RESULTADOS? APENAS AO LONGO DE 2026

Afonso Almeida Brandão"

O ano de 2026 começou com duas crises que estão a reconfigurar o tabuleiro geopolítico global: a implosão do regime chavista na Venezuela em consequência de uma operação militar dos Estados Unidos e a escalada de tensão interna e externa no Irão, que expõe fragilidades profundas no que restava da chamada “esfera de influência” de Moscovo e Pequim. Os limites do poder russo e chinês face às realidades intrínsecas dos Estados-satélite que pretendiam proteger e utilizar como peões estratégicos ficam à vista. As forças norte-americanas capturaram o presidente venezuelano Nicolás Maduro, numa operação que provocou dezenas de mortes entre forças de segurança venezuelanas e cubanas e feriu militares americanos. Washington justificou a ação com um discurso de “restauração da democracia” e controlo de vastas reservas de petróleo; críticos denunciaram uma violação flagrante do Direito Internacional. A nível global, as reacções foram polarizadas: Brasil, México e vários países europeus condenaram a operação; a China e a Rússia exigiram a libertação imediata de Maduro e criticaram a intromissão externa. A magnitude geopolítica desta crise não pode ser subestimada. A Venezuela detém quase 20% das reservas petrolíferas mundiais — mais do que qualquer outro país no planeta — mas decaiu a níveis de produção ínfimos devido a décadas de má gestão, corrupção e sanções. A sua economia é um caso clássico de colapso, com inflação crónica, fuga de capitais e êxodo humano massivo, gerando uma crise humanitária de proporções regionais. Por décadas, Caracas foi um aliado estratégico de Moscovo e Pequim. A Rússia injectou capitais, armas e consultoria militar; a China tornou-se o maior comprador de petróleo venezuelano, em troca de financiamento e apoio político. Esse arranjo permitiu a Moscovo e Pequim expandirem um corredor de influência no hemisfério ocidental, desafiando a hegemonia tradicional dos EUA. Até ao choque de Janeiro, parecia uma parceria de conveniência que, no entanto, funcionava como contrapeso simbólico ao poder norte-americano. A intervenção dos EUA mudou, possivelmente de forma irreversível, essa equação. O controlo norte-americano sobre um dos maiores reservatórios energéticos do planeta — mesmo que temporário e incerto — não só dilui a dependência energé¬tica chinesa como demonstra que Washington ainda é capaz de projectar poder militar fora da sua esfera imediata sem coordenação formal com aliados tradicionais. Em termos práticos, a China já começou a procurar substituir o petróleo venezuelano por crude iraniano e russo nos seus mercados refinados, uma mudança tática que revela a volatilidade estratégica de Pequim num ambiente geopolítico em rápida mutação. Do lado russo, o choque foi igualmente profundo. Moscovo, já absorvida pela sua guerra prolongada na Ucrânia, viu-se incapaz de responder de forma significativa à perda de um aliado tão caro em termos simbólicos e materiais. A captura de Maduro expôs a limitação do alcance russo — o Kremlin não pôde mandar forças para lá, nem influenciar decisivamente o desenlace, e acabou por emitir críticas relativamente contidas. Para analistas geopolíticos, isto representa não apenas uma derrota diplomática, mas um sinal de que a influência russa fora da Eurásia está a minguar face ao poder norte-americano reenquadrado sob o ímpeto assertivo da administração Trump. Este fragor influencia também o Irão, que vive uma crise interna e externa que pode, num espectro mais amplo, revelar a fragilidade de uma outra frente do mesmo eixo geopolítico. Desde finais de Dezembro de 2025 até aos primeiros dias de Janeiro de 2026, o Irão tem sido palco de protestos massivos em dezenas de cidades, alimentados por um colapso económico, inflação galopante, desvalorização monetária e desemprego crónico. Esse descontentamento interno acontece num contexto internacional igualmente turbulento: o Irão foi atingido em 2025 por intensas tensões com Israel e os Estados Unidos, com conflitos armados e bombardeamentos que atingiram infra-estruturas militares e nucleares do regime, e provocaram represálias com mísseis e drones. A escalada abriu uma fissura na reputação de Teerão como eixo de resistência firme contra o Ocidente, evidenciando que sem um estabilizador interno forte a capacidade de projectar poder externo também se fragiliza. Enquanto o aparelhamento político do regime tenta controlar as ruas com repressão — e retalha de forma agressiva a imprensa e as liberdades públicas —, o facto de a crise ter chegado a pontos de clivagem social tão profundos sugere que a posição internacional do Irão não é a de um Estado impermeável às correntes geopolíticas e económicas que moldam a sua periferia. A sua economia tem sido duramente golpeada por sanções que reduzem exportações de petróleo e receitas externas, contribuindo para o estrangulamento social que se traduz em protestos cada vez mais amplos. Essa realidade interna afecta as ambições externas do Irão de forma directa. Um Estado consumido por crise económica, contestação social e isolamento político tem menos margem de manobra para apoiar aliados regionais ou projectar poder através de milícias e proxies’ — um papel que tradicionalmente o regime assumiu no Iraque, Síria, Líbano e Iémen. A erosão dessa capacidade diminui a capacidade de Teerão de ser um pilar eficaz para uma arquitectura regional alternativa àquela promovida por Washington, Bruxelas ou mesmo por Pequim e Moscovo. Assim, a conjunção de instabilidade venezuelana e iraniana reforça uma tendência maior: os projectos de influência russa e chinesa fora dos seus núcleos centrais enfrentam limites reais quando confrontados com crises domésticas profundas e com a vontade política e militar dos EUA de intervir em áreas consideradas estratégicas. Antes da actual reconfiguração, o eixo Moscovo-Pequim-Teerão aspirava a oferecer uma alternativa ideológica e prática à ordem internacional liderada pelos EUA — um bloco resistente às sanções, aos bloqueios económicos e às alianças ocidentais. Na esfera diplomática, embora Moscovo e Pequim tenham feito declarações de solidariedade com Maduro e condenações veementes da intervenção norte-americana, estas reacções revelam mais frustração simbólica do que capacidade de acção concreta. Pequim, por exemplo, expressou à ONU exigências pela libertação imediata de Maduro, mas não mostrou um mecanismo para contrariar a pressão americana. A lição mais ampla pode mesmo ser esta: a influência global não é uma mercadoria prensada em blocos rígidos e intocáveis, mas um fenómeno dinâmico, profundamente vulnerável às crises domésticas e às assimetrias de poder. A América Latina e o Médio Oriente, duas regiões que se pensavam relativamente periféricas à geopolítica tradicional dos grandes poderes, tornaram-se agora campos de teste para esta nova realidade. Caracas e Teerão são casos de estudo desta mudança: regimes que sobreviveram décadas com apoio russo e chinês encontram-se agora expostos ao impacto combinado de pressão norte-americana e da fragilidade interna. No fim, mais do que uma vitória de Washington ou um fim do jogo multipolar, estamos a assistir a uma redistribuição de forças num mundo em aceleração. A influência de Moscovo e Pequim, longe de desaparecer, está a entrar numa fase de recalibração forçada. Porém, ao enfrentar territórios onde o social se desintegra economicamente e o apoio externo perde eficácia, essa influência mostra limites que poucos irão vislumbraram ao longo 2026 que agora se iniciou

2025/12/3