Nelson Saúte lança "Se Me Quiseres Conhecer", uma homenagem aos 100 anos da poeta que marcou a literatura moçambicana

 

A obra e o legado de Noémia de Sousa, considerada a voz fundadora da poesia moçambicana, serão celebrados no próximo dia 30 de setembro, às 17h30, no Business Lounge do Nedbank, na Avenida Julius Nyerere, 562, em Maputo. O evento marca o lançamento do livro "Se Me Quiseres Conhecer: Noémia de Sousa – Biografia Literária", da autoria do escritor e curador Nelson Saúte, publicado pela editora Marimbique.

Na obra, Nelson Saúte assume uma postura de memorialista e presta tributo àquela que considera ser a "voz primordial" da literatura moçambicana. "Penso que tenho o dever de partilhar o pouco que sei e conheci de Noémia de Sousa e do privilégio que tive no convívio de anos com ela e com a sua geração", afirma o autor. "O meu esforço memorialístico advém da consciência desse encargo e da irremediável dívida que tenho destes meus antepassados literários."

Noémia de Sousa é descrita por Saúte como "a nossa voz primordial" — uma voz "indignada, colérica ou enfuriada, contra a resignação e contra as injustiças sociais". É, nas palavras do autor, "a consciência do ser moçambicano e da sua condição", uma "voz insubmissa e intrépida", o "grito negro, mestiço, solitário e solidário".

Entre 1948 e 1951, com apenas entre 22 e 25 anos, Noémia de Sousa produziu a poesia que constitui hoje o seu espólio literário — "o espólio da moçambicanidade, o espólio da africanidade". Uma obra breve, mas incisiva, que fundou a lírica moçambicana.

"Se Me Quiseres Conhecer" é mais do que uma biografia convencional. Trata-se, conforme descreve o autor, de "memória afectiva e literária, uma breve biografia poética" que intenta "elevar o nome de Noémia de Sousa nos seus 100 anos". O título é uma homenagem a um dos seus belos poemas.

Carolina Noémia Abranches de Sousa nasceu na Catembe, Maputo, a 20 de setembro de 1926, e faleceu em Lisboa, Portugal, a 4 de dezembro de 2002. Jornalista de formação, destacou-se pela sua colaboração no periódico O Brado Africano.

 

Considerada a primeira manifestação da poesia de raiz marcadamente moçambicana, Noémia de Sousa foi perseguida pela PIDE no início da década de 1950, o que a forçou ao exílio em Portugal. Os seus poemas indignados, o grito de revolta e o apelo à emancipação, aliados às suas ações de subversão política, tornaram impossível a sua permanência em Moçambique.

No exílio, conviveu com figuras como Agostinho Neto, Amílcar Cabral, Francisco José Tenreiro, Lúcio Lara, Marcelino dos Santos e Mário de Andrade — companheiros "de jornada no exílio e no sonho libertário". Nos anos 60, foi obrigada a deixar Lisboa, vivendo em Paris até à véspera do 25 de Abril de 1974. Em 1984, trinta e três anos após a partida, revisitou Moçambique, onde os jovens já a haviam reivindicado, lendo e declamando os seus poemas.

Os seus textos circularam em jornais, revistas e antologias ao longo de cinco décadas, influenciando gerações de poetas moçambicanos e africanos. O seu único livro, Sangue Negro, permaneceu inédito durante 50 anos, sendo publicado pela Associação dos Escritores Moçambicanos em 2001. Em 2011, a Marimbique reeditou a obra, e em 2016, a editora brasileira Kapulana publicou uma edição ilustrada. Existe ainda uma tradução francesa (Sang Noir), de Elisabeth Monteiro Rodrigues, publicada pela Project-Iles Editions em 2024.

Nelson Saúte nasceu em 26 de fevereiro de 1967, em Maputo. Formado em Ciências da Comunicação pela Universidade Nova de Lisboa e mestre em Sociologia pela USP, é jornalista, poeta, escritor, memorialista e curador. Fundou e dirige o Museu dos Portos e Caminhos de Ferro de Moçambique (CFM). Apresenta semanalmente, na RTP-África, a rubrica "Livros de África". É autor e organizador de antologias sobre literatura moçambicana e editor da Marimbique em Maputo.

 

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