Preto & Branco

Ruandeses no grupo terrorista em Cabo Delgado

O presidente ruandês, Paul Kagame, cujo país apoia, desde Julho último, o governo moçambicano com uma missão militar de cerca de mil soldados e polícias no combate ao grupo terrorista que devasta a província de Cabo Delgado, desde 2017, revelou que no seio do grupo terrorista existem cidadãos ruandeses. E esclarece que a intervenção militar em Moçambique é suportada por recursos financeiros próprios e não franceses e muito menos da petrolífera francesa Total, como tem sido especulado por vários analistas.

Numa entrevista à televisão pública ruandesa RBA, o Presidente do Ruanda, Paul Kagame, afirmou: “Até agora, estamos a usar os nossos meios. Temos meios decentes que estamos satisfeitos em poder partilhar. Não há ninguém a patrocinar-nos”.

O estadista ruandês respondia a uma pergunta sobre um eventual financiamento da França ou da Total, que tem sido suscitado por vários analistas, tendo em conta o investimento bilionário em Cabo Delgado para exploração de gás, interrompido em Março do presente ano devido ao agravamento de ataques e sua devastação nesta província nortenha de Moçambique.

Nesta sua abordagem pública, Kagame vincou:”Não há ninguém a patrocinar-nos. Digo isto em frente ao ministro das Finanças: ele sabe quanto é que nos está a custar. Mas acho que os resultados valem mais que o dinheiro”, considerou, para de seguida esclarecer que a Total não é a única multinacional envolvida neste projecto, destacando o facto de haver outras petrolíferas envolvidas nos investimentos em gás natural e, por outro lado, revelou e como base justificativa do envolvimento militar ruandês no apoio a Moçambique a presença de ruandeses entre os “terroristas” presentes em Cabo Delgado, mas não avançou detalhes. Aliás, a informação que circula é que no grupo terrorista existem cidadãos de vários países, incluindo moçambicanos recrutados internamente.

Outro esclarecimento de Kagame aproveitou dar ao público tinha a ver com o questionamento à rapidez com que Ruanda pôs-se ao terreno antes da força conjunta da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC). Irónico, faz a seguinte analogia: “Há um vizinho com a casa a arder” e “aquele que chega primeiro é questionado: porque é que foi tão rápido a apagar fogo? (…) Nunca tinha visto isto”.

Reconquistas com apoio ruandês

Em resposta a outra questão, especificou que, até agora, as forças deslocadas pelo Ruanda são suficientes – além de que haver um envolvimento crescente de outros parceiros, nomeadamente da SADC com uma força conjunta de vários países no terreno.

Mais uma vez vincou: “a nossa missão não está ligada a recursos nem a outras coisas, é só para tornar a zona segura” e assim apoiar Moçambique, porque “há muito para fazer, um parceiro não chega”, dado o grau de destruição em Cabo Delgado, concluiu.

Ruanda que é um dos cinco países que mais contribuiu para operações de paz das Nações Unidas, com um total de cerca de 5.100 elementos, a nível bilateral, tem desde o início de Julho cerca de mil militares e polícias em Cabo Delgado para apoiar Moçambique que entraram em acção antes da força conjunta da SADC – que anunciou na última sexta-feira estar totalmente operacional.

Os militares ruandeses e as forças moçambicanas reconquistaram no início de Agosto a vila de Mocímboa da Praia, sede de distrito, considerada por muitos a “base” dos grupos insurgentes que têm protagonizado ataques armados em Cabo Delgado desde 2017 e as reconquistas tem ganhando campo e os insurgentes postos em debandada, inclusive a atravessar fronteiras para países da sua proveniência. O conflito armado entre forças militares e terrorista em Cabo Delgado já provocou mais de 3 mil mortes, segundo o projeto de registo de conflitos ACLED, e mais de 817 mil deslocados, segundo as autoridades moçambicanas.

Por outro lado, as tropas do Ruanda e de Moçambique têm revelado avanços no terreno, com alguns deslocados a regressar às suas áreas de residência, nomeadamente em Mocímboa da Praia e Palma.

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