Preto & Branco

Formação militar europeia a Moçambique questionada

O académico e especialista Abel Esterhuyse, responsável pelo departamento de Estudos Estratégicos da Faculdade de Ciência Militar da Universidade de Stellenbosch, no Cabo, questionou o objectivo da formação militar das tropas de Moçambique pela União Europeia (UE), no âmbito do conflito terrorista na província de Cabo Delgado.  E defende um papel fundamental e de longo prazo da África do Sul na crise de Cabo Delgado.

 Em entrevista à agência Lusa, na terça-feira última (05.10.), o especialista militar sul-africano Abel Esterhuyse disse: “Julgo que nesta altura toda a ajuda é bem-vinda e não há dúvida de que poderão dar um contributo credível, mas a questão, mais uma vez, é saber para que estão a preparar as forças moçambicanas”.

“Talvez esteja enganado, mas não tenho a certeza que exista um entendimento claro, mesmo por parte dos europeus, sobre qual é precisamente o problema que enfrentam em Cabo Delgado”, referiu o analista.

O académico, responsável pelo departamento de Estudos Estratégicos da Faculdade de Ciência Militar da Universidade de Stellenbosch, no Cabo, acrescentou: “E este é um grande problema. Esta é talvez a questão estratégica mais importante para as forças e para todos os actores envolvidos”.

 O indispensável papel da África do Sul

Na óptica do analista militar, a África do Sul é um dos países que está “inexplicavelmente” próximo do que vai acontecer em Cabo Delgado nos “próximos anos”.

“Julgo que o mais importante é que a África do Sul está profundamente interligada com os problemas em Cabo Delgado e especificamente com o problema do crime e do narcotráfico de drogas e drogas pesadas”, frisou.

De acordo com Abel Esterhuyse, a África do Sul encontra-se em situação “muito difícil” neste contexto, salientando que o país vizinho a Moçambique “não se pode se dar ao luxo de não se envolver” em Cabo Delgado.

“Essa é uma realidade que a África do Sul enfrenta. A outra realidade que a África do Sul enfrenta é que, se se envolver em Cabo Delgado, será por muito tempo”, antecipou o analista sul-africano.

“Acabamos de ver a retirada dos EUA [Estados Unidos da América] após 20 anos no Afeganistão e não estou totalmente convencido se a África do Sul está de todo ciente que o compromisso que enfrenta em Cabo Delgado é para ser, e será, um compromisso de longo prazo que provavelmente irá durar entre 10 a 15 anos”, apontou.

O compromisso da UE

Os ministros dos Negócios Estrangeiros da UE aprovaram, em Julho, a constituição de uma missão de formação militar em Moçambique para “treinar e apoiar as Forças Armadas moçambicanas” no “restabelecimento da segurança” em Cabo Delgado. A missão visa treinar as companhias de forças especiais moçambicanas para desenvolverem uma força de reação rápida.

Desde Julho, uma ofensiva das tropas governamentais moçambicanas com o apoio do Ruanda, a que se juntou depois a Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC), permitiu aumentar a segurança, recuperando várias zonas de Cabo Delgado onde havia rebeldes, nomeadamente a vila de Mocímboa da Praia, que estava ocupada desde Agosto de 2020.

A província de Cabo Delgado é rica em gás natural, mas aterrorizada por rebeldes armados, sendo alguns ataques reclamados pelo grupo extremista Estado Islâmico.

O conflito já provocou mais de 3.100 mortes e mais de 817 mil deslocados.

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