimo ao social, tornando a perda do transporte na paragem numa metáfora definitiva da imobilidade existencial e da falência das promessas da modernidade. Desta forma, o recolher deixa de ser apenas um introspeção poética para se tornar um destino compulsório para aquele que, exausto e desamparado pelo sistema, é deixado para trás na berma da estrada 

Outrossim, a imobilidade forçada na paragem de autocarro transborda para o poema “Plano Suicida”, onde o recolhimento atinge o seu estado mais patológico e sombrio. E, a depressão é metaforizada como “um cão que se aloja por dentro da cabeça”, latindo até descobrir a próprio esperança. Enquanto a corda, na análise anterior, representava o instrumento de tensão, nesta o sujeito torna-se num recolector de madeira para a construção do barco.

No entanto, trata-se dum barco, veículo de fuga para o planeta da morte, não apenas de salvação contemplativa. Com esta imagem, Taruma radicaliza a “Sociedade do Cansaço” de Byung-Chul Han, quando o “poder-fazer” se esgota e o my love parte sem o levar, o sujeito poético vê na serena contemplação de um corpo inerte a sua última forma de resistência. Por este prisma, o plano de fuga é a resposta final de quem, no secreto ofício da insónia, compreende que não nasceu para ser pedreiro da própria dor, optando por traçar um plano que transporte para além do jardim das ilusões.   

Deste modo, o “Recolher Obrigatório do Coração”, em última análise, revela-se uma obra cartográfica da sobrevivência em tempos de desmoronamento. No sentido em que vemos a escrita de Taruma transmutar a exaustão duma sociedade de desempenho em matéria-prima para criação. Conseguinte, o recolhimento, que etimologicamente sugere um reunir de coisas dispersas, deixa de ser uma imposição do fracasso para se tornar um imperativo ético, o habitar a própria sombra quando o mundo exterior se torna um deserto de vaselina.

Além disso, Taruma demonstra com sua escrita que, embora o sujeito lírico perca o transporte e o comboio da modernidade, resgata com o estranho ofício da poesia, a capacidade de fazer do insucesso um poema. Portanto, o coração não se recolhe para morrer, mas para decantar o silêncio e preparar o barco nocturno que, mesmo sozinho, é capaz de navegar contra a impiedosa realidade. Assim, esta obra não pode ser considerada apenas um manifesto sobre o amor, pois, é, acima de tudo, a prova de que a beleza sobrevive na tensão das cordas, entre o silêncio do violino e o grito da última ave.

2025/12/3