Preto & Branco

Um desafio para enfrentar desmandos ambientais do ciclone Idai

“Beira Verde” no encalço de 4 mil árvores

  • Tânia Pereira, líder do movimento, diz que o sonho colectivo é “uma cidade verde, com jardins abundantes, (…) tornando a nossa urbe mais saudável e protegida das intempéries ambientais.”

 De uma iniciativa circunstancial para celebrar o primeiro ano do ciclone Idai – que assolou fortemente a cidade da Beira – com um gesto simbólico de plantio de árvores, uma mulher aguerrida e natural da Beira, fez surgir um movimento denominado “Beira Verde”. Na sua iniciação em 2020 conseguiu fazer o plantio de mais de mil árvores em substituição das derrubadas pelo ciclone, com apoio de empresas públicas e privadas que apadrinhavam as ruas e avenidas mapeadas. Daí, este movimento, que conta com cerca de 50 membros e envolvimento popular, assumiu como desafio repor o maior número de árvores possível dentro da cidade da Beira e arredores. Neste 2021, com as restrições impostas pela Covid-19, o modelo é “adopte uma árvore” para evitar aglomerações e valorizar o envolvimento individual, prevendo plantar 3 mil árvores. Sobre a ambição do projecto a longo prazo registamos: “No projecto partilhamos sonhos e esforços comuns. ‘Beira Verde’ como entidade colectiva sonha com uma cidade verde, com jardins abundantes, árvores de sombra e de fruta em grande escala, tornando a nossa urbe mais saudável e protegida das intempéries ambientais”, são palavras da impulsionadora e líder do movimento, Tânia Pereira. Siga os excertos da entrevista concedida ao nosso jornal.

Jornal Preto & Branco (JP&B) – Quem é Tânia Pereira?

Tânia Pereira (TP) – Tânia Pereira é uma moçambicana, mãe, esposa e funcionária pública, motivada e interessada na manutenção do meio ambiente da cidade e do mundo e, para tal, ocupa os tempos livres em actividades do bem comum.

 (JP&B) – Neste momento lidera um movimento da sociedade civil na Beira preocupado com o meio ambiente. Quais são os objectivos, missão e visão desta organização?

(TP) – Os integrantes do “Movimento Beira Verde” são todos motivados por tornar a cidade da Beira e arredores verde. Este movimento surgiu tendo em conta a devastação causada pelo ciclone Idai que se reflectiu na perda de milhares de árvores, tendo juntado várias pessoas de boa vontade e conscientes da importância que a reposição de árvores tem para a cidade, juntando esforços e a desenvolverem sinergias para dar início ao Projecto. Resumindo, o movimento pretende repor o maior número de árvores possível dentro da cidade da Beira e arredores.

 A CAMINHO DE 4 MIL ÁRVORES

 (JP&B) – Quando surgiu esta iniciativa, quantos membros constituem esta agremiação e que actividades já realizou até então e aonde?

(TP) – O “Movimento Beira Verde” surgiu em Dezembro de 2019, ainda tínhamos a cidade destruída pelo ciclone. Nessa altura, o Nelson Moda, representa da Santo Egídio lança-me o desafio de plantarmos árvores para marcar o primeiro ano do Idai. Na altura não se falou de mais nada mas achei a ideia genial e com consciência do empenho que iria requerer para a concretização da iniciativa. Na circunstância não fazia ideia do impacto nem da aderência do público. Iniciamos com reuniões, busca de apoios, desenhos e mapeamentos. Juntou-se a Maria Pinto de Sá da Casa do Artista, a One Vision e depois muito mais pessoas e instituições também aderiram ao projecto. Actualmente, contamos com aproximadamente 50 membros. Em 2020 foram mapeadas 9 avenidas e ruas e plantadas acima de mil árvores. O modelo criado na altura foi de apadrinhamento das ruas pelas empresas como a Cornelder de Moçambique, a Tmcel, INCM, CPMZ, FortiSeguro, Vita, Emodraga, UCM, Unizambeze, CDA, Levasflor, Dominó, que depois iriam fazer o trabalho de manutenção das referidas árvores. Conseguimos um índice de sobrevivência de 60%. Graças a esse modelo. Este ano e aliado ao novo normal havia uma preocupação em dar continuidade ao projecto e, com ajuda de um amigo, criou-se o actual modelo: “ADOPTE UMA ÁRVORE”. Um modelo diferente onde não houvesse necessidade de grandes investimentos e que também não criasse aglomerações. Assim qualquer pessoa da sociedade poderia adoptar uma árvore e cuidar dela. Actualmente a nossa meta até Abril é de 3222 árvores.

(JP&B) – Quem apoia e financia esta iniciativa?

(TP) – Esta iniciativa é apoiada pelos próprios membros do movimento, em primeira instância, que para além do seu tempo e dedicação também contribuem com algumas doações monetárias quando são necessárias. O maior apoiante desta iniciativa, entretanto é o próprio povo beirense que cuida e acarinha todas as árvores plantadas e sonha connosco. Empresas como Cornelder de Moçambique, CFM Centro, CPMZ, Tmcel, Fortiseguro Segurança Lda, Levasflor, CDA, Vita, INCM, Emodraga, Dominó, Unizambeze, UCM, Mozaprint, Diário de Moçambique, Radio Mega FM, Radio Cidade, Uzeir, EDN, TCM, PJB, David Melar Arquitectos e Entidades como o Conselho Municipal da Beira, Esposo da Secretaria de Estado da Província de Sofala, a Casa do Artista, O Gabinete de Reconstrução Pós-ciclone Idai, a One Vision nunca pouparam esforços para levar “Beira Verde” avante.

 (JP&B) – A equidade de género é um caso novo em Moçambique. É mulher e lidera uma nobre iniciativa ambiental na segunda cidade do País e mais assolada pelos ciclones nos últimos três anos. Quer comentar?

(TP) – A cidade da Beira após os ciclones precisa de homens e mulheres para reerguer-se e a problemática de género e sua equidade e igualdade não resolve os problemas ambientais. O cerne da resolução do fenómeno passa da vontade de fazer algo e o forte sentido de pertença da urbe. O debate de género e útil, mas muitas vezes faz nos perder o foco. Em crises como a ambiental contam atitudes emergentes independentemente do género proponente. Como mulher e como cidadã sinto-me feliz em contribuir para o bem-estar da minha cidade. Realçar que dentro do movimento temos muitas mulheres fortes que dão suporte e permitem que esta iniciativa logre sucessos.

 ENVOLVIMENTO DE FIGURAS POLÍTICAS ARRASTA MASSAS…

 (JP&B) – Que tipo de apoio tem tido a nível do governo local?

(TP) – A nível dos Governos municipal, distrital e provincial tivemos sempre a sua presença encorajadora desde o primeiro instante. Estiveram sempre disponíveis para colaborar connosco, entanto que temos árvores plantadas pelos membros do Governo a todos os níveis. Este envolvimento das figuras políticas arrasta massas e torna o movimento mais consistente, dão importância e reencontram-se nos nossos propósitos.

 (JP&B – Qual é o seu sonho no âmbito do projecto?

(TP) – No projecto partilhamos sonhos e esforços comuns. “Beira Verde” como entidade colectiva sonha com uma cidade verde, com jardins abundantes, árvores de sombra e de fruta em grande escala, tornando a nossa urbe mais saudável e protegida das intempéries ambientais. Sonhamos todos juntos por uma “Beira Verde”.

(JP&B) – Quer deixar qualquer consideração para os leitores deste jornal e o público em geral?

(TP) – Aos leitores e ao público em geral convido-os a acreditarem e a sonharem com uma Beira mais verde. A nossa cidade depende de nós e a problemática do meio ambiente transcende das entidades políticas e governamentais. Sejamos cada um de nós a fazer a sua parte para que a nossa e as próximas gerações possam usufruir de um ambiente saudável. Apelar que continuem a apoiar e a acarinhar esta iniciativa regando e cuidando todas as árvores que puderem.

 

Adicionar comentário

Leave a Reply