Guerra Fria 2.0

Alberto Mudjadju"

O eterno retorno do idêntico, ideia desenvolvida por Friedrich Nietzsche onde afirma que o universo e todos os eventos que nele ocorrem se repetirão infinitamente, exactamente da mesma maneira, em um ciclo eterno de nascimento, morte e renascimento. Com os últimos acontecimentos mundiais será que estamos diante desse fenómeno? Uma guerra fria num nível mais elevado (mundo multipolar e não bipolar como antes). Guerra fria foi um conflito ideológico e geopolítico entre os EUA e a URSS que não envolveu nenhum conflito militar directo, mas sim uma serie de conflitos por procuração (onde as duas potências não enfrentavam se directamente, mas sim por meio de outros países, por exemplo aqui em Moçambique entre a Frelimo e a Renamo na famosa guerra dos 16 anos, por isso que alguns afirmam que lá no ocidente a guerra foi fria, mas aqui foi quente porque houve disparos), espionagem e propaganda. O mundo estava dividido em dois blocos, o Ocidental (EUA) e o Oriental (URSS), onde a disputa era entre o Capitalismo e o Comunismo que competiam por influência e aliados em todo o mundo, e a corrida nuclear e espacial eram aspectos importantes. No século XXI os EUA aparecem com uma estratégia complexa e multifacetada, dividida em 3 partes: Petróleo, onde quer proteger os seus interesses em relação ao petróleo do Oriente Médio e da América Latina, bem como reduzir a dependência do petróleo do Médio Oriente, explorando fontes alternativas como o xisto e o gás natural. Rotas Comerciais, garantir a liberdade de navegação e comércio, protegendo as rotas marítimas e os interesses dos EUA, assim como negociar acordos bilaterais e multilaterais para promover os seus interesses e investir em infraestruturas com portos e canais, para a sua melhor competitividade. Tecnologia Militar, manter a sua superioridade investindo em tecnologias avançadas, desenvolver novas capacidades e fortalecer a cooperação internacional em matéria de segurança e defesa. Esses planos reflectem a estratégia dos EUA para manter sua posição de liderança global no século XXI. Os EUA para consolidar os seus planos do século socorrem se a “Doutrina Monroe” e a politica “American First”, que são extremamente importantes na sua politica externa, pois a região da América Latina é considerada estratégica para os EUA, e a influência politica e económica na área é um tema recorrente. A Doutrina Monroe estabelece a América Latina como uma zona de influência dos EUA, e estes reservam o direito de intervir na região para proteger os seus interesses, enquanto que a politica American First prioriza os interesses nacionais dos EUA acima de tudo e busca reafirmar sua influência na região, especialmente em relação a potências rivais, podendo reagir caso sinta ameaça ou aproximação de uma potência. Por isso, há quem diga que a acção em Caracas, não foi pelo petróleo (como factor principal, porque também é necessário), mas sim para marcar posição diante das potências que tentam aproximar se, uma acção idêntica ao sucedido durante a guerra fria, mas desta vez não apenas para a Rússia que representava a URSS para a China (os BRICS), um caso para dizer que estamos numa “Guerra Fria 2.0”. Outro dado importante para tentar perceber que o petróleo não foi a principal causa é o facto dos EUA serem neste momento os maiores produtores de petróleo do mundo, com uma produção de 14,8 milhões de barris por dia, seguidos da Arabia Saudita com 12,4 milhões de barris por dia e a Rússia a fechar o pódio com 11,2 milhões, a Venezuela nem consta do top 10, pois este produz cerca de 900mil barris por dia para dizer que ter os recursos não é sinonimo de riqueza, pois há uma necessidade de um bom investimento para ter o retorno desejável, temos também o caso da Nigéria que é um dos maiores produtores de petróleo de África, mas tem uma economia diversificada e enfrenta desafios de desenvolvimento, ou seguir o exemplo da Noruega que tem reservas de petróleo significativas, mas investiu em fundo soberano para garantir estabilidade económica e a diversificação. “Guerra Fria 2.0” porque os EUA para além de ter a Rússia como o seu principal inimigo estão implementando uma estratégia de bloqueio a China em várias frentes (depois do Irão e Rússia, o próximo da cadeia alimentar seria a China) como: guerra comercial, os EUA impõem tarifas elevadas sobre produtos chineses, como 124% sobre alguns itens, enquanto a China responde até 125% sobre importações americanas; Restrições Tecnológicas, os EUA limitam a exportação de microchips e outras tecnologias criticas para a China, visando reduzir a dependência chinesa, por sua vez a China restringe o fornecimento da prata para os EUA que usam para a produção do material militar porque a China depois do Perú é o país que tem mais jazigos de prata; Apoio à Taiwan, os EUA mantém uma politica de ambiguidade estratégica em relação a Taiwan, apoiando militarmente a ilha sem reconhecer formalmente a sua independência, como resposta a China realiza exercícios militares em torno de Taiwan, incluindo simulações de bloqueio e ataques. Essas tensões reflectem uma rivalidade mais ampla entre EUA e China, com implicações globais para a economia, segurança e geopolítica, sem mencionar a rivalidade que os EUA tem com o Irão e a Rússia.

2025/12/3