Preto & Branco

Forças ruandesas nos interesses da França

A força armada ruandesa composta por mil militares e policias, incluindo unidades especiais, destacada para apoio ao Governo moçambicano no combate aos grupos terroristas que assolam os distritos de Cabo Delgado desde 2017, estão mais alocadas à zona do Afungi, área onde estão em desenvolvimento as bilionarias explorações petroliferas lideradas pela multinacional francesa Total, cuja factura operacional, avança-se, será paga pela França. Aliás, A França e o Ruanda estão em periodo de resgate e fortalecimento de suas relações bilaterais, sendo este último país, com fronteiras na SADC, um bom pivot para a salvaguarda dos interersses franceses em Cabo Delgado, evitando uma militarizaçao directa da França que já era antevista como ingerência estrangeira.

 Na edição da semana passada, este jornal publicou um artigo que assinalava que o contigente militar e policial ruandês, sendo o maior e altamente equipado a nivel das intervenções bilaterais em Cabo Delgado, estaria em posição de controle operacional na região, leitura que proeminentes analistas nacionais dão ênfase.

Analistas abordados por vários órgãos de comunicação nos últimos dias, avançam que Cabo Delgado corre o risco de ser partilhado por controles militares, visto que fora o Ruanda, outros países fora de África, além da missão da SADC, têm missões militares a destacar ou destacadas para Cabo Delgado, cujas intervenções vão criar “enclaves petroliferos” nas zonas de exploração das multinacionais, mas que não irão eliminar a insurgência na região.

O Ruanda deu o ponta-pé de saída ao iniciar o envio, na sexta-feira passada, de militares e polícias para o combate à insurgência, no âmbito de uma missão composta por mil homens e espera-se, já atrasado, um destacamento de uma força militar da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC) para aquele teatro de operações.

O investigador do Observatório do Meio Rural (OMR), organização da sociedade civil moçambicana e com estudos sobre a guerra na província de Cabo Delgado, João Feijó, entende que a presença de um contingente do Ruanda e o destacamento de uma força da SADC parecem visar a proteção dos interesses das multinacionais envolvidas nos projectos de gás natural na bacia do Rovuma, o que poderá resultar “num enclave petrolífero”.

“Se o mandato dessas forças for a proteção de projectos de gás, embora não declarado, teremos ali um enclave petrolífero e com um perímetro maior inacessível para a população, que ficará desprotegida”, afirmou, ajuntando que levantam-se dúvidas sobre o sucesso de ações militares conduzidas por exércitos convencionais numa “guerra assimétrica contra grupos de guerrilheiros que facilmente se misturam com a população”, como acontece em Cabo Delgado, exemplificou, numa entrevista a DW Africa.

O especialista em ciências políticas e director do Centro para a Democracia e Desenvolvimento (CDD), Adriano Nuvunga, também alertou para “a militarização do perímetro dos grandes projectos de gás natural e a contínua desproteção das populações, caso a intervenção militar não seja feita com um impulso no desenvolvimento social”.

Nuvunga explicou ainda que “não é suficiente oferecer a via militar à população de Cabo Delgado sem proporcionar desenvolvimento, porque a semente da revolta vai continuar e vai germinar, logo que o terreno permitir essa explosão”, alertando que “a ajuda militar estrangeira não é eterna, mas a revolta passa de geração em geração e continua, quando as causas não forem atacadas”.

Por seu turno, o político e especialista em relações internacionais, Manuel de Araújo, em entrevista exclusiva a DW África, na sexta-feira última, evoca a questão do saldo da intervenção militar estrangeira, particularmente do Ruanda em Cabo Delgado. ”Quanto a factura, alguém vai ter que pagar. O nosso Presidente [Filipe Nyusi], no encontro anual com os diplomatas, deixou muitos recados, e um deles era sobre as facturas. Há um artigo que circula nas redes sociais que alega a factura do Ruanda em Moçambique será, em princípio, paga pela França. A França poderá adiantar o pagamento a curto prazo. Mas, a médio e longo prazo, a factura, com juros, poderá, suponho eu, ser passada a Moçambique”, considerou.

No entanto, o Presidente da República, Filipe Nyusi, numa das suas intervençoes públicas , semana passada, como que a responder as especulaçoes sobre facturas a pagar pelos engajamento militar de varios paises em Moçambique, particularmente do Ruanda, disse que os países que estão a apoiar Moçambique no combate ao terrorismo não fazem em troca de algum beneficio, estando apenas a contribuir para que a paz reine.

 Novo pacto entre França e Ruanda

Dois relatórios, concluídos neste ano, que examinaram o papel da França no genocídio de 1994 ajudaram a abrir o caminho as pazes entre a França e o Ruanda, abrindo as portas  para a primeira visita de um presidente francês a aquele pais da Africa central 11 anos e após 25 anos de tensões entre ambos países.

Concretamente no dia 27 de Maio ultimo, o presidente francês, Emmanuel Macron reconheceu, num discurso proferido em Kigali, capital ruandesa, a responsabilidade da França no genocídio de 1994 no Ruanda, apesar de negar que tenha havido cumplicidade.

“Ao querer evitar um conflito regional ou uma guerra civil, estava de facto ao lado de um regime genocida. Ao ignorar os avisos dos observadores mais lúcidos, a França arcou com uma responsabilidade esmagadora numa espiral que levou ao pior, apesar de estar precisamente a tentar evitá-lo”, considerou Macron.

No entanto, defendeu que a França “não foi cúmplice” nos acontecimentos que resultaram na morte de mais de 800 mil tutsis e hutus moderados em cerca de cem dias, num dos piores massacres étnicos da história recente.

Todavia, o seu discurso foi reconciliador e de solidariedade:”Ao estar, com humildade e respeito, ao vosso lado, neste dia, venho reconhecer as nossas responsabilidades. Reconhecer este passado é também e acima de tudo continuar o trabalho da justiça. Comprometendo-nos a assegurar que ninguém suspeito de crimes de genocídio possa escapar”, prometeu Macron.

É de recorder no genocídio do Ruanda teve início em 7 de Abril de 1994, extremistas Hutu assassinaram integrantes da minoria Tutsi e hutus moderados que tentaram protegê-los. A derrubada do avião do então presidente de Ruanda, Juvenal Habyarimana, que o matou, foi o gatilho para o massacre. O governo de Ruanda e organizações que representam os sobreviventes do genocídio acusaram diversas vezes a França, a altura dos factos presidida por François Mitterrand, de ter treinado e armado milícias e tropas que lideraram o genocídio.

Por seu turno, Paul Kagame, que preside o país desde 2000 e é o líder de facto desde 1994, quando comandou um exército rebelde que derrotou as forças que conduziram o genocídio, disse que o discurso de Macron era “mais valioso que um pedido de desculpas”. E, antes havia visto que o relatório sobre o massacre “significava muito” para o seu país e que os ruandeses poderiam “talvez não esquecer, mas perdoar” a França por seu papel na matança.

 Foi à luz desta reconciliaçao entre a França e o Ruanda, que o governo ruandês, em Junho do corrente ano, aprovou a nomeação de Antoine Anfré para o cargo de embaixador da França em Ruanda, cargo que andou vago com o agudizar das tensões em 2015 envolta das responsabilidades francesas sobre o genocídio.

É neste contexto, de novo pacto entre a França e o Ruanda que se especula sobre o real mandato da força militar ruandesa em Cabo Delgado, se realmente visa apoiar o Govreno moçambicano no control da insurgência no geral, ou mais para a protecção dos interesses franceses, atravês dos investimentos da multinacional e estatal Total.

E, estas especulações ganham terreno ao ter havido, recentemente, conversações entre o presidente moçambicano Filipe Nyusi com o presidente francês Macron e também com o ruandês Paul Kagame e “de repente” uma força colossal ruandeza desembarca em Cabo Delgado e parte dela destacada exactamente para Afungi.

Apesar de ser um país da África central, o Ruanda faz fronteira com dois países da África Austral, nomeadamente República Democrática do Congo e com a Tanzânia, que por sua vez faz fronteira com Moçambique, exectamente por Cabo Delgado. Aliás, este país já manifestou interesse, ainda aespera de resposta, para integração ao bloco político e económico da África Austral, ou seja, da SADC.

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