
Alberto Mudjadju"
Ceuta demonstra que, na geopolítica o valor de um território não é determinado pelo seu tamanho, mas pela posição que ocupa no mapa do poder. Ceuta é uma cidade autónoma espanhola situada no norte de Africa, na costa do mediterrâneo, junto ao estreito de Gibraltar, faz fronteira terrestre com Marrocos, embora pertença politicamente a Espanha. A importância de Ceuta é sobretudo histórica e geopolítica. Hoje, Ceuta é particularmente importante por 3 razoes: é uma posição estratégica na entrada do Mediterrâneo; constitui uma das fronteiras terrestres entre o território espanhol/europeu e Africa; e é motivo de disputa diplomática, porque Marrocos reivindica soberania sobre Ceuta, enquanto Espanha considera a cidade parte integrante do seu território.
Recentemente Ceuta tornou se novamente um dos principais pontos críticos geopolíticos entre Africa e Europa porque reúne factores geográficos, políticos, económicos e migratórios num espaço muito pequeno. Se a história explica parte da importância de Ceuta, a geografia explica a outra grande parte que sobra. O estreito de Gibraltar constitui uma passagem estratégica entre o Atlântico e o Mediterrâneo, por ele circulam navios comerciais, embarcações militares, transportes energéticos e diferentes fluxos económicos. A sua importância ultrapassa, portanto, a Espanha e Marrocos (envolve Africa, Europa, Mediterrâneo, Atlântico e indirectamente a economia mundial), por isso que Ceuta não deve ser analisada apenas como uma cidade espanhola ou apenas como uma questão bilateral entre Espanha e Marrocos, ela deve ser compreendida dentro de uma equação geopolítica mais ampla. Outro elemento fundamental é a questão de soberania, Marrocos reivindica Ceuta e Melilla, considerando os territórios marroquinos ocupados por Espanha. Madrid por sua rejeita essa interpretação e considera Ceuta parte integrante do território espanhol. Essa disputa possui uma dimensão simbólica importante, para Marrocos, a questão está relacionada com a integridade territorial e com a construção do Estado pós colonial, para a Espanha, a defesa de Ceuta está associada á preservação da sua soberania territorial e à segurança das suas fronteiras, esta é a combinação de cooperação e rivalidade que torna Ceuta tão importante do ponto de vista das relações internacionais, pois as duas nações devem juntas combater a imigração irregular, o tráfico de seres humanos, o crime organizado e o terrorismo que ocorre naquela região.
Existe também, o olhar Ceuta junto da segurança europeia, onde a segurança da cidade também aumentou devido às transformações de segurança internacional, porque a segurança de Ceuta não pode ser separada da segurança do Mediterrâneo ocidental. A experiência de Ceuta mostra uma verdade importante: nenhuma barreira física consegue resolver sozinho problemas que possuem causas económicas, sociais e políticas profundas. Ceuta também pode ser encarada como símbolo de uma relação desigual entre África e Europa, existe ainda uma dimensão mais profunda na questão Ceuta: ela revela as contradições da relação entre África e Europa. Durante séculos, as relações entre os dois continentes foram marcadas por comércio, conquista, colonização, exploração e, posteriormente, cooperação. Hoje, a Europa continua a depender de África em diferentes áreas, enquanto milhões de africanos procuram oportunidades económicas e sociais no continente europeu, por isso Ceuta pode ser entendida como uma espécie de espelho das relações euro-africanas.
Ceuta demostra que o poder internacional não é determinado exclusivamente pela dimensão territorial, pela população ou pelo poder económico. Um pequeno território pode possuir enorme importância quando está localizado numa posição estratégica. O caso de Ceuta confirma uma das ideias fundamentais do pensamento geopolítico: a posição geográfica pode transformar um território aparentemente pequeno numa peça importante do sistema internacional, foi assim em 1415 quando Portugal percebeu o valor estratégico da cidade, continua a ser assim no seculo XXI, quando Espanha, Marrocos e União Europeia precisam considerar Ceuta nas suas políticas de segurança, migração e relações internacionais. A diferença é que os desafios mudaram, o que antes estava associado principalmente ao controlo militar e comercial das rotas, passou a envolver também migração, terrorismo, segurança marítima, comércio internacional, fronteiras externas da União Europeia e cooperação euro-africana.
Em suma, Ceuta é pequena, mas a sua localização é gigantesca em termos estratégicos. É africana pela geografia, espanhola pela soberania, europeia pela integração politica e mediterrânica pela sua posição, por isso, olhar para Ceuta como uma cidade espanhola no Norte de Africa é insuficiente. Ceuta deve ser entendida como uma peça de tabuleiro geopolítico maior, no qual África e Europa negociam, cooperam e, por vezes entram em tensão. A grande lição de Ceuta é, mas poderosa: na geopolítica, o tamanho de um território não determina necessariamente o seu valor estratégico; muitas vezes, é a sua posição que determina o seu poder. E talvez seja precisamente por isso, seis séculos depois de conquista portuguesa de 1415, uma pequena cidade situada no extremo norte de África continua a merecer a atenção do mundo.
2025/12/3
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