Preto & Branco

Meio século depois e sob efeitos do “Idai” na Beira

Casa da Cultura pede resgate

  • Erguida pelas mãos de beirenses, actualmente entregue à sua sorte

 A Casa da Cultura da província de Sofala, sedeada na Beira, constitui uma referência no panorama cultural moçambicano, com o pormenor de ter sido erguida por residentes da Beira, na década de 60 e ter contando na sua progressão com apoios e profissionais estrangeiros que deixaram um legado que a mantém como uma referência cultural. Porém, não escapou aos desmandos do ciclone Idai, que destruiu parte das suas infraestruturas que ainda se mostravam imponentes com os seus mais de 50 anos de existência, mas também sem grande apoio do Governo. Para conhecer um pouco da história desta casa de cultura, sua vocação e desafios, sobretudo para ressuscitá-la dos efeitos do Idai e resgatar a sua vitalidade, tivemos uma entrevista com o coordenador provincial da mesma, Domingos Zacarias, que também nos partilhou o seu dom artístico que despontou em tenra idade e com inspiração familiar, numa comunidade do distrito de Angónia, na província de Tete. Siga os excertos da entrevista concedida.

Jornal Preto & Branco (JP&B) – A Casa da Cultura que dirige parece ter uma história peculiar, como surge e se manifesta?

Domingos Zacarias (DZ) – A Casa Provincial da Cultura, com sede aqui na Beira, é uma instituição pública que vem servindo a província e ao país há 53 anos, foi inaugurada em 1967, visando dar ensino artístico.

Foi construída por beirenses interessados com a cultura, maioritariamente por empresários locais com intuito de dar formação artística aos seus filhos, isto deu-se no tempo colonial. A construção durou cerca de seis anos, daí começou o ensino artístico, cuja maioria dos professores eram estrangeiros, com destaque para portugueses e italianos.

Com a Independência Nacional os artistas tomaram de assalto a casa e surgiram vários grupos culturais. Como referência temos o grupo Polivalente de Sofala, que se formou em 1975, que representou a província dentro e fora do país, este grupo levou um movimento de pesquisas de dança nos distritos para formar o repertório que faria parte desse grupo. Depois sugiram grupos teatrais, canto coral,… nessa altura já haviam professores nacionais, alguns foram formados em Maputo na ECA [Escola de Comunicação e Artes da Universidade Eduardo Mondlane). Mas, para preencher vagas deixadas pelos estrangeiros aquando da independência nacional, até 1984 já tínhamos professores de música e artes plásticas formados localmente.

Contudo, o movimento na Casa da Cultura foi assinalável após os Acordo Geral da Paz (AGP) em 1992, pois, a partir dessa altura o país estava com livre circulação e surgiram manifestação de interesse de colaboração e cooperação de países como Suécia, Noruega e Dinamarca, concederam apoio substancial, tais como material informático e alguns com valores monetários para poder impulsionar as artes, em abono da verdade esta casa nunca viveu de fundos do Estado.

(JP&B) – Então, o AGP impulsionou a acção cultural em Sofala, em particular na Beira…

(DZ) – Sim, vários grupos culturais foram criados, na música, dança e teatro, tais como o grupo teatral Meia Preta, mas antes houve o Grupo Aruângua, estamos a falar de um grupo de teatro que fez furor aqui na Beira, o Grupo Ndzidzi Wa Mapungo que usava a língua Sena [uma das línguas vernáculas locais] e outros…

Houve também grupos de dança, tais como grupo Aurora Entretinimento, grupo Kwaedja e Companhia de Canto e Dança, que agora chama-se companhia de Bailado do Chiveve, só para ver as modificações.

Houve também movimentos na Culinária porque já havia apoios para formação da mulher, Corte e Costura, tudo isso estava a acontecer na Casa da cultura de forma muito impetuosa. Inclusive, com a cooperação de países do “velho” continente foi possível a produção de um disco e que a sua estreia foi na Dinamarca. Mas, os tempos mudaram …

 “Precisamos refazer a casa…”

 (JP&B) – Neste momento qual é a agenda cultural da Casa da Cultura?

(DZ) – A agenda cultural actual é impulsionar o mesmo que fazíamos, nota que nesta altura continuamos mas em miniatura, esta casa não foi excepção nos efeitos do ciclone Idai. Ficamos completamente prejudicados, os locais de ensino da dança, teatro, artes plásticas foram fortemente afectados pelo Idai, o aspecto exterior da casa dá para degustar, mas o interior está um caos. Precisamos de refazer a casa…

(JP&B) – Que desafios do momento? Com que apoios contam?

(DZ) – A reabilitação que tivemos no que toca a cobertura e iluminação da infiltração foi através do Governo, que pediu apoio a parceiros e o único só tinha fundos para olhar a cobertura e infiltração.

Neste momento o desafio maior é encontrar um parceiro que pode reabilitar toda a casa, pois, a reabilitação foi parcial e gostávamos de ter toda casa reabilitada, seria muito bom para voltar a operacionalidade anterior e termos mais assistência oficial para a nossa utilidade pública. Precisamos reforçar o apetrechamento e resgatar a vitalidade do passado.

(JP&B) – Como está a massificação cultural a nível de toda a província de Sofala?

(DZ) – A Casa da Cultura provincial é única, mas também há casas culturais em alguns distritos, como a Casa Cultural no Buzi, temos um Centro Cultural em Marromeu, temos uma Casa da Cultura em Marrínguè, temos uma Casa Cultural em Caia, estes locais todos fazem um pouco destas formações artísticas.

(JP&B) – E o efeito da Covid-19?

(DZ) – A Covid-19 constitui uma enorme barreira, nota que alguns grupos de teatro têm encontrado algumas formas para dar continuidade do seu trabalho, por via das plataformas digitais, mas também um ou dois. Para os grupos de dança, que comportam um número elevado de pessoas deixaram de fazer o ensaio normal e estamos ressentidos, pelo que não é possível nenhuma apresentação neste momento, estamos reféns da pandemia, já imaginou dançar mascarado? Ė difícil dançar e fazer movimentos sem a plena respiração.

Também é preciso perceber que a fonte de matéria-prima para dança são as escolas e o longo tempo sem o curso normal das aulas comprometeu a nossa agenda, só podiam estar aqui alunos que os encarregados estivessem interessados, mas com confinamento tudo ficou parado.

Mas, por outro lado, as aulas de música continuam, nunca pararam, cada qual com o seu instrumento e distanciamento físico observado, também as artes visuais.

Um bailarino forjado na infância e no seio familiar

 (JP&B) – Consta-nos que é encenador de teatro e instrutor de dança tradicional. Pode partilhar-nos essa experiencia?

(DZ) – Do que me lembro, na minha aldeia em Angónia, aos oito anos de idade, havia uma brincadeira característica nas noites de luar, saímos de casa a correr para aqui e para acolá e, havia pessoas que voltavam do exterior, do Malawi e da Zâmbia, traziam “Sten Bass”, uma dança da música produzida através de um tambor, à semelhança a de Xigubo, e coloca-se uma peça que sustenta um fio no meio e, tocava-se por um pau e ao seu ritmo dançávamos a noite.

No Governo de Transição [transferência do poder colonial] na escola era chefe de alunos e tivemos uma actividade cultural na escola. Foi um grupo que apresentou-se pela primeira vez no dia da Independência nacional [25 de Junho de 1975]. Fui eu que tive de subir ao palco, o meu grupo dançou também, penso que foi dai que o bicho foi pegando.

Devo confessar que o meu avô foi bom dançarino de Ngoma, o meu pai cantava e dançava muito bem, na missão fiz parte do grupo polivalente, fui selecionado para ir à Cuba e em todos locais de onde passei fiz parte de grupos polivalentes, em Tete e aqui na Beira, fui aprendendo em eventos com colegas, oriundos do norte, centro e sul do país.

Não fui a nenhuma escola para aprender a dançar, mais sim pela prática. Tive uma formação em 2009 mas já ensaiava grupos, montar um bailado ou montar uma nova dança para mim é muito natural.

(JP&B) – Qual tem sido a afluência dos mais novos nas práticas culturais?

(DZ) – Quando há um movimento cultural e pedimos para as crianças virem aprender, a casa ficava muito cheia, mas agora estamos parados, as crianças gostam muito de dançar.

Nestas alturas talvez a carga horária na escola venha a pressionar demais para não virem praticar. Também com o custo de vida, falta de dinheiro de transporte,… não está fácil, ademais não é aconselhável a movimentação de crianças neste período da pandemia.

(JP&B) – Como vê a valorização das manifestações culturais?

(DZ) – Tem sido apanágio considerar que a cultura é só para entreter as pessoas, a dança e o teatro, por exemplo, não são colocados no mesmo patamar com a música. A dança e o teatro retratam o dia-a-dia das pessoas, os movimentos em palco comunicam, transmitem mensagem, pelo que tem um significado, o mesmo acontece no teatro apesar deste último estar a conquistar o seu espaço.

(JP&B) – Qual é a relação entre a cultura e o povo?

(DZ) – A cultura é a marca de um povo, reflecte a tradição daquela comunidade, por exemplo, o povo que não tem sua dança no seu dia-a-dia significa que o tal povo não existe. Este movimento vem desde o início da natureza, em que o homem imita o salto de um animal, o comportamento de outros seres à volta, o malabarismo de uma ave para dar forma aos braços, para compor uma frase de dança. Veja que nas comunidades a dança existe na sua forma natural e a levamos do povo para o palco, colocando um e outro elemento para torná-la mais comercial. Nós trabalhamos um pouco para dar o seu valor e se pudéssemos ter desta dança comercial o devido retorno seria muito fácil para retornar para a comunidade e dizermos: o que nos deram ganhamos isto, valorizar as origens.

(JP&B) – Últimas Considerações

(DZ) – A Casa da Cultura está aberta para a comunidade apesar de não estar em pleno funcionamento devido a pandemia, mas para alguns cursos tem havido uma excepção. Temos para oferecer cursos de música, teatro e culinária.

Adicionar comentário

Leave a Reply