Quem berra são as Cabras

Afonso Almeida Brandão"

Não é preciso gritar para ser ouvido. Esta afirmação, simples e directa, contraria uma prática cada vez mais comum em debates públicos em Moçambique (e não só!), em programas de televisão e até nas redes sociais. Esta táctica acaba por cansar a quem ouve, uma atmosfera de irritação e até diria, de desânimo. Para não acrescentar de má educação.

Falar de forma mais baixa ou serena não é sinónimo de fraqueza. Diria até que um discurso calmo e ponderado pode, paradoxalmente, demonstrar mais força do que a tal gritaria. Saber elevar o tom quando necessário, mas sem cair no berro constante. E tão visto entre nós por aí.

Esquecem-se que manter a calma ou um tom sereno, acaba sempre por ser mais eficaz e assertivo na comunicação. Às vezes, o segredo está em saber como escolher o momento certo para dar um grito ou falar mais alto, que também faz falta, mas discursos inteiros em “berraria” constante é só ver o que se passa na nossa Assembleia da República (AR), com os “nossos” Deputados das três bancadas com assento na Casa da Democracia, amiúde, exaltados...

Apetece pedir a estes senhores que reconheçam o poder do silêncio e da pausa e que deixem de parte os gritos e as palavras pouco recomendadas!

 

A História dá-nos, aliás, excelentes exemplos de figuras que se tornaram líderes incontornáveis sem depender da gritaria. Nelson Mandela, por exemplo, enfrentou uma transição política profundamente complexa na África do Sul, após décadas de prisão. Ainda assim, falava de modo ponderado e conciliador, transmitindo sempre uma mensagem de paz e reconciliação. E Mahatma Gandhi inspirou milhões no combate ao Império Britânico, defendendo a não violência e adoptando um tom calmo e pausado, que demonstrava firmeza de carácter sem recorrer a berrarias. Venâncio Mondlane, por sua vez, tem-se destacado pelo controlo emocional e pelo discurso sereno e equilibrado, capaz de suscitar o diálogo sem apelar a uma retórica agressiva. Com serenidade e educação e sem “agredir” quem quer que seja.

Podemos ainda recordar a antiga Primeira-Ministra britânica, Margaret Thatcher, apelidada de “Dama de Ferro”. Esta referência à dureza de carácter não decorre de gritos ou explosões de raiva, mas antes de convicções sólidas e de uma voz segura, estrategicamente bem utilizada. A solidez das ideias, aliada a uma comunicação firme, mas não estridente, reforçou a sua imagem e marcou a política do Reino Unido durante anos.

Enfim, muitos casos poderíamos aqui recordar, a título póstumo, de Figuras Notáveis do Passado e mesmo do Presente, que ainda estão em funções políticas e governativas entre nós e por esse Mundo fora. Mas o espaço a que estamos limitados, nesta secção de opinião semanal, não nos permite alargar muito mais.

Aqui chegados, esperamos que as “vozes” exaltadas tenham mais calma, pois quem berra são as cabras e a Assemblia da República de Moçambique (AR) não é (ainda!) um «espaço de Pasto» a Céu Aberto, onda a “carneirada” se junta para alimentar...

 

 

2025/12/3