Afonso Almeida Brandão"
O que é ser patriota em 2025? O que significa amar e defender Portugal no mundo de hoje? Claramente, já não é — nem pode ser — da mesma forma que em 1965 ou em 1985. Num Mundo Globalizado, marcado por riscos difusos, inimigos próximos e ameaças tecnológicas que ignoram fronteiras, a Defesa da nossa Liberdade e da nossa Cultura só pode ser feita dentro de um Quadro Europeu robusto. Ser patriota, em 2025, é perceber que a Soberania Portuguesa só se preserva através do reforço estratégico do Poder Europeu. Vem isto a propósito do quase total abandono dos Estados Unidos relativamente à Europa, evidente no documento publicado há duas semanas pela Casa Branca, o National Security Strategy. Nele se lê, preto no branco, que a Europa deve tratar da sua própria segurança, ao mesmo tempo que se pede que os Mercados Europeus se mantenham, ou se tornem ainda, mais abertos aos produtos norte-americanos. A mensagem é clara: deixem a defesa para vocês, fiquem o consumo para nós. O mesmo documento tece críticas duras às políticas europeias de imigração e a medidas associadas à regulação do espaço digital, como o combate ao discurso de ódio e à desinformação. Washington interpreta-as como limites injustificáveis à “liberdade de expressão”, ignorando que a Europa procura equilibrar direitos individuais com protecção democrática. Mais surpreendente ainda é a referência explícita à ascensão dos partidos de extrema-direita na Europa, que a Casa Branca qualifica como motivo de “optimismo”, considerando-os aliados naturais da actual estratégia norte-americana. Não pode haver maior aviso. Perante isto, que deve fazer a Europa? O que faz um continente quando a administração norte-americana quer, por um lado, deixar de sustentar a defesa europeia e, por outro, apoiar forças políticas que pretendem destruir o próprio projecto europeu? A resposta não pode ser complacência nem ingenuidade. É evidente que os Estados Unidos não querem uma Europa forte: seria mais um concorrente económico, político e militar. E isso colide com os seus interesses estratégicos. Não desejam um parceiro, desejam um continente dócil. Mas nós não estamos a dormir, evidentemente... Entretanto, deste lado do Atlântico, continuamos alegremente instalados na nossa condição de colónia cultural. Consumimos marcas norte-americanas, séries norte-americanas, filmes, música norte-americana e redes sociais norte-americanas, como se o Mundo só existisse na projecção cultural dos EUA. Esta admiração infantil, herdada do pós-guerra e reforçada pela hegemonia mediática norte-americana, está tão entranhada em nós que, só por apontarmos esta dependência, logo surgem acusações de censura ou anti-americanismo primário. Não é disso que se trata, trata-se de lucidez. Está na hora de a Europa e os Europeus despertarem para a necessidade de um patriotismo continental. Um patriotismo que não nega as pátrias, mas que as protege através da união. Basta lembrar que a União Europeia tem cerca de 450 milhões de habitantes, contra os 330 milhões dos EUA. E que, contabilizando toda a Europa sem a Rússia, ultrapassamos os 600 milhões. Uma eventual federação europeia seria o terceiro maior país do Mundo em população, após a Índia e a China, com uma Economia Comparável à dos EUA e com uma capacidade científica, tecnológica e cultural sem precedentes. É isto que inquieta Washington. Alguma dúvida? Não é por acaso, também, que os EUA nunca olharam com entusiasmo para o EURO e que desconfiam profundamente de um aprofundamento federal. Dentro da Europa, há até quem faça o jogo combinado de Washington e Moscovo, atacando a integração europeia por razões que variam entre o oportunismo eleitoral e o puro nacionalismo míope. Também a Rússia não deseja uma Europa forte: uma União capaz politicamente, robusta militarmente e assertiva diplomaticamente seria um obstáculo a qualquer ambição russa no continente. A resposta ao quase ultimato implícito no National Security Strategy é simples e urgente: mais Europa. Mais integração. O caminho natural, que devia ter sido iniciado logo após a criação do EURO, é claro: uma União Federal da Europa. Não avançámos porque faltou coragem às lideranças europeias, sempre receosas das opiniões públicas e do cálculo eleitoral imediato. Mas uma liderança que teme o eleitorado não merece liderar. É urgente democratizar a União: eleger um Presidente Europeu; ter um Governo Europeu resultante das eleições europeias; criar um Senado Europeu onde todos os Estados tenham voz equilibrada; avançar para umas Forças Armadas Europeias, capazes de garantir a defesa comum; e instituir finalmente um Ministério dos Assuntos Exteriores Europeu que fale pelos 27 com autoridade real. Esta arquitectura não elimina os Estados, reforça-os, protege-os e capacita-os num Mundo onde ninguém, isoladamente, vale grande coisa. E cada um de nós tem uma responsabilidade individual: devemos consumir mais produtos europeus, ler autores europeus, ver cinema europeu, ouvir música europeia. Precisamos de contrariar um condicionamento cultural que nos foi sendo imposto desde o fim da II Grande Guerra Mundial. Ser Patriota, hoje, é lutar por uma Europa Soberana, respeitada e capaz de se defender. Quem não entender isto, não entende absolutamente nada.2025/12/3
Copyright Jornal Preto e Branco Todos Direitos Resevados . 2025
Website Feito Por Déleo Cambula