Preto & Branco

Forças ruandesas vão “controlar’ Cabo Delgado

Ruanda, país da África central, acaba de assumir primazia no envio bilateral de força militar para apoiar o Governo moçambicano no combate aos grupos terroristas que semeiam morte e destruição em distritos de Cabo Delgado. Já em terras moçambicanas, a missão não tem prazos e tem uma agenda multidisciplinar. Trata-se de mil militares e agentes policiais ruandeses que aterram através do aeroporto de Nacala e se desdobram pelas bases em Cabo Delgado, com destaque para Mueda e Afungi, enquanto a força conjunta da SADC [que congrega 15 países] ainda está em manobras para desembarque de um conjunto de cerca de 3 mil militares e outros países desembarcam pequenos contingentes de apoio técnico e logístico.

O contingente conjunto de mil militares e agentes da polícia do Ruanda desde sexta-feira última está a desembarcar no país, através da fronteira aérea de Nacala, e só regressará à casa depois de cumprida a sua missão, ou seja, estará em Moçambique por tempo indeterminado, sendo a primeira força estrangeira massiva e pretensamente com presença efectiva no território moçambicano no contexto do combate ao terrorismo em Cabo Delgado.

Segundo apuramos, o primeiro grupo da força policial para operações de segurança em Moçambique partiu sexta-feira no final do dia, sendo que a mesma é composta por duas unidades, ambas comandadas pelo Superintendente-Chefe da Polícia Silas Karekezi. Uma unidade ficará posicionada em Mueda, enquanto outra vai operar em Afunji.

Este anúncio é corroborado pelas próprias autoridades ruandesas, sábado último, quando um grupo de militares partia de Ruanda, num voo da RwandaAir com destino a Moçambique, tratava-se do coronel Ronald Rwivanga, o porta-voz do ministério da Defesa daquele país que revelou sobre a estadia intemporal da missão: “O nosso contingente vai apoiar os esforços para restaurar a autoridade do Estado moçambicano através da realização de operações de combate e segurança, bem como estabilização e reforma do sector de segurança (SSR). Para este contingente não está definido o tempo de permanência em Moçambique, sendo que o que importa é a missão. Temos uma missão a cumprir e, quando ela for cumprida, voltaremos para casa”, esclareceu.

Outras altas patentes ruandesas de defesa e segurança juntaram-se ao esclarecimento da missão.

A ampla missão militar ruandesa em Moçambique

Segundo apuramos, o vice-Inspector Geral da Polícia (DIGP) responsável pelas Operações, Felixh Namuhoranye, reuniu-se, na sexta-feira passada, com os agentes da polícia antes da partida para Moçambique, tendo exortado, na sequência, à observância da disciplina, respeito e trabalho em equipe, valores que definem os oficiais da Polícia Nacional de Ruanda.

Durante a parada, Namuhoranye lembrou aos oficiais da Polícia o que eles defendem em Moçambique, acrescentando que o destacamento faz parte da visão do Ruanda para apoiar outros países afectados pela insegurança. “Vocês vão para a região para enfrentar a insegurança causada por extremistas e país (Moçambique) acredita em vocês. Esta é a direcção do governo do Ruanda para ajudar outros países necessitados sempre que formos chamados a estender nossa assistência”, disse Namuhoranye, acrescentando: “Continuem a ser profissionais, estejam sempre de alerta e lembrem-se de que estão a usar uma bandeira do Ruanda.”

Por seu turno, o porta-voz da Polícia, John Bosco Kabera, disse no mesmo sábado, no aeroporto, que as tarefas do contingente policial estão claras. “Vamos cooperar com a polícia local no combate ao terrorismo em todas as nossas áreas de operação. Em segundo lugar e mais importante, temos de garantir a protecção dos civis ao lado da força policial moçambicana. Em terceiro, temos de garantir o retorno à normalidade e ajudar a força policial do país em iniciativas de capacitação, como treinamento”, disse Kabera.

No entanto, o porta-voz do ministério da Defesa do Ruanda, o coronel Ronald Rwivanga, reiterou que os militares e agentes da polícia ruandeses, chefiados pelo General Innocent Kabandana, vão trabalhar em estreita colaboração com as Forças Armadas de Defesa de Moçambique (FADM) e as forças da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC).

 SADC à reboque…

Apesar de a SADC ter sido apelada para intervenção em Cabo Delgado, mas devido à suam morosidade característica, aguarda-se pela chegada do primeiro contingente nesta quinta-feira, 15 de Julho, enciumada com a prontidão do Ruanda, na sua abordagem e resposta bilateral. Como que a dissipar equivocos por uma alegada “zanga” da SADC por o Ruanda ter desembarcado primeiro, o ministro moçambicano da Defesa, Jaime Neto, esclareceu que o destacamento de tropas para Cabo Delgado está articulado dentro da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC), depois de a África do Sul lamentar a chegada em primeiro lugar de forças ruandesas.

“A nível de militares da SADC há um planeamento operacional combinado e, naturalmente” o mesmo tipo de planeamento “bilateral pode ser mais flexível. É isso que está a acontecer neste momento com o Ruanda”, disse, para justificar a chegada a Moçambique “muito antes da SADC”.

Segundo confirmou, tropas ruandesas começaram a chegar por via aérea ao aeroporto de Nacala, na província de Nampula, na sexta-feira, enquanto a chegada de uma força de países da África Austral deve acontecer nesta quinta-feira.

“Em relação à SADC há datas fixadas durante a cimeira”, realizada no final de Junho, em Maputo, “datas que estão a ser cumpridas”.

A este propósito, o ministro avançou que um grupo de quatro oficiais do Botswana chegou no sábado a Pemba, capital provincial de Cabo Delgado, para começar a preparar os locais de instalação das tropas e outros detalhes logísticos.

Jaime Neto frisou que “as relações entre Moçambique e a SADC estão a atravessar o melhor momento” assim como “as relações com a África do Sul”, dizendo que pode ter havido “problemas de comunicação que resultam de interpretações que suscitam algumas dúvidas” – prometendo passar a dar mais informação para evitar “equívocos”.

Ainda no contexto de dissipar equívocos, o governante explicou que na mesma cimeira em que foi aprovada a intervenção de forças da SADC em Cabo Delgado, ficou definido que Moçambique “também era livre de contactar algum país irmão africano”, ajuntando que o Ruanda teve um “contacto formal da SADC para poder intervir militarmente aqui em Moçambique”, acrescentou.

Cabo Delgado é vítima desde 2017 de ataques terroristas, parte dos quais reclamados pelo grupo Estado Islâmico, tendo feito mais 2.800 mortos, 732 mil deslocados e causados avultados danos económicos e sociais.

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