
164 votos a favor. A Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou uma resolução defendendo a utilização de representações cartográficas que mostrem África e os restantes continentes nas suas proporções reais. É uma decisão de grande valor simbólico, educativo e político: o mundo começa finalmente a corrigir uma imagem que, durante séculos, diminuiu visualmente África e influenciou a perceção do seu peso territorial, humano e estratégico.
Esta vitória tem vários protagonistas e deve ser reconhecida com rigor. A iniciativa diplomática foi conduzida pelo Togo, em nome da União Africana, e beneficiou da mobilização da campanha Correct The Map, impulsionada pelas organizações Africa No Filter e Speak Up Africa. A resolução, embora não vinculativa, foi aprovada por 164 Estados-Membros, com apenas um voto contra e seis abstenções. Reuters e Associated Press
Neste movimento coletivo, importa destacar o papel do Professor Carlos Lopes. Não como mandatário institucional, nem como autor exclusivo da vitória diplomática, mas como uma das vozes intelectuais que fundamentaram, deram consistência e impulsionaram esta causa.
Durante anos, Carlos Lopes chamou a atenção para o facto de os mapas não serem representações inocentes. A tradicional projeção de Mercator, concebida no século XVI para responder a necessidades de navegação, aumenta visualmente as regiões mais próximas dos polos e reduz a dimensão aparente das massas terrestres situadas junto ao equador. África, com mais de 30 milhões de quilómetros quadrados, aparece assim muito menor do que realmente é.
Esta deformação não produz apenas um erro visual. Produz também consequências psicológicas, educativas e políticas. Gerações inteiras cresceram perante mapas que apresentavam África como um continente relativamente modesto, quando, na realidade, a sua superfície é cerca de catorze vezes superior à da Gronelândia. Ao diminuir África no mapa, contribuiu-se também para diminuir, no imaginário coletivo, a sua importância económica, demográfica, cultural e geopolítica.
Foi contra essa distorção que Carlos Lopes escreveu, falou e argumentou. Em livros, artigos e intervenções públicas, explicou que representar África na sua verdadeira dimensão faz parte de uma luta mais ampla contra os estereótipos e as narrativas que continuam a marginalizar o continente. A sua contribuição ajudou a elevar uma questão aparentemente técnica ao plano da justiça histórica e da dignidade política.
O mérito de Carlos Lopes reside precisamente aí: na capacidade de relacionar cartografia, poder e desenvolvimento. Para ele, corrigir o mapa não significa apenas substituir uma imagem por outra. Significa corrigir a maneira como África é ensinada, percebida e posicionada no mundo. Significa demonstrar que a representação também produz hierarquias e que a recuperação da verdadeira dimensão do continente pode reforçar a confiança dos africanos na sua própria capacidade de ação.
Esta causa é coerente com toda a sua trajetória intelectual. Carlos Lopes tem defendido uma África capaz de pensar por si própria, transformar estruturalmente as suas economias, industrializar-se, integrar os seus mercados e negociar com maior soberania no sistema internacional. A justiça cartográfica integra essa mesma visão: África deve deixar de ser representada a partir de categorias que a reduzem e passar a ocupar o espaço que verdadeiramente lhe pertence.
É igualmente motivo de orgulho recordar que Carlos Lopes nasceu em Canchungo, na Guiné-Bissau, e estudou no Liceu Kwame N’Krumah. A partir de um pequeno país africano, construiu uma trajetória de dimensão mundial, ocupando importantes responsabilidades nas Nações Unidas e na União Africana e afirmando-se como uma das vozes mais respeitadas do pensamento contemporâneo sobre o desenvolvimento de África.
Por isso, sem apropriações indevidas e sem apagar o mérito dos Estados, organizações e ativistas que conduziram esta campanha, devemos reconhecer a importância da sua contribuição. Carlos Lopes não recebeu um mandato institucional para negociar a resolução e não reivindicou para si uma vitória coletiva. Ofereceu algo igualmente indispensável: pensamento, argumentos, persistência e autoridade intelectual.
Os diplomatas transformaram a causa numa resolução. Os Estados converteram-na em 164 votos. Mas foram pensadores e ativistas como Carlos Lopes que ajudaram a transformar uma distorção cartográfica aparentemente normal numa questão mundial de verdade, dignidade e justiça.
E, sim, pasmem-se: Carlos Lopes é da Guiné-Bissau.
O mundo reconheceu a verdadeira dimensão de África. Talvez seja também o momento de a Guiné-Bissau reconhecer plenamente a dimensão de um dos seus mais ilustres filhos.

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