O Sucesso Colectivo Raramente Resulta do Improviso, a Selecção Japonesa no Mundial 2026

Alberto Mudjadju"

A cena do selecionador japonês a levantar placas com números durante o Mundial chamou muita atenção porque simboliza algo profundamente associado a cultura organizacional japonesa: disciplina, preparação minuciosa e execução rigorosa das instruções. Durante o jogo o treinador japonês Hajime Moriyasu, utilizou quadros com números para transmitir orientações tácticas aos jogadores. Algo que suspeita se que correspondia a sistemas de jogo, movimentações ou jogadas previamente treinadas, permitindo que a equipe mudasse de estratégia sem revelar as instruções aos adversários. Do ponto de vista sociológico e cultural, esta prática reflecte valores tradicionais do Japão: Shudan Ishiki (consciência colectiva), o grupo é colocado a cima do individuo; Kaizen, melhoria continua através do treino repetitivo; Disciplina e obediência funcional, cada jogador conhece antecipadamente o significado dos códigos e executa a tarefa sem necessidade de longas explicações; Planeamento antecipado, dezenas de cenários são treinados antes da competição, algumas observações indicavam números que chegavam a 45, sugerindo um vasto repertorio táctico preparado previamente. A ideia de que sociedades que valorizam organização, preparação e responsabilidade colectiva tendem a alcançar melhores resultados pode ser observada em vários contextos, como no desporto por exemplo, onde a seleção japonesa de futebol é um exemplo claro, os jogadores seguem rigorosamente os planos tácticos definidos pela equipe técnica, isso permite: melhor coordenação entre os atletas; menos erros individuais; maior capacidade de adaptação durante o jogo; desempenho consistente contra adversários mais fortes. Pode se verificar vantagem também na educação, onde países como o Japão, Correa do Sul e a Finlândia investem fortemente na disciplina escolar, planeamento pedagógico e compromisso colectivo com a aprendizagem, como resultado costumam apresentar elevados níveis de alfabetização e desempenho académico. Na economia, a reconstrução do Japão apos a guerra demonstra como a organização nacional, o trabalho colectivo e a responsabilidade social podem transformar um país devastado numa das maiores economias do mundo. O espirito colectivo também ajuda na gestão de crises, pois durante os desastres naturais, a população japonesa é frequentemente citada pela forma ordeira como responde às emergências. A cooperação entre cidadãos, instituições e autoridades reduz perdas e acelera a recuperação. Do ponto de vista sociológico, Émile Durkheim defendia que a coesão social fortalece a sociedade porque cria normas partilhadas e um sentimento de pertença. Quando os indivíduos entendem que fazem parte de um todo maior, tendem a agir de forma mais responsável e cooperativa. Em Moçambique, estes conceitos podem ser aplicados em áreas como: desenvolvimento comunitário; combate a criminalidade; educação cívica; agricultura organizada; gestão municipal; prevenção do extremismo violento. Quando comunidades, instituições públicas e cidadãos trabalham com objectivos comuns, planeamento e responsabilidade partilhada, aumentam as probabilidades de alcançar desenvolvimento sustentável e coesão social. Assim sendo, a lição deixada pela selecção japonesa não é apenas desportiva, ela mostra que o sucesso colectivo raramente resulta do improviso, resulta da combinação entre preparação, disciplina, confiança mutua e compromisso com objectivos comuns, essas qualidades podem fortalecer tanto uma equipe de futebol assim como uma nação inteira. Aplicar os princípios de organização, preparação e responsabilidade colectiva em Moçambique exige uma mudança que envolva o Estado, as comunidades, as escolas, as empresas e os cidadãos. O objectivo não deve passar por copiar o modelo japonês, mas adaptar as suas lições à realidade moçambicana. Primeiro, fortalecer a cultura de planeamento, onde vai prestar mais atenção a tendência para respostas imediatas e problemas estruturais, sendo necessário: definir metas claras de desenvolvimento para cada distrito e município; monitorar regularmente os resultados; premiar instituições que atinjam os objectivos estabelecidos; garantir continuidade dos projectos para além dos ciclos políticos. Em seguida, investir na educação para a cidadania, onde o desenvolvimento não depende apenas de infraestruturas, mas também de comportamentos sociais, sendo assim as escolas podem reforçar: disciplina; responsabilidade social; cultura de trabalho; respeito pelo bem publico; voluntariado comunitário. Em terceiro lugar, transformar a comunidade em parceira do desenvolvimento, porque muitos problemas podem ser resolvidos quando as comunidades participam directamente, por exemplo: protecção de escolas e centros de saúde; combate as ligações clandestinas de energia, conservação de estradas e fontes de água; prevenção da criminalidade e do extremismo violento. Outra componente não menos importante é valorizar o mérito e a competência, Moçambique pode investir mais no ensino técnico-profissional; apoiar inovação e empreendedorismo juvenil; reforçar a formação de funcionários públicos; promover critérios de mérito na gestão pública e privada. Em quinto lugar, o desenvolvimento sustentável exige iniciativa local, pois é importante: incentivar cooperativas agrícolas; apoiar pequenas e medias empresas; promover poupança e investimento; valorizar a produção nacional, porque a riqueza de um país cresce quando os seus cidadãos produzem mais do que consomem. O reforço da responsabilidade colectiva é importante porque um dos ensinamentos da experiencia japonesa é que cada cidadão deve compreender que as suas acções afectam toda a sociedade, em Moçambique isso significa o seguinte: não destruir bens públicos; não praticar a corrupção; cumprir deveres fiscais; participar em acções comunitárias; respeitar as leis e instituições. Por ultimo, criar uma visão nacional comum, onde o desenvolvimento torna se mais rápido quando existe um objectivo colectivo partilhado, uma visão que assenta se na: unidade nacional; paz e segurança; industrialização; modernização da agricultura; valorização da juventude; preservação da identidade cultural moçambicana. Em suma, as principais barreiras ao desenvolvimento em Moçambique (pobreza, desemprego, corrupção, fraca produtividade, desigualdades regionais e insuficiência de serviços públicos) não serão ultrapassadas apenas com mais recursos financeiros, elas exigem uma cultura de disciplina, organização, planeamento e responsabilidade colectiva. Tal como a seleção japonesa consegue mudar de estratégia em segundos porque todos conhecem o seu papel, Moçambique poderá acelerar o seu desenvolvimento quando instituições e cidadãos trabalharem de forma coordenada, com objectivos claros, confiança mutua e compromisso com o bem comum. Essa é uma das grandes lições que o desporto oferece para a construção de uma nação mais propera e coesa.

2025/12/3