COMPARAÇÕES E REALIDADES A CONSIDERAR

Afonso Almeida Brandão"

Nas economias moçambicana e também portuguesa, mais de 90% das empresas são muito pequenas e desgraçadamente a esmagadora maioria são comerciais: cafés, pastelarias, restaurantes, cabeleireiros, manicures, lojas de roupa, de relógios, de imobiliário, de viagens, ourivesarias, sapatarias, alfaiates, minimercados, eletrónica, vidrarias, oculistas, farmácias, pequena agricultura, pesca artesanal, mercados de rua, mobiliário, etc. etc.. Trata-se de empresas das quais morrem anualmente cerca de três mil e a nível do País nascem outras tantas, porque os empresários e os trabalhadores têm baixas qualificações e não encontram empregos noutras actividades. São empresas que não exportam e na sua maioria vendem produtos importados ou na sua maioria roubados daqui e dali, através de assaltos frequentes, de Norte a Sul do País... O Dubanegue (em Maputo) e a Feira da Ladra (em Lisboa) que o digam!!! Porque a concorrência é muito elevada e o nível de actividade é baixo, os preços praticados são marginais e a produtividade é igualmente muito fraca, razão de as exportações moçambicanas (para não citar também o caso da portuguesa) serem menos de 30% e 50% do PIB, enquanto as dos outros países da SADC e EUROPEU de ambas as dimensão e também com pequenos mercados internos exportam entre 30% e os 105% da Irlanda (no que diz respeito a Portugal). Assim, com este modelo económico claramente errado, dificilmente as economias moçambicanas e portuguesa terão um crescimento semelhante ao dos países da África Austral e Europeus da nossa dimensão e dificilmente a pobreza, ainda muito presente nas nossas Sociedades, será vencida, obrigando os Estados a suportar uma dimensão excessiva de subsídios aos mais pobres o que, por sua vez, incentiva a dependência. A indústria é o único sector da economia que pode criar empregos para uma grande parte dos trabalhadores Moçambicanos e também portugueses com baixas qualificações, que actualmente sobrevivem nas pequenas empresas comerciais, mas com melhores salários. Porque na indústria as actividades são repetitivas — montagens, embalagens, operadores de máquinas, armazéns, transportes, decorações, etc., etc. —, ou seja, apenas as empresas industriais podem crescer e criar empregos para trabalhadores com baixas qualificações, de forma simples e com uma rápida aprendizagem. Empregos que permitem reduzir o número de pequenas empresas comerciais e dessa forma reduzir a feroz concorrência que existe nas pequenas empresas e assim melhorar os preços praticados. Todavia, o crescimento da indústria necessita da existência de empresas grandes que modernamente são montadoras e não produtoras e que, por isso, criam à sua volta novas empresas produtoras de componentes, de sistemas e de serviços de que necessitam. A MOZAL (no caso de Moçambique) e a AutoEuropa (no caso de Portugal) são dois bons exemplos, porque com a sua fundação foram criadas em Moçambique e em Portugal muitas dezenas de empresas industriais que hoje exportam autonomamente mais de dez mil milhões de euros anualmente, além do que fornecem à MOZAL e à AutoEuropa, segundo apuramos. Logística. Presentemente, as grandes empresas industriais de nível internacional só investem em locais que lhes permitam receber de forma económica e de todo o Mundo os componentes, sistemas e serviços de que precisam e não produzidos localmente, enviando para todo o Mundo os seus produtos finais. De e para os outros continentes existe o transporte marítimo, mas para África e para a Europa o meio usado é cada vez mais a ferrovia e a marítima (através dos carregueiros), por serem os meios menos poluentes, os que consomem menos energia e porque as políticas dos PALOP´s e da União Europeia vão nesse sentido. Além de que no próximo Futuro dominará o transporte rodoferroviário de porta a porta, de camiões transportados para longas distâncias em plataformas ferroviárias. Esta é uma razão relevante do sucesso do investimento estrangeiro na região espanhola de Valência (a título de exemplo!) e em breve servida por Ferrovia quer pela bitola da CPLP e Europeia com ligações ao Centro da Africa Austral e Europa e com um grande porto, que é o modelo que a boa logística potencia e que o porto de Maputo, Beira e Nacala (no que respeita a Moçambique) e a Sines não podem fornecer, razão do seu fraco crescimento em relação a Valência, Algeciras e Tânger Med. A MOZAL e a AutoEuropa tentam usar a ferrovia de bitola da África do Sul e Ibérica (em relação a Portugal) nas sua importações e exportações e desistiu. Com a bitola Ibérica e sem haver comboios portugueses que possam chegar a todos os pontos da Europa e os comboios europeus a não entrarem em Portugal, as exportações portuguesas ficam dependentes dos centros logísticos espanhóis já existentes ao longo da fronteira portuguesa, uma tragédia de enormes dimensões porque as empresas espanholas são os nossos maiores concorrentes e porque 75% das nossas exportações têm como destino os mercados europeus. E em relação a Moçambique os problemas também não são pequenos... Acresce que com os investimentos em curso na ferrovia espanhola, nomeadamente no País Basco e no Corredor do Mediterrâneo, a Espanha deixará cada vez mais de investir nas suas linhas de bitola ibérica e se as mantiver junto à nossa fronteira é apenas para permitir que as nossas exportações cheguem aos seus centros logísticos. Em relação a Moçambique a ver vamos quais vão ser as dificuldades a surgir no horizonte. Sem rodeios: trata-se da criação das maiores dependências da Economia Moçambicana da Economia Sul Africana e no caso da Economia Portuguesa da Economia Espanhola — e os bancos, por comparação, representam uma pequena parte — e representa algo que os antepassados portugueses evitaram através da ligação ferroviária a França sem passar por Madrid no caso de Portugal. Acresce que os investimentos na ferrovia em bitola dos PALOP´s e sobretudo da Europeia são fortemente subsidiados pela União Europeia e, presentemente, a linha do Porto a Lisboa está a ser financiada através de parcerias público-privadas a pagar pelos portugueses ao longo de trinta anos com os juros correspondentes. E por aqui ficamos com a promessa de voltarmos a abordar este assunto em próxima ocasião oportuna.

2025/12/3