Preto & Branco

Um moçambicano nos “meandros” de Londres

Há um segmento da população moçambicana que parece “amordaçada”, por não saber-se como vive, suas inspirações, desafios, enfim… sobre suas estórias de vida! Referimo-nos a moçambicanos que estão sendo formados, trabalham ou vivem no estrangeiro. Para contribuir na quebra deste silêncio e dar voz à diáspora moçambicana, nesta edição trazemos uma breve entrevista com um moçambicano que vive fora de Moçambique há 38 anos! Chama-se Humberto Heliotrope, especialista em telecomunicações e homem de negócios, vivendo actualmente na Inglaterra, depois de 13 anos em Portugal. Chegou a “despir” a sua formação profissional e fazer serviços de limpeza para a sua integração no estrangeiro. Actualmente é Director de Investimentos da African Portuguese Speaking Portuguese – Business Alliance (APSC-BA), sedeada em Londres. siga os trechos da entrevista concedida com recurso às tecnologias de informação e comunicação.

Jornal Preto& Branco (JP&B) – Quem é Humberto Heliotrope? Sua origem, infância, família, formação, …

Humberto Heliotrope (HH) – Meu nome completo é Humberto Luís Domingue Heliotrope e tenho 65 anos de idade, divorciado, pai de três meninas, hoje são mulheres casadas e as duas mais velhas cada tem duas meninas e um rapaz, tenho seis netos cujas idades variam dos 14 anos a 4 meses de idade. Quanto à minha origem, nasci na cidade de Lourenço Marques, hoje a bela capital da nossa República de Moçambique, a cidade de Maputo, mas cresci em Xinavane, o meu falecido pai trabalhava na Açucareira de Xinavane e a minha falecida mãe era doméstica. Fiz o Ensino Primário na Escola Primaria Oficial de Xinavane, depois meus pais enviaram-me para a capital onde continuei os meus estudos no Colégio Dom Bosco, fiz ali o Primeiro Ciclo, com as áreas de Electricidade & Telecomunicações e Biologia a despertarem mais o meu interesse, mas a área técnica teve mais peso, pelo que pedi aos meus pais que me matriculassem na Escola Industrial, na altura Mouzinho de Albuquerque.

 

JP&B – Com esta formação técnica, estava a preparar-se para o trabalho…

(HH) – Comecei a trabalhar, creio, em Dezembro de 1974 [com 18 anos de idade] na empresa estatal CTT [Correios, Telégrafos e Telefones], na Central Telex, no período do Governo de Transição e simultaneamente dei aulas de noite no Liceu Francisco Manyanga. Em 1976, tive uma formação, curso nocturno, no Centro de Formação Profissional dos CTT, durante um ano, onde foi formada uma turma de quatro elementos, a nossa formação foi sobre Telecomunicações e Sistemas de Multiplex e continuei estudando no Instituto Industrial do Maputo e em 1977 fui transferido para a Direcção Regional dos CTT, província de Nampula. Permaneci lá trabalhando na Central das Altas Frequências ou Departamento de Transmissões, fazia a manutenção e reparação dos diferentes sistemas de Comunicações entre Nampula e Maputo, entre província de Nampula e os distritos e localidades, também assistíamos às províncias de Cabo Delgado e Niassa, incluindo distritos e localidades.

De 1979/80 fui transferido para a província de Inhambane, permaneci até 1982/83, na Direcção Provincial dos CTT e depois na Direcção de Área das Telecomunicações de Moçambique – TDM, na Secção de Transmissões, fazendo manutenção e reparação dos equipamentos na capital provincial e na rede provincial, distritos e localidades.

Em determinada altura, os CTT deram origem a duas empresas estatais; a Empresa dos Correios e a Empresa das Telecomunicações de Moçambique. Como técnico, automaticamente fiquei nas TDM e membro do Conselho de Direcção, como o Director, pouco depois teve que ir para Maputo tirar um curso, fui apontado para ser Director da Área de Telecomunicações, permaneci até ser transferido, em 1983, para o Gabinete de Estudos e Projectos das TDM, em Maputo.

De profissional de telecomunicações para empregado de limpeza

JP&B – Segundo as contas, é por aí que sai do país…

(HH)- Sim, no meio do ano de 1983 fomos de férias a Portugal e não regressamos. Eu e a minha família residimos e trabalhamos em Portugal cerca de 12 a 13 anos. Em 1995, a Célia [esposa] e nossas filhas vieram primeiro para o Reino Unido, eu vim juntar-me a elas em 1996, estava a terminar um contrato de trabalho na Alemanha.  Gostaria de esclarecer que enquanto residi em Portugal trabalhei no Iraque, Rússia, Espanha e Alemanha como Eletricista.

JP&B – Com Portugal existe a afinidade da língua e um passado comum, como foi a integração no Reino Unido?

(HH) – A nossa integração no Reino Unido, na altura da nossa chegada como família, foi bem mais fácil, com apoios em todas as áreas possíveis e imaginárias. Temporariamente a minha família foi alojada num alojamento temporário e em definitivo em casas de renda social. Tivemos encorajamento e facilidade para estudarmos a língua Inglesa, creche para os com idade para tal e matricula obrigatória para continuar os estudos na Escola Primária ou Secundária, assistência médica, hospitalar e medicamentosa, através da inscrição obrigatória nos médicos de família nas áreas de residência, vulgarmente conhecidos como “GP”.

A minha experiência como deve imaginar, para qualquer pessoa que não fala o Inglês minimamente para se comunicar, tem que fazer os trabalhos mais humildes.  Durante alguns anos fiz limpezas, em escolas e escritórios, enquanto estudava a língua, recebia um beneficio e era-me permitido trabalhar um certo número de horas por semana, mas tínhamos uma vida decente sem grandes dificuldades. Fiz praticamente todos os níveis recomendados da língua Inglesa e ao mesmo tempo no College estudava BTEC HND (Higher National Diploma), um diploma equivalente ao nosso Instituto Industrial.

Aquando da minha chegada a Londres, o Alto Comissário era o Dr. Eduardo Koloma, tempos depois o Presidente Joaquim Chissano veio em visita oficial ao Reino Unido, aqui foi a minha estreia oficial como representante da comunidade moçambicana, na recepção oficial num dos hotéis da cidade de Londres. Estava com a minha família e as minhas duas filhas mais novas, creio que na altura tinham 3 e 6 anos respectivamente, fizeram a oferta dum ramo de flores ao Presidente Chissano.

JP&B – Como tem sido a convivência de moçambicanos no Reino Unido?

(HH) – Quando cheguei em Londres, procurei conhecer e integrar-me na comunidade moçambicana, residentes e estudantes com bolsa de estudos no Reino Unido. Então fiquei a saber que havia uma associação de moçambicanos, a Casa de Moçambique no Reino Unido (CDMUK). organizamos convívios e festas nacionais, tal como em Moçambique se faz nos Dia dos Heróis Moçambicanos, Dia da Mulher Moçambicana, Dia da Independência, 7 de Setembro, entre outros eventos. Em determinada altura oficializamos junto do Governo Inglês a nossa Associação e com esse registo abrimos a nossa conta bancária.

 JP&B – Que papel desempenha(va) nessa Associação?

(HH) – Quando cheguei a Londres, o Presidente da Casa de Moçambique no Reino Unido era o Mussa Aly, esta associação era unicamente reconhecida pelo Alto Comissariado de Moçambique, não pelo Governo Inglês. A Comunidade em determinada altura devido a própria dinâmica do crescimento e com o apoio do Alto Comissariado, a comunidade moçambicana determinou em Assembleia Geral o rumo que se pretendia seguir. Organizamos as primeiras eleições, com três candidatos a Presidência da CDMUK, eu fiz o papel de Presidente da Mesa da Assembleia, foi eleito Hélio da Silva, foi entre os anos 2000 e 2004 (não me lembro). A partir deste momento voluntariamente aproximaram-se vários elementos dispostos a trabalhar em prol de ajudar a comunidade. Os primeiros departamentos foram criados nessa altura, elaboramos e aprovamos um Estatuto para fazermos o registo no Camden Voluntary Action, um Departamento do Município de Camden, uma das cidades de Londres e abrimos a nossa conta bancária.

Eu criei o Departamento de Informação e Assuntos Económicos, que dirige vários anos, participei em reuniões de “fairtrade” com a Church of England e com alguns “councillors do Borough, de Camden, assim como com o Alto Comissariado. Hoje, a CDMUK é   uma umbrela ou casa-mãe para as diversas associações de moçambicanos existentes no Reino Unido, visto termos uma comunidade bem activa, dinâmica e criativa. Praticamente, em todas as regiões do Reino Unido existe uma ou mais famílias de moçambicanos.

Na promoção de negócios dos PALOP’s no Reino Unido

JP&BQuais têm sido as principais atrações no Reino Unido?

 (HH) – O que mais me atrai no Reino Unido é a qualidade de vida que aqui temos: Inflação controlada, estabilidade no trabalho (praticamente não existem contratos de trabalho temporário), corrupção a nível da classe trabalhadora e classe média inexistente, que eu saiba. Há qualidade nos serviços de Saúde, 95% de segurança nas ruas contra assaltos, roubos, sequestros e assassinatos, qualidade do Ensino desde o nível Primário até ao Superior.

JP&BOlhando para as relações entre vários países do Reino Unido que lhe apraz dizer, sobretudo com o BREXIT?

(HH) – Quando cheguei a Londres, o Reino Unido era membro da União Europeia (UE), nessa qualidade a nossa integração como cidadãos dum país membro da EU [Portugal], foi bem fácil.  Hoje, o país deixou de ser membro da UE, foi o processo conhecido como BREXIT, muitos moçambicanos têm nacionalidade portuguesa, Inglesa ou uma outra que permita não termos grandes problemas de residência. Quem residia, trabalhava, estudava ou reformado, o processo de pedir um visto de Residência Permanente foi fácil e estava já previsto nas negociações. Temos também a Commonwealth, uma associação voluntaria de 54 países independentes, criada pelo Reino Unido e formada por antigas colónias britânicas. Hoje qualquer país que queira fazer parte desta Associação, pode solicitar e Moçambique já é membro. O Reino Unido mantém relações diplomáticas, políticas, económicas e militares com a maior parte dos países membros da ONU [Organização das Nações Unidas].

JP&BConsta que tem estado a representar moçambicanos na Inglaterra. Pode-nos falar deste trabalho?

(HH) – Nos dois mandatos do Presidente Armando Guebuza [2004/2014], estive sempre presente nas suas visitas oficias ao Reino Unido em representação de moçambicanos aqui residentes. O actual Presidente, Filipe Nyusi, quanto candidato visitou Londres, estive presente na reunião com a Comunidade, a nível restrito e no Chatham House international Affairs.  Em janeiro de 2020[ano passado] ouve dois dias de Conferência Económica Reino Unido – África e Reino Unido – Moçambique no Dorchester Hotel, também me fazia presente.

 JP&B Apuramos, também, que actualmente faz parte de uma organização ligada às comunidades dos países africanos falantes da língua portuguesa no Reino Unido. De que se trata?

(HH) – Em Fevereiro de 2021 [presente ano] recebi uma proposta do Dr. Osvaldo Gomes, CEO da APSC [African Portuguese Speaking Portuguese] Business Alliance, para trabalhar voluntariamente com esta associação, como Director de Investimentos. Conheço o Osvaldo há vários anos, nessa altura eu ainda era membro do Executivo da CDMUK, responsável de Informação e Relações Económicas, mas devido a conflitos de interesses pedi demissão ao Presidente da CDMUK.  É preciso explicar que a APSC (African Portuguese Speaking Portuguese), registada na Companies House, foi criada para ajudar a diáspora africana dos PALOPs [Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa] no Reino Unido, assistindo em casos de justiça, benefícios, emprego e nos diversos assuntos.

No entanto, em 2019, num encontro casual, o Osvaldo conheceu David Smith, CEO do BABA (British African Business Alliance) que tem uma experiencia de décadas investindo em países africanos cuja língua oficial é o Inglês como língua oficial. Nasceu uma parceria que deu origem a APSC Business Alliance, como componente ligada à promoção de negócios da APSC, tendo como umbrela a BABA.  Então, a APSC Business Alliance, da qual sou actualmente Director de Investimentos, é uma plataforma de promoção de investimentos e negócios com os Paises Africanos de Língua Oficial Portuguesa e o Reino Unido, nas mais diversas áreas: construção civil, agricultura, pescas, energias renováveis, minas, investigação, etc.

JP&B Até ao momento, quantos  países estão integrados na organização?

(HH) – Na prática, quase todos os países da Comunidade fazem parte, de momento só não temos um representante de Timor-Leste.

JP&B – De forma geral, quais são os desafios de viver fora da sua pátria-mãe?

(HD) – Os desafios que encontrei por estar fora da Pátria-mãe, foi não sermos reconhecidos como moçambicanos na nossa própria terra, porque nos momentos difíceis da guerra e fome tínhamos abandonado o barco. Era este o sentimos quando íamos de férias a Moçambique, isto, depois da paz ter sido estabelecida através dos Acordos de Roma, em 4 de Outubro de 1992, pondo fim a guerra civil sangrenta e com imensas dificuldades de investirmos. Hoje, este problema está ultrapassado, a diáspora começa a ser compreendida como uma mais-valia, pela luta pela Independência Económica do nosso país. Nós [diáspora moçambicana] estamos em grande parte dos paises da Europa, África, Américas e Ásia.

JP&B – Últimas considerações?

(HD) – As minha ultimas considerações são bem simples: reconciliação, unidos somos mais fortes e venceremos todos os desafios, com humildade e respeito pelas diferentes opiniões, politicas, religiosas e até de entendimento.

 

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