Preto & Branco

Gregório Leão quer Nyusi no tribunal

O antigo Director- geral do Serviço de Informação e Segurança do Estado (SISE), Gregório Leão, na sua audição inaugural, na segunda-feira, no âmbito do caso “dívidas ocultas”, do qual a instituição que dirigia foi o epicentro das três empresas criadas para defraudar o estado moçambicano em cerca de 2.2 biliões de dólares, sacudiu o capote, endossando responsabilidade aos seus subordinados e ao coordenador do Comando Conjunto das FDS. A altura dos factos, o coordenador desta Comando era Filipe Nyusi, na qualidade de ministro da Defesa. Aliás, chegou a dizer que o coordenador do Comando Conjunto devia dar esclarecimentos sobre as decisões e passos seguidos para operacionalizar o projecto da Zona Económica exclusiva (ZEE) ao tribunal e ao público, no geral, que redundou no escândalo financeiro do momento.

 Gregório Leão, em respostas às perguntas do tribunal, particularmente do Ministério Público, produziu um enredo de vítima e alheio aos esquemas que se teceram para o desfalque. Pois, disse que o projecto sobre a protecção da costa moçambicana, particularmente a ZEE, encontrou quando passou a dirigir a instituição e que todo o processo estava nas mãos do seu director de Inteligência Económica, Carlos do Rosário. Inclusive disse que não sabia que nas deslocações à Alemanha e Abu Dhabi, no contexto de visitar as propostas da Privinvest para o projecto de proteção da ZEE, Carlos de Rosário ia na companhia de Teófilo Nhangumele, Ndambi Guebuza e Bruno Langa.

Apesar de ter sido Nhangumele que apresentou o projecto no Comando Conjunto, também presente Gregório Leão, este diz não saber porquê este estava integrado e que nunca falou com o mesmo sobre aquele projecto, porém, disse o ter conhecido no Instituto de Línguas, onde ambos estudavam, ter tido uma conversa com ele em Portugal quando ele embaixador e Nhangumele como cidadão moçambicano naquele país, com alguma preocupação que já não se recordava e, por, fim em sessão de apresentação do projecto no comando conjunto.

 Procurando se afastar de qualquer ligação com o “grupo” Nhangumele, Ndambi e Bruno, disse que nem chegou a ter relatório escrito e relação constituintes da comitiva das viagens efectuadas em nome do SISE, por ser prática a apresentação de relatórios orais e sintéticos, sendo da responsabilidade dos dirigentes sectoriais escolherem os constituintes das equipas de trabalho.

 Questionado sobre pormenores sobre as decisões e passos dados no contexto da implementação das decisões do Comando Conjunto no contexto do projecto em apreço e que degenerou nas famigeradas dívidas ocultas, o réu Gregório Leão defendeu-se dizendo que há informações classificadas que não podia partilhar com o tribunal e outros detalhes e que solicita-se o então coordenador do Comando Conjunto, em alusão ao então ministro da defesa, que era o actula Presidente da República, filipe Nyusi.

O julgamento ainda vai ao rubro, mas, na verdade, Gregório Leão e António Carlos do Rosário, que eram as figuras de topo do SISE, umbrela institucional da criação da ProIndicus, M.A.M. e Ematum, são peças-chave para detalhes sobre o que realmente aconteceu no escândalo financeiro que caloteou Moçambique durante o último mandato de Armando Guebuza onde o país contratou uma dívida de 2,2 mil milhões de dólares actualmente actualizada para 2, 7 mil milhões segundo o Banco Central.

 Confissões da privinvest contra a dupla da secreta

Segundo várias acusações judiciais, incluindo da Procuradoria-Geral da República (PGR) e do Departamento de Justiça dos EUA, a Privinvest subornou ao então Director do SISE, Gregório Leão¸ e seu subordinado, o Director de Inteligência Económica, António Carlos do Rosário, para deixarem passar o golpe das dívidas ocultas, que afundou o país. Como chefes dos serviços da inteligência nacional, era inevitável que os dois tomassem conhecimento do golpe económico que era arquitectado contra o Estado moçambicano. Foram mobilizados milhões de dólares para subornos e aliciamentos. Para isso, os dois criaram empresas de fachada, em parceria com a Privinvest, através das quais receberam pagamentos ilícitos, numa rede de lavagem de dinheiro envolvendo várias pessoas e empresas.

Segundo constante do documento submetido pela Privinvest ao tribunal inglês, a 30 de Maio de 2014, foi criada a empresa Quilua Holdings Investments SA, tendo como accionistas a Logistics International, do grupo Privinvest, com 80%; a Anlaba Investments SA, “detida ou controlada” por Gregório Leão, com 7,5%; a Pantera Investments SA, “detida ou controlada” por Manuel Chang, com 7,5% e a Txopela Investments SA, detida ou controlada por António Carlos do Rosário, com os restantes 5%. A Privinvest justifica os pagamentos destinados aos directores do SISE, alegando que eram parte do seu investimento na Quilua Holdings Investments AS, destinados à compra de propriedades e apresenta o que chama de “alguns exemplos” desses pagamentos. “A 30 de Maio de 2013, a PSAL depositou US $1,25 milhões numa conta em nome de Adriano Manuel Weng¸ no Banco Comercial Português, Portugal (“ BCP ”).

 Outros pagamentos foram efectuados para a mesma conta pela PSAL¸ a 25 de Junho de 2013¸ no valor de US $1 milhão¸ e a 8 de Julho de 2013¸ no valor de US $1 milhão. Estes pagamentos foram entendidos pelo Sr. Boustani como sendo para a compra de uma casa na Rua Caracol e de uma casa na Rua da Gorongosa, ruas vizinhas em Maputo. Ambas as propriedades foram registadas em nome pessoal do Sr. [António] do Rosário, mas com a intenção comum entre a Privinvest / IRS por um lado e o Sr. do Rosário por outro lado, de que seriam novamente registadas a favor da Txopela” (p. 96). “A 18 de Setembro de 2013, a Logistics Offshore transferiu US $250.000 para uma conta em nome de Vera Botelho da Costa¸ no BCP.

 Um novo pagamento foi feito para a mesma conta no valor de US $ 30.000¸ na mesma data. Estes pagamentos foram entendidos pelo Sr. Boustani como sendo relativos à aquisição pela Txopela de um apartamento no Centro Comercial Polana¸ em Maputo. O imóvel foi registado a favor do [António] do Rosário¸ pessoalmente, mas com a intenção comum entre a Privinvest / IRS por um lado e o Sr. do Rosário por outro lado, que o mesmo fosse registado novamente para a Txopela” (p. 96). “A 18 de Setembro de 2013, a Logistics Offshore pagou US $280.000 a uma conta em nome de Arlete Varela Jardim¸ no FNB, Mozambique SA. Este pagamento foi entendido pelo Sr. Boustani como sendo para a aquisição pela Txopela de um apartamento no Edifício Jacaranda na zona da Polana¸ em Maputo” (p. 97) “A 18 de Setembro de 2013, a Logistics Offshore pagou US $280.000 a uma conta em nome de Ibrahim Ismahil Hatia no Standard Bank SARL, Moçambique. Tal foi entendido pelo Sr. Boustani como se tratando da 4ª aquisição pela Txopela de um apartamento no Centro Comercial Polana em Maputo” (p. 97) “A 29 de Outubro de 2013, a Logistics Offshore pagou: (i) US $684.000 para uma conta em nome de Adil Salimo Jussub no Banco Espírito Santo, Portugal (“BES”); (ii) US $342.000 para uma conta em nome de Youssuf Salimo Jussub no BES; (iii) US $900.000 para uma conta em nome de Issuf Ahmad no Millennium BCP, Portugal.

  Estes pagamentos foram entendidos pelo Sr. Boustani como pagamentos pela aquisição de três lotes de terreno nos quais se pretendia que a Txopela construísse um edifício significativo. Este activo está actualmente registado na Tat Property S.A., com a intenção de ser registado novamente na Txopela” (p. 97). “A 26 de Novembro de 2013, a Logistics Offshore pagou US $400.000 à LIFO International General Trading LLC. Tratava-se de um pagamento respeitante a um terreno propriedade de Adil e Youssuf Salimo Jussub, que Sr. Boustani entendia estar relacionado com o projecto de edifício descrito no  $ 310.7 supra. O Sr. Jussub pediu à Logistics Offshore que pagasse esse preço por uma transferência para a LIFO. A Privinvest / IRS e o Sr. do Rosário pretendiam que o talhão fosse registado em nome da Txopela” (p. 97)

Estes são alguns factos que vão encurralar estes dois réus, mas ainda há muito pano para manga.

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