KENDZIANISMO: A SALVAÇÃO DOS EXCLUÍDOS OU O SINTOMA MAIS VISÍVEL DO DESEMPREGO ESTRUTURAL EM MOÇAMBIQUE?

Alípio Freeman "

Há fenómenos que surgem discretamente, crescem à margem dos grandes debates nacionais e, quando damos conta, já se encontram profundamente entranhados no tecido económico e social. O Kendzianismo é um desses fenómenos. Não nasceu ontem. Não foi inventado recentemente. Não resulta de nenhuma escola de negócios, nem de alguma teoria económica sofisticada produzida nas universidades mais prestigiadas do mundo. O Kendzianismo é uma realidade construída nas ruas, nos mercados, nos bairros, nas esquinas e nos corredores informais da economia moçambicana.

Contudo, a sua crescente visibilidade exige que o fenómeno seja analisado com maior profundidade. Não apenas como uma actividade económica de sobrevivência, mas como um espelho capaz de reflectir as virtudes, as contradições e as fragilidades da própria economia nacional.

O conceito deriva de Kendze, palavra da língua xangana que significa testículo. Curiosamente, aquilo que tradicionalmente poderia ser encarado como uma ofensa converteu-se, sobretudo entre os mais jovens, numa designação carregada de prestígio, reconhecimento e até admiração. No contexto actual, porém, Kendze deixou de ser apenas uma palavra do vocabulário popular para se transformar numa referência social.

A designação encontra eco numa das figuras mais mediáticas associadas à intermediação comercial em Moçambique. Embora não seja o criador do modelo nem o único exemplo de sucesso, tornou-se provavelmente o seu rosto mais visível, mais influente e mais representativo. O alcance da sua imagem e das suas ideias foi tal que o seu nome passou a identificar um modo de estar na economia, uma filosofia de sobrevivência e uma estratégia de geração de rendimento.

Desta realidade emerge aquilo que aqui designamos por Método Kendziano.

O Método Kendziano assenta numa lógica aparentemente simples. O indivíduo não precisa de ser proprietário do produto que comercializa. Não necessita de possuir uma fábrica, uma loja, uma empresa estruturada ou um grande capital inicial. O seu principal activo é a sua capacidade de identificar oportunidades, aproximar compradores e vendedores, construir redes de contacto, negociar preços, promover produtos e facilitar negócios.

O Kendziano vive da intermediação. Vive da capacidade de ligar necessidades a soluções. Vive da sua influência, da sua persuasão, da sua rede de relacionamentos e da sua habilidade de transformar informação em rendimento.

Por consequência, chamaremos Kendziano a todo aquele que utiliza este método para a sua subsistência. E chamaremos Kendzianismo ao fenómeno económico e social que resulta da disseminação desta prática.

O mais interessante é que o Kendzianismo não pode ser analisado apenas como um modelo de negócio. Na realidade, ele representa uma resposta colectiva a um problema estrutural muito maior: a incapacidade da economia moçambicana em gerar oportunidades formais suficientes para a sua população jovem.

Todos os anos, milhares de jovens concluem o ensino médio, cursos técnico-profissionais e formações universitárias. Todos os anos, novos cidadãos entram no mercado de trabalho com expectativas legítimas de construir uma carreira, alcançar estabilidade financeira e contribuir para o desenvolvimento do país. Contudo, a economia formal revela-se incapaz de absorver esta crescente massa de mão-de-obra.

O Estado continua a ser, directa ou indirectamente, o maior empregador nacional. Mas os seus limites financeiros são cada vez mais evidentes. As admissões são reduzidas. Os concursos tornam-se cada vez mais competitivos. As oportunidades são escassas.

Por outro lado, o sector privado continua a crescer abaixo das necessidades do país. Existem empresas, existem investimentos e existem iniciativas empreendedoras relevantes. Contudo, o volume de empregos gerados permanece insuficiente para responder à procura existente.

É neste vazio que nasce a força do Kendzianismo.

Aquilo que para muitos economistas aparece apenas como informalidade representa, para milhares de jovens, uma autêntica estratégia de sobrevivência. O Kendzianismo permite gerar rendimento onde não existe emprego. Permite criar oportunidades onde não existem vagas. Permite transformar relações sociais em capital económico.

Em muitos casos, o jovem Kendziano consegue obter rendimentos superiores aos oferecidos por determinados empregos formais. Consegue pagar renda, sustentar a família, investir em pequenos negócios e financiar a sua formação académica.

Sob este prisma, seria injusto e intelectualmente desonesto ignorar a importância económica do fenómeno.

O Kendzianismo movimenta recursos financeiros significativos. Facilita a circulação de bens e serviços. Aproxima produtores e consumidores. Dinamiza sectores como o imobiliário, o comércio automóvel, a construção civil, a venda de terrenos, o turismo, os serviços e inúmeras outras actividades económicas.

Contudo, aquilo que hoje parece uma solução pode também representar um sinal de alerta. O crescimento acelerado do Kendzianismo pode ser interpretado como uma demonstração admirável da capacidade de adaptação dos moçambicanos. Mas pode igualmente ser interpretado como evidência de que os mecanismos tradicionais de geração de emprego estão a falhar.

Uma economia robusta caracteriza-se pela sua capacidade de produzir riqueza através da produção de bens, da industrialização, da agricultura moderna, da inovação tecnológica e da prestação de serviços especializados. A intermediação possui um papel legítimo neste processo, mas dificilmente pode constituir a actividade dominante de uma geração inteira.

Quando milhares de jovens passam a depender da intermediação informal como principal fonte de rendimento, talvez não estejamos apenas perante uma demonstração de criatividade económica. Talvez estejamos perante a manifestação mais visível de uma economia incapaz de oferecer alternativas mais estáveis e produtivas.

Existe ainda uma outra dimensão frequentemente ignorada. Grande parte das actividades associadas ao Kendzianismo desenvolve-se numa zona cinzenta do ponto de vista legal e institucional. Muitas transacções ocorrem sem contratos formais. Muitas comissões são definidas verbalmente. Muitas parcerias assentam exclusivamente na confiança pessoal.

Esta realidade cria um ambiente propício para conflitos. Disputas sobre clientes. Divergências relativas às comissões. Acusações de concorrência desleal. Apropriação indevida de contactos. Litígios sobre a autoria dos negócios realizados.

Mais grave ainda é o facto de algumas práticas poderem contribuir para distorções de mercado. Em determinadas circunstâncias, a proliferação excessiva de intermediários aumenta os custos das transacções, dificulta a transparência dos preços e alimenta comportamentos oportunistas.

O problema não está nos Kendzianos. O problema está nas condições que produzem cada vez mais Kendzianos.

Quando uma sociedade começa a considerar normal que uma parte significativa da sua juventude dependa exclusivamente da intermediação informal para sobreviver, talvez esteja a perder a capacidade de distinguir entre solução e sintoma.

O Kendzianismo é uma solução individual. Mas o desemprego estrutural continua a ser um problema colectivo.

O Kendzianismo deve ser valorizado pela sua capacidade de gerar rendimento. Deve ser reconhecido pelo papel que desempenha na inclusão económica de milhares de jovens. Deve ser compreendido como uma resposta legítima à falta de oportunidades. Mas não deve ser celebrado como destino.

O verdadeiro desafio de Moçambique não é produzir mais Kendzianos. O verdadeiro desafio é criar condições para que o Kendzianismo deixe de ser uma necessidade e passe a ser apenas uma opção entre muitas outras.

Por isso, o Kendzianismo deve ser lido como aquilo que realmente é: uma solução engenhosa para quem procura sobreviver, mas também um sintoma preocupante de uma doença estrutural que continua por tratar. E, como acontece com qualquer doença crónica, ignorar os sintomas pode custar muito mais caro do que enfrentá-los a tempo.

2025/12/3