Preto & Branco

Desta vez foram águas residuais

Não é um fenómeno incomum resíduos sólidos pararem em valas de saneamento urbano, bloqueando-as. Podemos indicar várias causas, desde a deposição intencional a várias razões incidentais envolvendo a acção do vento, a água da chuva, que pode arrastar os resíduos para a vala, crianças brincando com objectos ou o simples facto de tais objectos caírem lá e as pessoas não terem a coragem ou vontade de retirá-los. Em qualquer caso, o impacto é o mesmo: a vala sofre redução ou perde a capacidade de escoar água, acumulando-a e aumentando a probabilidade de constituir um meio de transmissão de doenças como a malária e a cólera. Nesta época atípica, em que COVID-19 ameaça a nossa saúde pública, todo o cuidado de higiene é necessário e a gestão correcta de resíduos é fundamental.

A iniciativa ProEduca do ISCED juntou forças com outras organizações – Movimento Solidário de Moçambique, Associação Visão Ampla, Associação para o Desenvolvimento da Sociedade, e Associação Kuvesserana – para mais um passo no cumprimento da sua missão: garantir a salubridade da cidade da Beira. A actividade não foi difícil, levou apenas algumas horas da manhã e nem envolveu um número tão grande de pessoas, mas os resultados foram quase imediatos. Com recurso a algumas pás, um pequeno número de ancinhos e sacos de 50 litros, foi possível garantir que uma vala voltasse a funcionar em plenitude, pois assistimos um escoamento imediato das águas no local. Não há dúvidas que o envolvimento de mais pessoas, empresas e organizações vai aumentar os benefícios exponencialmente e inspirar mais pessoas a se engajarem em acções que visam garantir maior higiene da nossa urbe.

A grande relevância desta actividade reside no foco em águas residuais. É comum organizar-se campanhas para a limpeza de resíduos “visíveis” tal como garrafas e latas em praias ou nas estradas porque este compromete a estética da cidade. Entretanto, os resíduos “escondidos” na profundeza ou turbidez de uma vala não cria ruído na paisagem urbana, mas pode ser o mais prejudicial para a saúde porque serve de nutriente para bactérias, amebas, parasitas e insectos, além de potencialmente inutilizar a vala. A decomposição destes resíduos pode contribuir para a disseminação de cheiros nauseabundos e doenças diarreicas ao contaminarem os mananciais. Por exemplo, quando valas entupidas, expostas a chuvas torrenciais, transbordam e libertam a água pelas estradas, elas podem afectar crianças que brincam descalças ou qualquer um que entre em contacto directo com esta água.

O primeiro apelo vai ao cidadão, para que evite deitar os resíduos nas ruas e nas valas. A longo prazo, o acúmulo de resíduos não deve ser subestimado. Na experiência da iniciativa ProEduca e parceiros, até pequenas porções da vala tinham quantidade indescritível de resíduos e de todo tipo, desde trapos, garrafas PET e de vidro, folhas e ramos de árvores, cascas de frutos, chinelos, metais e muito mais. O material biodegradável eventualmente pode desaparecer, mas objectos de plástico ou borracha, se travados por pedras, lodo e outros elementos amovíveis, podem eventualmente bloquear e inutilizar as valas. Considerando a densidade da população urbana e dos subúrbios, é muito fácil ocorrerem surtos de doenças propagadas pela água ou higiene inadequada. Por isso exorta-se ao citadino que deite os resíduos de forma responsável nos locais apropriados.

A sociedade civil está convidada a unir esforços em iniciativas que permitam tornar a Beira uma cidade mais limpa, saudável e convidativa. Não há qualquer benefício em ficar de braços cruzados e ver a qualidade do saneamento a agravar-se ou em ver os resíduos a acumular-se nas ruas e valas, nem de reclamar nas redes sociais ou em “conversas de bar” sobre o quão suja ou degradada está a cidade. Não nos esqueçamos que a Beira foi alvo de fortes calamidades naturais em pouco tempo, sempre se reerguendo como a fénix e se readaptando a novas realidades. Está na hora de fazermos algo pela cidade. Tal como as mudanças climáticas alcançam os países de forma global, o agir consciente a nível local também tem seus efeitos globais. A hora é agora!

 

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