Segurança e Transformação Social: Reflexão sobre os Impactos da Presença Militar nas Comunidades Afectadas pelo Terrorismo

Dário Júlio Albino Maunze"

A presença militar nas comunidades afectadas pelo terrorismo ultrapassa a dimensão da segurança e da protecção das populações. Em Moçambique, a violência armada tem condicionado a vida de muitas famílias, obrigando-as a adaptar as suas rotinas e actividades. Neste contexto, a presença das Forças de Defesa e Segurança pode contribuir para a recuperação da tranquilidade e para a retoma gradual da vida comunitária.

Entretanto, a convivência entre militares e civis também produz efeitos nas relações sociais, nas actividades económicas e nos hábitos culturais. Entre oportunidades de aproximação e desafios de relacionamento, importa reflectir sobre as mudanças que acompanham essa presença e sobre as marcas que poderão permanecer nas comunidades após o descombater das forças destacadas.

Em conversas com alguns moradores de uma comunidade afectada pelo terrorismo, que não posso mencionar, obviamente por razões de segurança, a presença militar é associada a uma maior sensação de protecção e à possibilidade de retomar actividades anteriormente condicionadas pela insegurança. A pesca, a comercialização de mariscos, a produção de sal, aliás, sal doméstico para ser mais específico, e a agricultura dependem, em grande medida, da possibilidade de circular e trabalhar com relativa tranquilidade. Esses moradores referem também que as crianças frequentam a escola com mais calma e que os adultos conseguem realizar as suas tarefas com menos receio.

Estas percepções mostram que a segurança tem efeitos concretos no quotidiano, porque permite que as famílias procurem sustento, os comerciantes mantenham os seus negócios e as comunidades recuperem gradualmente as suas rotinas.

A presença militar pode igualmente dinamizar a economia local. O aumento da procura de bens e serviços pode beneficiar pequenos comerciantes e agentes de carteira móvel, sobretudo nas localidades sem agências bancárias. Contudo, os benefícios não são iguais para todos, e uma maior procura pode contribuir para a subida dos preços. Assim, as oportunidades económicas devem ser analisadas juntamente com as dificuldades que podem afectar parte da população.

O contacto quotidiano entre militares e civis, através de conversas, actividades comunitárias, relações comerciais e ajuda mútua, pode favorecer o conhecimento recíproco e a construção de confiança. Em algumas comunidades onde o futebol ocupa um lugar de destaque, partidas amigáveis entre equipas militares e locais, ou assistir jogos da comunidade e de campeonatos internacionais, também podem aproximar as pessoas.

E, como acontece frequentemente, basta uma decisão polémica do árbitro para transformar espectadores tranquilos em verdadeiros especialistas de arbitragem! Para além do humor, estes momentos mostram que actividades de lazer, quando fazem parte dos hábitos locais, podem facilitar a convivência, embora não sejam comuns a todas as comunidades, é claro, dependendo também do contexto operacional da Força alocada.

A convivência também aproxima pessoas com hábitos alimentares, línguas e referências culturais diferentes. Um militar da zona sul do país, habituado a consumir xima com cancana, por exemplo, pode descobrir novos sabores ao experimentar xima ou até mesmo karakata com guisado moringa ou nheede frito, ou ainda, frutas verdes ou secas mesmo, como manga adicionado a um guisado qualquer, papaia no caril de folhas de mandioqueira, mas ia dizer matapa, mas posso trazer uma confusão na interpretação. O que inicialmente parece estranho pode tornar-se familiar e até desejado. Não seria surpreendente que alguém que provou algumas iguarias com alguma desconfiança acabasse, dias depois, a perguntar quando seria servido novamente. Afinal, a integração também pode começar pelo estômago!

A língua é igualmente um factor importante no contexto desde debate. Por um lado, alguns militares procuram aprender expressões locais, como Salaama, Koxeleliwa, mwanaka ou mpattane, expressões para saudação, solicitar alguma ajuda como nkimele maassi, ou ainda expressões para conquistar as mulheres kinusiveliwa ninyo-wo okala mwaraka. E Por outro, expressões como madala ou edjou também podem entrar nas conversas de alguns moradores.« Esta troca mostra que a transformação cultural não ocorre apenas em um sentido. Militares e civis podem incorporar elementos uns dos outros, sem necessariamente abandonarem os seus hábitos tradicionais.

A aproximação entre militares e civis pode também estender-se às relações afectivas. Em algumas conversas, moradores manifestaram preocupações relacionadas com a oferta de dinheiro e presentes para as mulheres em troca de sexo, ou para efectivamente conquistar uma parceira, o que de certa forma, pode limitar a capacidade de outros jovens locais de encontrar mulheres para casar. Há expectativas criadas e a possibilidade de surgirem filhos, quando os militares se encontram alocados temporariamente numa determinada região.

Estas preocupações não permitem generalizar comportamentos, pois existem relações construídas com respeito e responsabilidade. Contudo, quando os compromissos não são assumidos, as consequências podem recair sobretudo sobre as mulheres e as crianças frutos de relações conjugais com militares.

A mobilidade de militar torna esta questão particularmente relevante. Uma transferência de uma posição para outra, ou uma rendição das forças, não deve funcionar como fuga estratégica das responsabilidades parentais para a mãe e seus filhos. O fim de uma missão não elimina os deveres perante os filhos, independentemente da distância geográfica.

O desafio não é impedir as relações entre militares e civis, mas promover o respeito, a consciência das consequências e a responsabilidade individual, para que a convivência não origine problemas que sejam suportados exclusivamente pelas famílias das comunidades em alusão.

A presença militar nas comunidades afectadas pelo terrorismo deve ser analisada não apenas pelo seu papel na segurança, mas também pelas oportunidades económicas, pelas trocas culturais e pelos desafios sociais que acompanham a convivência.

Entre uma conversa na língua local, uma refeição partilhada ou, onde isso acontece, um jogo de futebol, pequenas experiências podem deixar marcas importantes. Mas permanece uma questão essencial, que marcas sociais permanecerão nas comunidades quando os militares deixarem de estar presentes? E, mais importante ainda, como assegurar que as mudanças vividas no presente se traduzam em benefícios que permaneçam no futuro?

Estas perguntas convidam-nos a olhar para a presença militar não apenas pelo seu papel no contexto actual de insegurança, mas também pelas transformações que podem ocorrer e pelos desafios que deixa à sociedade.

Portanto, o verdadeiro alcance da presença militar talvez não se revele apenas enquanto as forças permanecem nas comunidades, mas também naquilo que as comunidades conseguem preservar, desenvolver e transformar depois que elas descombatem, ou os valores que militares carregam para as suas unidades e para as suas famílias.

2025/12/3