Preto & Branco

Ndambi Guebuza aldrabou comparsas

O marco semanal do arranque do julgamento do caso das dividas ocultas, inaugurado na segunda-feira (23 de Agosto) nas tendas instaladas na Cadeia de Máxima segurança, vulgo B.O., localizada na Machava, província de Maputo é o novelo de como verdadeiramente se entrelaçou o processo de corrupção que lesou o Estado moçambicano em mais de 2 biliões de dólares e a finalidade dada ao dinheiro roubado. No cômputo geral, a maioria das operações tiveram lugar fora do país e para camuflar a proveniência ilícita do dinheiro partilhado vários artifícios foram usados, mas o denominador comum é que todos, não contornaram a compra de imóveis e viaturas de luxo. Mas, um detalhe nos permite partilhar nesta edição, a posição estratégica do filho do então Presidente da Republica, Ndambi Guebuza, que, inclusive, teria recebido 50 milhões de dólares para partilhar com seus quatro comparsas, porém, os aldrabou, visto que não receberam o combinado.

No dia inaugural deste julgamento, presidido pelo ‘novel’ juiz, Efigénio Baptista, o Ministério Público acusou os 19 arguidos do processo das “dívidas ocultas” de se terem associado para delapidarem o Estado e deixar o país economicamente de rastos.

“Quem se associa em quadrilha para roubar ao Estado não está ao serviço do Estado. Os arguidos agiram em comunhão, colocando os seus interesses particulares acima dos interesses do Estado”, referiu a magistrada do Ministério Público, Ana Sheila Marrengula, na leitura da acusação, ajuntando que a conduta dos arguidos delapidou o Estado moçambicano em cerca de 3 biliões de dólares angariados junto de bancos internacionais através de garantias prestadas pelo Governo, considerando que “todos prejudicaram o país e deixaram-no numa situação económica difícil”.

Mas no rol das acusações individualizadas, o foco foi para Armando Ndambi Guebuza, um dos sete arguidos em prisão preventiva, e primogénito de Armando Guebuza, chefe de Estado moçambicano à altura dos factos., tido como o pivot no tráfico de influências no círculo presidencial até a autorização do famigerado negocio lesivo ao povo moçambicano.

De acordo com o Ministério Público, Armando Ndambi Guebuza foi quem recebeu a maior parcela do dinheiro desviado, na base das evidências até agora apuradas,  dos empréstimos mobilizados com os avales do Estado, tendo embolsado 33 milhões de dólares.

A magistrada Ana Marrengula,  referiu que “Armando Ndambi Guebuza usou a influênca junto do pai, o antigo Presidente da República Armando Guebuza, para conseguir a viabilização do esquema e tirar vantagem patrimonial para si e seus comparsas”,

Mais, os contornos do envolvimento de Ndambi Guebuza são vastos, pois, nas correspondências interceptadas no contextos das investigações, consta que em representação de outros três seus comparsas directos, também arguidos, nomeadamente Teófilo Nhangumele, Bruno Langa e Cipriano Mutota, teria recebido de pivot da Privinvest , Jean Boustani, 50 milhões de dólares, para dividir com aqueles e, eventualmente, com outros envolvidos. A Nhangumele e a Langa caberia a cada um 10 milhões de dólares, mas Ndambi reclamou que tinha mais gente por pagar pelo que exigiu que os dois descontassem 1.5 milhão cada, ficando cada com 8.5 milhões de dólares.

Mas, veio a constactar-se que Ndambi nada deu a Mutota e talvez também a mais ninguém, se é que existia.  Isto foi revelado, em sede de tribunal pelo próprio Mutota, que revelou ter sabido do recebimento dos milhões por outra fonte ligada ao esquema fraudulento.

Perante o “barulho” do Mutota, que afinal foi o autor intelectual do projecto que viria a dar origem a ProIndicus, Nhangumele que era o pivot financeiro da ‘bolada”  sugeriu que os três primeiros descontassem cada 500 mil dólares para perfazer 1.5 milhão de dólares e passar-se ao Mutota, o que Ndambi declinou.

Na verdade, Ndambi estava a “passar-lhes a perna”, pois, a Mutota nada entregou e quando este exigiu sua parte o mandou “passear”, tendo este recorrido a Jean Boustani, que por sua vez disse que já havia pago todo o valor combinado ao filho do presidente.

Somente com a insistência de Mutota e alguma intermediação de Nhangumele, o libanês fez chegar a Mutota 980 mil dólares e, posteriormente, mais alguns milhares de dólares. Por isso mesmo consta na acusação que Ndambi amealhou “sozinho” 33 milhões de dólares.

Segundo a acusação, com o dinheiro, o filho mais velho do ex-Presidente comprou viaturas topo de gama, algumas das quais ofereceu a amigos, imóveis dentro e fora do país e pagou viagens de lazer. Aliás, a mesma atitude de esbanjamento, que só é possível com dinheiro fácil e alheio, seguiram quase todos os arguidos deste processo.

Depois da acusação e das alegações prévias, os dias seguintes estão a ser preenchidos com a audição dos réus, existindo muita expectativa em ouvir-se as versões de Ndambi Guebuza.

Dos 19 arguidos, constam, do circulo próximo ao antigo estadista, Armando Guebuza, nomes como de Inês Moiane, sua secretária particular, e o seu antigo conselheiro político, Renato Matusse.

Outras figuras de proa no Estado moçambicano, são os quadros superiores do Serviço de Informação e Segurança do Estado (SISE), nomeadamente Gregório Leão, antigo director-geral, o antigo director da Inteligência Económica do SISE, António Carlos do Rosário, que era simultaneamente o PCA das três empresas criadas e envolvidas no esquema corrupto, e o antigo diretor do Gabinete de Estudos e Projectos, Cipriano Mutota. A estes, a magistrada Marrengula, acusou-os de também terem “roubado ao Estado”, o qual deviam proteger.

Vincou ainda que, os arguidos usaram as ameaças e preocupações do SISE e do Governo com a proteção da Zona Económica Exclusiva (ZEE) para engendrarem um esquema de pagamento de subornos financiado com o dinheiro destinado à segurança das águas territoriais moçambicanas.

Para o Ministério Público moçambicano, entre os diversos crimes que os arguidos cometeram incluem-se associação para delinquir, tráfico de influência, corrupção passiva para ato ilícito, branqueamento de capitais, peculato, abuso de cargo ou função e falsificação de documentos.

Além dos evocados acima, a lista dos arguidos inclui Ângela Leão, esposa do antigo director-geral do SISE, Fabião Mabunda,  Elias Moiane, Sidónio Sitoe, Crimildo Manjate, Mbanda Henning, Khessaujee Pulchand, Simione Mahumane, Zulficar Ahmad, Naíma José, Sérgio Namburete e Márcia Caifaz Namburete.

 

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