Da varanda para Varandas e o Sporting Clube de Portugal

Alberto Mudjadju"

As declarações de Frederico Varandas, presidente do Sporting Clube de Portugal geraram, geram e gerarão muita controvérsia e critica especialmente para os africanos que analisam racionalmente e não emocionalmente as palavras ʺ...isso já não se vê na Europa periférica, só é visto em Áfricaʺ, pelo caracter ofensivo que carregam. Estas declarações perpetuam estereótipos negativos sobre a África e seus povos, sugerindo que o continente é atrasado (não precisamos de lembretes de quem tem culpa perante essa situação) em relação a Europa, para além dessas declarações ignorarem a diversidade e a complexidade de África, reduzindo o continente a uma visão simplista e estereotipada. Junto me a muitos africanos e descendentes que de imediato expressaram sua indignação e descontentamento nas redes sociais e outros canais, para não falar de alguns lideres africanos que consideraram uma forma de racismo e discriminação. É fundamental reconhecer e desafiar os estereótipos e visões negativas que perpetuam a descriminação e o racismo. África é um continente incrivelmente diverso, com mais de 50 países e 2.000 línguas, culturas, tradições e histórias únicas, com uma rica biodiversidade e recursos naturais com povos resilientes e criativos, sendo fundamental reconhecer e valorizar essa diversidade em vez de perpetuar estereótipos e visões simplistas. Mas para tal, isso requer um aprender sobre a história e a cultura africana, bem como respeitar as diferenças e promover a igualdade (juntos podemos trabalhar para uma maior conscientização pela África e seus povos).

Quem julga África por conta do seu subdesenvolvimento deve ter em conta que a história deste continente é marcada por séculos de colonização (desde a colonização árabe que foi a mais terrível porque envolvia a castração até a europeia, que em algumas situações roubou nos a nossa identidade), exploração e opressão por parte da Europa, o que contribuiu significativamente para a estagnação no tempo do continente. Porque a Europa colonizou a África, explorando seus recursos naturais e humanos, e impondo sistemas económicos e politicos que beneficiavam os colonizadores, mesmo após as independências, a Europa continuou a exercer influência económica e politica sobre África, perpetuando a dependência e o subdesenvolvimento. Portanto, é importante perceber que para além dos desafios que a própria África tem como corrupção, conflitos internos, e falta de investimento em educação e infraestruturas, tem também a responsabilidade compartilhada junto da comunidade internacional, incluindo a Europa que tem como responsabilidade ajudar a África a se desenvolver (voltamos a velha discussão entre Nelson Mandela e Desmond Tutu, onde um dizia que a Europa devia indemnizar a África pelos danos causados pela colonização, outro dizia que não há nenhum valor que possa pagar os que eles fizeram connosco, daí que o melhor é seguir em frente).

A história econômica da Europa (a não periférica) hoje, está intimamente ligada a exploração dos recursos (ouro, diamante, escravos, matérias primas) em África, que contribuíram significativamente para o desenvolvimento económico da Europa, especialmente durante a Revolução Industrial, para poder hoje ter a capacidade de perceber que está acima de África. Graças a este continente a Europa teve o seu desenvolvimento econômico e avanço civilizacional, e não podemos esquecer que a África é o berço da humanidade e tem uma rica história de civilizações avançadas, como Egipto, a Núbia, a Etiópia, etc, a colonização criou a destruição de culturas e a criação de dependência económica, e como resultado final o subdesenvolvimento que se verifica até os dias de hoje. É importante reconhecer a complexidade da história e trabalhar para uma relação mais justa e equitativa entre a Europa e a África, e não uma relação de quem está acima de quem, pois a história ditou muita coisa para o status quo de ambos os continentes hoje em dia. Nenhum europeu pode simplesmente condenar a África pelo seu subdesenvolvimento sem reconhecer a sua própria responsabilidade no passado, porque a história da colonização, exploração e opressão é um fardo que a Europa ainda carrega e que afecta a África até hoje. Existem vários aspectos que a Europa deve olhar por eles como reconhecer a divida histórica que tem com a África e trabalhar para liquidar, bem como trabalhar com a África para promover o desenvolvimento sustentável e equitativo do continente africano, e não preocupar em discursos como as do presidente do Sporting Clube de Portugal, Frederico Varandas com a ideia de menosprezar o continente que os ajudou a estar onde está a nível civilizacional. Estas declarações são um caso mesmo para mais uma vez discordar a velha frase de Leopold Senghor ʺA razão é helénica, e a emoção é africanaʺ, pois o presidente Varandas deixou se muito levar pela emoção.   

2025/12/3