Carta ao Pai Natal (Atrasada)

Alípio Freeman "

 

Esta carta nasce fora de tempo, como quase tudo o que é sincero e honesto. Não chega em Dezembro, não traz laços nem papel brilhante, chega nua, crua, carregada de poeira e perguntas . É uma carta atrasada ao Pai Natal, escrita ao som e sob a sombra  da música do Boss AC (meu grande idolo), Carta ao Pai Natal, que mais do que uma canção é confissão colectiva exteriorizada em um contexto europeu, mas que transcende oceanos ate chegarem a maltratada África. Este é um exame de consciência em forma lírica, sermão urbano disfarçado de simples texto, que de simplicidade tem pouco. Escrevo-te, Pai Natal, porque o mundo perdeu o endereço da esperança e alguém tem de chamar atenção para a caixa postal do esquecimento. Escrevo-te porque, como canta o Boss AC, há cartas que não pedem brinquedos, pedem sentido.

Caro Pai Natal, quando eu era novo acreditava em ti com a fé inteira dos que ainda não aprenderam a duvidar. Acreditava sem cláusulas, sem rodapés, sem letras pequenas. E tive razões para isso. Tive brinquedos. Tive surpresas. Tive aquela magia silenciosa que acontecia de madrugada, quando o mundo parecia conspirar para ser bom. Até hoje acredito que mereci esses presentes, fruto do bom comportamento, não porque fosse santo, mas porque me ensinaram que ser correcto tinha recompensa.

A família fazia questão de falar contigo. Não era um ritual vazio; era quase um culto doméstico. Agradecia-se, explicava-se, justificava-se. Quando eu saía e não encontrava marcas das rodas do trenó nem pegadas das renas, a avó surgia como guardiã da lógica poética do mundo: dizia que, por causa da distância, accionavas o modo voo. E aquilo bastava. Afinal, como diz o Boss AC noutra cadência, não é fácil chegar a todos ao mesmo tempo. Não era fácil, e eu aceitava.

Mas cedo demais começaram as perguntas. Por que alguns amigos nunca recebiam presentes? Por que certas casas amanheciam sempre em silêncio, sem papel rasgado, sem risos, sem novidade? Na minha ingenuidade, pensei que fosse mérito ou castigo. Que alguns não mereciam. Que o mau comportamento tinha preço. A música do Boss AC, anos mais tarde, ensinou-me que essa explicação era confortável demais para ser verdadeira.

Hoje sei, Pai Natal, que a justiça raramente entra pela chaminé.

Cresci. E crescer é isso: perceber que o mundo não funciona como o prometido, mas continuar a exigir que funcione melhor. E apesar da idade, apesar do cansaço, apesar da ironia que a vida nos impõe, continuo a acreditar em ti. Como diz o Boss AC e permito-me parafrasear , mesmo quando meio mundo desconfia, há sempre alguém que insiste em acreditar. Porque se és Pai Natal, deves ser pai. E se és pai, és responsável. E quem é responsável não pode virar o rosto.

Esta carta, Pai Natal, inspirada quase linha por linha no meu idolo, não é um pedido individual. É uma chamada de atenção. Um puxão de orelhas no mundo adulto que falhou, que falha no cuidado às crianças. Pai Natal  peço-te encarecidamente que olhes para os que não têm o que comer. Para as crianças que não têm pais e que cedo tiveram que virar pais dos seus mais novos, e para aquelas cujos pais estão vivos, mas derrotados pela violência desta vida, esses merecem sua especial atenção Pai natal. Pais que trabalham e o que ganham não chega. Mães que esticam o pouco como quem estica a fé.

Que neste ano, Pai Natal, não falte trabalho nem comida na mesa de nenhuma família. Porque não há brinquedo que substitua dignidade.

Não quero politizar este diálogo, mas o mundo insiste em fazer política com a fome, com a miséria, com a esperança. Por isso, peço-te dê juízo aos nossos dirigentes, para que não percam a humidade, não peço santidade a estes humanos, apenas juízo e humanismo, para que roubem menos, ou pelo menos que saibam quando parar, ou ainda, que roubem para ajudar os mais necessitados. Aos políticos, que se lembrem de que governar não é acumular, é cuidar. Que se compre mais comida do que armas. Porque nenhuma bala mata a fome, mas toda a fome mata alguém.

Que Cabo Delgado seja devolvida aos moçambicanos e que os recursos la existentes não sejam o móbil para chacinas e migrações programadas, para que as cabeças decapitadas neste lugar se liguem ao corpo na memória dos seus, e que suas almas encontrem o Eterno descanso. Não como slogan, mas como realidade. Que a política deixe de ser um cabo de guerra onde o povo é a corda que se rompe. Que as diferenças não sejam desculpa para a desumanização. E, Pai Natal, aos estrangeiros que chegam, lembra-lhes que este país não é uma capoeira. Tem dono, tem história, tem feridas abertas.

Eu sei, Pai Natal, que te estou a dar poderes que talvez nunca pediste. Sei que no teu trenó cabem brinquedos, não projectos de nação, não reformas morais, não sonhos de um quase velho que já viu demais. Mas como canta o Boss AC na sua Carta ao Pai Natal, há pedidos que não cabem em embrulho, só cabem em consciência. Lamento que poucas crianças hoje acreditem em si, tal como os adultos os ensinaram, e as crianças aprendem com exemplos e se moldam na descrença dos seus, pena que tenhamos mais exemplos de guerras, ídolos assassinos para os nossos menores. Como permitiste pai natal, que a degradação moral atingisse as crianças recem saídas do berçário?

Porque para encontrares essas crianças no próximo Natal, há um jogo de bastidores que poucos querem ver. Há pais que gastam o que não têm para alimentar filhos que não pediram para nascer num sistema viciado. Há um sistema que combate os pobres em surdina, negando-lhes saúde, educação, futuro. Crianças que crescem como quem aprende a nadar num naufrágio constante, agarradas ao que lhes cai na rede, se é que cai.

Quando cá passar Pai Natal, faça os possíveis para que a exploracao da mão –de- obra infantil se extinga, se possível peça uma audiência ao Chapo, lhe diga para criminalizar o trabalho infantil, para que as crianças não tenham que vender nas ruas, para que não se percam procurando latas vazias nos bares e barracas desta selva.

Pai Natal, esta carta é tardia sim, mas precisava escrever- lhe meu velho. Porque chega num tempo em que a decadência moral se normalizou. Em que o errado virou estratégia, o egoísmo virou mérito, a indiferença virou estilo de vida. Talvez a culpa também seja tua — perdoa-me a ousadia — por permitires que os nossos presentes não nos transformassem em pessoas melhores. Deste-nos brinquedos, mas esqueceste-te de nos ensinar a partilhar o mundo.

Como na música do Boss AC, esta carta não pede luxo, pede humanidade. Aos idosos sozinhos em casa, dá-lhes companhia. Não apenas visitas protocolares, mas presença real. Aos indigentes, permite-lhes sonhar com um lar, com uma família onde o amor floresça e não seja excepção.

Pai Natal, esta carta é uma crónica porque observa, mas também acusa. É poética porque sente, mas é política porque não foge. É inspirada no Boss AC porque ele soube transformar desilusão em arte e arte em denúncia. Aqui, quem manda neste jogo lírico não é a fantasia, é a verdade vestida de metáfora.

Sem mais delongas, Pai Natal, peço perdão por ter sido um mau menino no ano transacto. Não por ter errado…errar é humano, mas por ter, às vezes, ficado calado quando devia falar. E se me perdoares, peço-te algo simples e imenso: lembra-te das minhas meninas. No passado, adormeceram à tua espera. Pela manhã, as meias continuavam vazias. Até hoje estão lá, na chaminé, como um protesto silencioso contra a promessa não cumprida.

Elas não têm culpa da nossa má sorte. Não têm culpa de um mundo que entrega armas mais rápido do que pão. Não têm culpa de adultos que esqueceram como se acredita.

Esta é uma carta atrasada, Pai Natal.
Mas enquanto houver quem escreva, enquanto houver quem cante  como o Boss AC cantou , talvez ainda haja tempo de endireitar o mundo antes do próximo Natal.

 

2025/12/3