A MOÇAMBICANIDADE COMO VALOR, IDENTIDADE E RESPONSABILIDADE

Alberto Mudjadju"

Dizer “sou moçambicano” parece, à primeira vista, uma afirmação simples. Contudo, quando pronunciada com consciência e sentido de responsabilidade, esta expressão encerra uma profunda dimensão histórica, cultural, política e social. Ser moçambicano não significa apenas possuir uma nacionalidade ou ter nascido dentro das fronteiras de Moçambique. Significa, acima de tudo, reconhecer-se como parte de uma comunidade nacional, respeitar os seus valores fundamentais e assumir responsabilidades perante a pátria. A moçambicanidade é uma construção colectiva. Foi sendo formada ao longo da história por diferentes povos, culturas, línguas, tradições e experiências, que encontraram no território moçambicano um espaço comum de convivência. É precisamente esta diversidade que torna a identidade moçambicana singular. Somos diferentes nas nossas origens, nas nossas línguas, nas nossas culturas e nas nossas formas de interpretar o mundo, mas partilhamos uma pátria, uma história e um destino nacional. Por isso, afirmar “sou moçambicano porque adiro aos valores da moçambicanidade” significa assumir uma concepção de nacionalidade que ultrapassa a dimensão formal. Significa identificar-se com os valores que estruturam a República de Moçambique e que encontram expressão na Constituição da República, nomeadamente a dignidade da pessoa humana, a igualdade, a liberdade, a paz, a democracia, a unidade nacional, o respeito pelos direitos fundamentais, a tolerância e a valorização da diversidade. A nacionalidade é uma condição jurídica. A moçambicanidade, porém, possui uma dimensão muito mais ampla. Ela envolve sentimentos de pertença, referências culturais, valores, memória colectiva e compromisso com a construção da sociedade. Uma pessoa pode possuir formalmente a nacionalidade moçambicana, mas a construção de uma verdadeira consciência nacional exige algo mais: exige respeito pela pátria, pelos seus cidadãos e pelos princípios que orientam a vida colectiva. Ser moçambicano é reconhecer que Cabo Delgado, Nampula, Niassa, Zambézia, Tete, Manica, Sofala, Inhambane, Gaza, Maputo e a Cidade de Maputo fazem parte da mesma realidade nacional. É compreender que as diferenças regionais não devem transformar-se em fronteiras psicológicas entre cidadãos. É também reconhecer que a diversidade linguística e cultural do país não constitui uma ameaça à unidade nacional. Pelo contrário, constitui uma das maiores riquezas de Moçambique. Um dos maiores erros que podemos cometer enquanto sociedade é confundir unidade com uniformidade. Moçambique não precisa de cidadãos culturalmente iguais para ser uma nação unida. Precisa de cidadãos diferentes, mas unidos em torno de valores comuns. As diferentes línguas nacionais, manifestações culturais, tradições, formas de organização comunitária e identidades regionais fazem parte do património nacional. A moçambicanidade deve ser capaz de integrar essa diversidade, e não de eliminá-la. Um cidadão do Norte deve sentir que a sua identidade cultural é respeitada por um cidadão do Sul. Um cidadão do Centro deve sentir que possui o mesmo espaço de pertença nacional. As comunidades rurais devem sentir-se parte do mesmo projecto nacional que as comunidades urbanas. É neste sentido que a moçambicanidade pode funcionar como uma ponte. Existe uma tendência para atribuir ao Estado a responsabilidade por quase todos os problemas existentes no país. É verdade que o Estado possui responsabilidades fundamentais perante os cidadãos. Contudo, a construção de uma nação não pode depender exclusivamente das instituições públicas. A sociedade também possui responsabilidades. O professor possui responsabilidade na formação das novas gerações. O militar possui responsabilidade na defesa da soberania e da integridade territorial. O agente policial possui responsabilidade na protecção dos cidadãos e na manutenção da ordem. O jornalista possui responsabilidade na produção e disseminação de informação responsável. O empresário possui responsabilidade na criação de oportunidades económicas. O estudante possui responsabilidade na sua formação. O líder comunitário possui responsabilidade na mobilização da comunidade. A sociedade moçambicana enfrenta desafios complexos. Existem questões relacionadas com pobreza, desemprego, desigualdades sociais, criminalidade, corrupção, extremismo violento, desinformação, mudanças climáticas e dificuldades de acesso a serviços básicos. Perante estes desafios, a moçambicanidade não pode permanecer apenas como um conceito abstracto. Ela precisa de transformar-se numa força de coesão social. Quando uma comunidade enfrenta uma ameaça, o cidadão deve compreender que a segurança não é responsabilidade exclusiva das Forças de Defesa e Segurança. A segurança é também uma responsabilidade colectiva. Quando uma escola enfrenta dificuldades, a comunidade deve compreender que a educação das crianças não pertence apenas aos professores. Quando uma comunidade enfrenta problemas ambientais, a solução não depende exclusivamente das autoridades. Quando surgem conflitos sociais, o diálogo deve ser valorizado antes que a violência se torne a linguagem dominante. Neste contexto, a cidadania activa assume enorme importância. Uma sociedade forte é aquela em que o cidadão não se considera apenas beneficiário das políticas públicas, mas também participante na construção das soluções. É por isso que considero que a moçambicanidade deve evoluir de um sentimento de pertença para uma cultura de responsabilidade. A escola possui um papel fundamental na construção da moçambicanidade. É na escola que as novas gerações devem aprender que ser moçambicano não significa desprezar outras culturas, nem considerar-se superior aos outros povos. Pelo contrário, significa conhecer e valorizar a própria identidade enquanto se respeita a identidade dos outros. A educação cívica e patriótica deve, por isso, ir além da memorização de símbolos nacionais. Não basta saber cantar o hino nacional, é necessário compreender o seu significado, não basta conhecer a bandeira, é necessário respeitar aquilo que ela representa, não basta conhecer a Constituição. É necessário compreender os direitos e deveres nela consagrados, não basta falar de patriotismo, é necessário transformar o patriotismo em comportamento, a educação deve formar cidadãos capazes de pensar criticamente, respeitar as diferenças, defender a paz, valorizar a unidade nacional e participar na construção do país. A juventude, particularmente, deve ser colocada no centro deste processo. É ela que herdará o país que estamos a construir hoje. Dizer “sou moçambicano” deve significar muito mais do que responder a uma pergunta sobre nacionalidade. É dizer: sou parte desta história, Sou responsável pelo presente, tenho compromisso com o futuro, é reconhecer que o destino do país não pertence apenas aos governantes, aos militares, aos empresários, aos académicos ou às elites. Pertence a todos os cidadãos. A moçambicanidade não deve ser utilizada para excluir quem pensa diferente. Pelo contrário, deve servir para criar um espaço comum onde diferentes ideias possam coexistir dentro dos limites da Constituição e da lei. O amor à pátria também pode manifestar-se através da crítica construtiva, da denúncia de injustiças e da procura de soluções para os problemas nacionais.

2025/12/3