
Paulo Vilanculo"
A Linhas Aéreas de Moçambique (LAM) resulta da Direcção de Exploração do Transporte Aéreo (DETA) e foi criada em 1936 como uma divisão dos CFM, a LAM, após a independência de Moçambique, ao abrigo do Decreto nº 8/80 de 19 de Novembro, e assumiu todos os direitos e obrigações resultantes de actos ou contratos praticados ou celebrados pela sua antecessora, a DETA. Em 1998, a companhia foi reestruturada para uma sociedade anónima. por Decreto nº 69/98 de 23 de Dezembro. Em finais de 1999, a LAM foi transformada numa Sociedade incorporada por estatuto de Empresa Limitada. O Estado detinha 91% das acções da nova companhia, sendo que os gestores, técnicos e trabalhadores da LAM detinham os restantes 9% das acções. A estrutura acionista da LAM mudou profundamente após o Governo moçambicano avançar com o processo de privatização parcial e reestruturação da LAM o Estado decidiu alienar 91% do capital social que detinha na transportadora aérea. Os maiores actuais acionistas da LAM são três grandes empresas do setor empresarial do Estado que entraram no capital da companhia. As transações já oficializadas destas três entidades públicas representam, combinadas, 56% da estrutura acionista atual da LAM. A maior acionista institucional individual, é Hidroeléctrica de Cahora Bassa (HCB) detendo 25,2% das ações. Os CFM detêm uma participação de 15,4%. Assim como a Empresa Moçambicana de Seguros (EMOSE), detém igualmente 15,4% do capital. O restante capital social divide se entre a quota ainda não totalmente alienada pelo Estado (via IGEPE) e a percentagem histórica reservada aos gestores, técnicos e trabalhadores da LAM (…).
Um suporte financeiro viabilizado através de um plano de recapitalização (que inclui os aportes da HCB/Fly Moz, da EMOSE e dos CFM) permitiu dotar a companhia de liquidez para sair de um modelo de asfixia operacional. A estratégia foca-se em substituir contratos de locação financeira desvantajosos e garantir a integração de novas aeronaves para expandir as rotas internas e regionais. O projeto está integrado no pacote financeiro de 36 milhões de dólares (cerca de 30,8 milhões de euros) aprovado pela HCB. Este montante foi dividido entre a compra de 25,2% das ações da transportadora de bandeira e a operacionalização da Fly Moz. O projeto Fly Moz é uma iniciativa estratégica estruturada pela Hidroeléctrica de Cahora Bassa (HCB) como parte do plano global de recapitalização e reestruturação das Linhas Aéreas de Moçambique (LAM), desenhado em coordenação com o Governo moçambicano. A sua criação foi detalhada nos relatórios oficiais do Estado como um pilar financeiro para viabilizar a modernização da companhia aérea. A Fly Moz foi concebida como uma entidade ou veículo financeiro específico com o objetivo direto de garantir financiamentos estáveis e estruturados à LAM. A constituição de entidades com propósitos específicos (como o modelo da Fly Moz) surgiu para contornar entraves legais temporários e permitir que os novos acionistas institucionais injetassem dinheiro focado estritamente na gestão, modernização e recuperação da frota.
De acordo com uma peça informativa avançada pelo jornal Evidências, a LAM está a levar a cabo uma transição discreta do seu nome comercial. A LAM iniciou transição de identidade para “Air Moçambique”. Esta alteração de nome pode ser uma tentativa estratégica de limpar a imagem da transportadora e afastar o estigma de ineficiência associado à sigla LAM. A marca de 46 anos da LAM tem sido fortemente beliscada por persistentes desafios operacionais, parece estar a dar lugar a uma nova designação: Air Moçambique. A empresa tem sido alvo de auditorias que revelaram esquemas de desvio de fundos e má gestão, o que levou o governo moçambicano a prometer uma reestruturação total da companhia. Internamente, fontes do setor indicam uma estratégia de mudança de Imagem que visa de igual modo desassociar a operação aérea dos sucessivos escândalos passados de gestão, dívidas e falhas operacionais que mancharam a sigla "LAM" ao longo dos anos. Esta mudança está a ser feita de forma faseada e ensaiada e progressiva. Segundo a Evidências, antes de pintar as aeronaves, o nome comercial "Air Moçambique" já tinha começado a ser introduzido de forma experimental nos crachás e uniformes dos colaboradores da companhia. O sinal mais visível desta metamorfose institucional encontra-se nos uniformes dos próprios colaboradores.
Esta mudança surge num contexto de crise reputacional sem precedentes. Revendo historias de sucesso da LAM, entre 1983 a 1993, a LAM operou com um McDonnell Douglas DC-10-30, o principal avião de longo curso da companhia, que marcou o auge da aviação comercial moçambicana nas ligações intercontinentais, ligando Maputo a destinos como: Lisboa; Paris; Copenhaga; Berlim Oriental (Schönefeld); além de algumas ligações regionais em África e durante alguns períodos, o avião também era alugado à TACV (Cabo Verde Airlines) aos fins de semana, para rentabilizar a sua utilização. A LAM já utilizou o Ilyushin Il-62M (IL-62M), mas de forma muito limitada, em regime de aluguer (leasing ou charter), e não como uma aeronave permanentemente integrada na frota operacional da LAM mas sobretudo quando o DC-10 estava indisível para manutenção ou quando havia um aumento sazonal da procura. Segui se a era dos Boeing 767 e 737 (modernização dos anos 1990) e mais tarde emergiu a era dos Embraer 190 e Q400 para regionalização e renovação da frota a partir de 2008. Entre 2011 e 2013, a LAM já duplicou a oferta de voos, ultrapassando, pela primeira vez, a marca de 60 mil passageiros transportados num único mês e reduziu a tarifa média de cerca de 5.800 meticais para 4.900 meticais, graças ao aumento da oferta e à renovação parcial da frota.
A LAM inicia uma transição visual e comercial da sua marca num teste de Rebranding Comercial. A “Air Moçambique” de forma subtil parece uma tentativa de desassociar a operação dos recentes escândalos de gestão e corrupção, embora que alguns digam que é por inspiração da Etiopian Airlines. Mas ao contrário de aeronaves anteriores operadas em regime de aluguer, estes dois aparelhos Embraer 190 são propriedade da LAM, comprados diretamente pela LAM que se presume ser por cerca de 25 milhões de dólares, com o apoio financeiro dos novos acionistas (liderados pelos CFM). Para bastidores da aviação civil e comercial, o nome "Air Moçambique" surge como uma designação mais universal, moderna nos mercados internacionais. A nova nomenclatura visa ainda uma maior aproximação aos padrões internacionais de aviação, assinalando o início de um novo ciclo focado na transparência e na rentabilidade. Porem, a mudança do nome da companhia aérea nacional de LAM para Air Moçambique pode representar uma estratégia de reposicionamento comercial e de reconstrução da imagem institucional, mas dificilmente produzirá, por si só, melhorias estruturais. A designação de uma empresa não elimina problemas como a corrupção, a má gestão, a interferência política, a ineficiência operacional ou a falta de transparência na administração dos recursos públicos. Para o cidadão comum, a verdadeira transformação será medida pela redução do preço das passagens, pela pontualidade dos voos, pela segurança, pela expansão das rotas e pela qualidade do atendimento. Se a mudança se limitar ao logótipo e ao nome, sem reformas profundas na governação corporativa, na prestação de contas e na gestão financeira, corre-se o risco de apenas maquilhar uma crise antiga com uma nova identidade, enquanto permanecem inalterados os fatores que degradam a qualidade do serviço e impedem que o transporte aéreo seja acessível à maioria dos moçambicanos.
2025/12/3
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