Planeamento Urbano de Maputo em Colapso

Escavações, trânsito caótico e viaturas rebocadas marcam o dia-a-dia da capital moçambicana, enquanto especialistas apontam falta de visão estratégica e defendem transporte público de qualidade.

Maputo enfrenta uma crise de urbanização cada vez mais visível. Com escavações em quase todas as avenidas da cidade para a instalação do sistema de drenagem, o estacionamento tornou-se um dos maiores problemas para os condutores. Muitos são surpreendidos pela Polícia Municipal com viaturas mal-estacionadas, que acabam rebocadas para o parque da corporação. Para recuperar o veículo, os proprietários são obrigados a pagar quantias elevadas.

Há mais de uma década que o Conselho Municipal da Cidade de Maputo não consegue controlar nem regular o estacionamento. Como resultado, muitos condutores utilizam os passeios como local privilegiado para estacionar, impedindo a circulação dos peões, que passam a disputar espaço com as viaturas ao longo da faixa de rodagem.

De acordo com o Professor Rogério Uthi, a zona central da cidade, o Central Business District (CBD) é bastante limitada para a demanda que recebe. “Quando dizem ‘vou a Maputo’, todos se dirigem para o mesmo local”, explica. A cidade foi concebida para cerca de 250 mil habitantes, mas actualmente estima-se que Maputo tenha pouco mais de um milhão e quatrocentos mil residentes, aos quais se somam mais de um milhão e quinhentas mil pessoas que chegam diariamente de vários pontos, como Matola, Marracuene ou mesmo do estrangeiro.

Somando residentes e visitantes, a capital pode acolher cerca de três milhões de pessoas por dia. Circulam, igualmente, cerca de um milhão e meio de viaturas a nível nacional, das quais 57% estão em Maputo. “Não é possível estacionar 750 mil viaturas num local que devia acomodar pelo menos 250 mil”, alerta o professor.

Uthi sublinha que nunca foi permitido estacionar em cima dos passeios. Contudo, a cidade está em constante crescimento e suporta, actualmente, cerca de três milhões de pessoas. Para o académico, deveria existir uma planificação urbana mais humana. “Ou as pessoas, quando estão em Maputo, não deviam dirigir-se todas para o mesmo local. Os condomínios compostos pelos ministérios deviam ser construídos, por exemplo, em Marracuene. Assim, os funcionários não iriam para o centro da cidade, mas sim no sentido contrário. A isso chama-se planificação urbana. Não fomos bons nessa planificação e, neste momento, estamos a pagar por aquilo que fizemos”, desabafa.

Como solução, defende a construção de silos de estacionamento, de modo a minimizar o problema, uma vez que não há espaço suficiente para acomodar a população automóvel actual.

Outro problema apontado é a transformação de bairros residenciais em escritórios e restaurantes. “Imagine o que era uma vivenda que estacionava duas viaturas e passou a ter trinta. Não existe esse espaço”, exemplifica. Ao longo da Avenida Kenneth Kaunda, por exemplo, as viaturas têm estacionado sobre a relva e os passeios. Para Uthi, tudo isto é reflexo da falta de planificação urbana, pelo que o Município terá de se sentar e apreciar a planificação, lamenta.

O professor considera ainda que as cidades moçambicanas têm sido vítimas de um processo de ruralização rápida, com um congestionamento permanente. Basta observar os passeios próximos dos mercados de Xipamanine e Xiquelene, ou na Avenida 24 de Julho, esquina com a Avenida Guerra Popular, que se transformaram em territórios de vendedores informais. Torna-se complicado andar a pé, pior ainda na companhia de alguém com capacidade reduzida de mobilidade. “Estamos a ruralizar esses espaços”, afirma.

Para o professor, sem agredir ninguém, não vê outra saída. Acredita, no entanto, que, mesmo assim, em pouco tempo, as mesmas pessoas voltarão à cidade, porque têm o trabalho informal como seu “ganha-pão”. São pessoas sem emprego formal, que sobrevivem com o emprego informal, obrigando-se a vender nas estradas e nos passeios. A taxa de desemprego em Moçambique ronda os 35%.

Por fim, Uthi sugere que o projecto Move Maputo, com a implementação do Bus Rapid Transit (BRT), poderia ser a saída acertada. “Começar a ter, no centro da cidade, transporte público de confiança, limpo, atractivo, com horários rígidos, e não trazer o carro para a cidade. Se houvesse a consciência de que, ao parar aqui, o autocarro chegará a horas e não me atrasarei, eu seria a primeira pessoa a usar esse transporte público”, conclui.

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