Preto & Branco

Carta aberta pressiona governo alemão

Caso “Madjermanes” ganha novos contornos

  • Houve cumplicidade no desvio de dinheiro

Carta reivindicativa, subscrita por mais de 100 académicos e intelectuais de várias partes do mundo, foi entregue ao governo alemão, esta semana, exigindo a reposição da justiça no pagamento de indemnizações e valores descontados aos ex-trabalhadores moçambicanos na ex-RDA, vulgo “madjermanes”. Consta que os valores foram descontados e processados na Alemanha, não foram canalizados para Moçambique, mas desviados para pagar dívidas que o governo moçambicano contraira junto ao governo germânico.

Em carta aberta entregue ao governo da Alemanha os subscritores relatam o drama dos ex-trabalhadores moçambicanos da Alemanha Oriental e apelam ao Governo alemão para responder a questões éticas e humanas, frisando-se que “não se trata apenas do dinheiro”.

Entre os subscritores da missiva ao governo germânico, consta o académico e sociólogo moçambicano Elísio Macamo, da Universidade de Basileia, na Suíça, que considera que “esta carta está a levantar uma questão moral, que tem a ver com o relacionamento entre a RDA e Moçambique”, explicando que o pagamento que a priori deveria ser enviado para Moçambique aos trabalhadores regressados não saiu da Alemanha. “Houve uma operação fictícia, que os Bancos Centrais faziam, que consistia em transferir o dinheiro para Moçambique, mas, ao mesmo tempo, o dinheiro era devolvido para o serviço da dívida que Moçambique tinha contraído, pois houve vários investimentos que foram feitos pelo país com a ajuda da Alemanha do Leste”, explicou o modus operandi para o desvio do dinheiro destinado aos madjermanes.

Em jeito de juízo, o analista moçambicano de palmaré internacional refere que “os acordos que foram feitos naquela altura, sobretudo os acordos que tinham a ver com a liquidação das dívidas moçambicanas, foram injustos, não deveriam ter sido feitos daquela maneira”. Ajuntando, de seguida, que  “o Governo alemão deve assumir responsabilidade por isso. É esse o apelo moral que está a ser feito e acho que é justo, mas ele não implica necessariamente que o Estado alemão não tenha feito muito do que era necessário fazer. Ele fez”, ressalva.

Em carta aberta ao governo alemão, subscrita por académicos de varias nacionalidades adstritos aos centros de estudos na Europa, nos Estados Unidos, em Israel e no Egipto, pede-se que Berlim reconheça as reivindicações dos cerca de 20 mil ex-trabalhadores da antiga República Democrática Alemã (RDA), conhecidos por “madgermanes”.

Estes trabalhadores tiveram de regressar da noite para o dia a Moçambique depois da queda do Muro de Berlim, em 1989 – isso depois de terem trabalhado durante uma década na Alemanha Oriental, que tinha acordos com Moçambique.

De lá para cá, houve muita luta dos “madgermanes” pelos seus direitos, mas nunca houve uma resposta cabal por parte das autoridades alemãs e moçambicanas, senão algumas ofertas cirúrgicas.

Na verdade, os ex-trabalhadores moçambicanos exigem reformas e compensações nunca recebidas e regularmente marcham pelas artérias da capital do país, sendo que parte considerável dos mesmos perderam a vida, são idosos outros doentes, sem garantia de assistência médica.

Mas, mais do que dinheiro, a carta da comunidade académica em alusão expõe também o racismo e a desigualdade de género pelos quais muitos passaram na antiga Alemanha Oriental.

Isabel Enzenbach, da Universidade Técnica de Berlim, citada pela DW África estuda a imigração na época da RDA e é uma das responsáveis pelo documento. Em entrevista à DW, a investigadora disse que, “definitivamente”, os temas de preconceito são exigências que o Governo alemão deve tratar. Não se trata apenas de dinheiro e é importante que os seus esforços de trabalho sejam reconhecidos. Eles vieram para a RDA para apoiar o seu país, Moçambique, e agora não são considerados muito bem, pelo que a dimensão simbólica não deve ser subestimada, é uma parte importante”, afirmou a investigadora alemã.

Sobre as reais intenções do Governo moçambicano ao usar o dinheiro dos madjermanes para pagar suas dívidas contraídas junto do Governo alemão, o académico moçambicanos e um dos mais interventivos intelectuais na diáspora explica que, “a esperança que o nosso Governo tinha era que havia de ter capacidade financeira para que, quando os moçambicanos regressassem, eles fossem pagos”, explicou, mas parece que a bala saiu-lhe pela culatra.

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