Preto & Branco

Amigo da antiga secretaria de Armando Guebuza em lágrimas …

Na terceira semana do julgamento, reiniciado na segunda-feira (6 de Setembro), o réu que chamou atenção foi Sérgio Namburete. Visivelmente emocionado, deixou cair lágrimas e pediu desculpas à sua família devido à mancha que criara, se envolvendo num assunto que não sabia que estava envolto em esquemas de corrupção, quando solicitado para um negócio de construção civil, por uma sua amiga, a antiga secretária particular do então Presidente da República, Inês Moiane.

Nas questões apresentadas pelo Juiz do caso e pelo Ministério Público, misturando-se em contradições e com aparências de ingenuidade, Sérgio Namburete contou emocionado as circunstâncias da sua prisão, misturado com momentos emocionais que podem ser para mexer com a sensibilidade do tribunal e do público. Com pouco mais de 60 anos de idade, ele e a esposa foram à cadeia, deixando um bebé de quatro meses.

“Até hoje, não sei como pedir desculpas à minha mulher”, em alusão a Márcia Namburete, que chegou a ser arguida no caso, por alegadamente ter recebido parte do dinheiro ilegal através do seu marido Sérgio Namburete. “Peço perdão a todos que ofendi”., disse vertendo lágrimas.

O Juiz Efigénio Baptista apelou ao réu para que ficasse calmo, porque “não está a ser condenado, ainda, nem absolvido”. As questões de fundo foram-se desenvolvendo e Sérgio Namburete disse ter conhecido Inês Moiane (sua amiga) na década de 90. Revela que a então secretária do antigo Presidente da República, Armando Guebuza, o convenceu a entrar no esquema sem dizer, de facto, qual era o negócio.

Segundo o réu, Inês Moiane disse que havia um projecto de se erguer prédio de mais de 20 andares no terreno da co-ré, na zona do ATCM (Costa do Sol), cujo investidor era de Abu Dhabi e que para Namburete ser intermediário tinha de ser através de uma empresa.

“Eu fiquei muito feliz quando soube que era um empresário de Abu Dhabi. Naquela altura, quando se falava de um empresário dos Emirados Árabes Unidos… vi que era uma oportunidade de abrir uma empresa e fazer os meus negócios”.

O réu diz que o investidor não queria fazer negócio com singulares, mas sim com empresa e que ele tinha de ter uma firma para poder facturar.

Questionado sobre que trabalho de consultoria fez, Namburete diz que foi um dos assinantes do contrato, fez a demarcação do terreno e levou os topógrafos para fazerem a planta topográfica do projecto que nunca mais avançou.

“Quem deu o preço foi o senhor Jean Boustani. O valor era de 750 mil euros sem acréscimo de nada. Mantive contacto com o senhor Jean via telefone e o contacto foi-me passado por ela (Inês Moiane). Ela pensava que eu já tinha a empresa”, explicou Namburete.

É de recordar que Sérgio Namburete, de acordo com a acusação, abriu uma empresa de consultoria que nunca esteve em actividade, apenas serviu para receber dinheiro da Privinvest, num esquema coordenado com Inês Moiane, então secretária particular de Armando Guebuza, sendo que a verba teria sido recebida por Moiane para facilitar reuniões entre Guebuza e Jean Boustani.

O valor canalizado neste esquema é de 877.500 euros. Deste valor, 127.500 euros foram para os bolsos de Namburete, conforme diz a acusação e a assunção do próprio réu.

Neste dia de audiência, alegadamente por ter problemas de saúde e estar a medicar, o réu pediu uma pausa para tomar medicamentos e, minutos depois, a sessão foi retomada. O Juiz quis perceber como é que a ré Inês Moiane procurou um intermediário para um negócio no qual conhecia a outra parte e podia negociar pessoalmente.  Namburete disse não saber porquê foi o escolhido para tal enroscada, repetindo que não sabia que estava metendo-se num esquema ilícito.

Às perguntas do Ministério Público, na mesma senda do Juiz mas com outra roupagem, Namburete foi se apercebendo que, de facto, havia se metido numa situação delicada, sendo acusado de lavagem de dinheiro, arrastando ingenuamente a sua esposa. Mais uma vez chorou copiosamente, ate que a sessão foi a intervalo para o relaxamento do réu.

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