Preto & Branco

Ao longo da costa na cidade da Beira

Construção de restaurantes é uma violação

  • Considera a académica e ambientalista Teresa Rungo

A situação de erosão costeira e do saneamento do meio que enferma a cidade portuária da Beira tira sono à coordenadora do curso de licenciatura em Gestão Ambiental no Instituto Superior de Ciências e Educação à Distancia (ISCED) e do projecto de Educação Ambiental (ProEduca), Teresa Rungo. Esta académica e ambientalista considera que o bom saneamento do meio passa por uma gestão tipificada e reutilização de resíduos sólidos, começando por uma consciencialização e instrução da população local, sendo que para a contenção da erosão costeira sugere a adopção de medidas mais robustas e considera que algumas actividades deviam ser interditas ao longo da costa, porque prejudicam o sistema eco costeiro. Por exemplo, assevera que” a construção de restaurantes ao longo da costa é uma violação à conservação” da mesma. Acompanhe os excertos da entrevista gentilmente concedida em exclusivo para o jornal Preto & Branco.

 Jornal Preto & Branco (JP&B) – Dra., a cidade da Beira está permanentemente ameaçada pela fúria das águas do mar, como fazer face a esta situação?

Teresa Rungo (TR) – Hoje a cidade da Beira encontra-se exposta aos eventos naturais devido a retirada de vários elementos e não despõe da protecção resiliente. A actual proteção não é capaz de resistir à fúria das águas e está cada vez mais exposta às mudanças climáticas. A própria localização geográfica da cidade da Beira já constitui um risco, pelo que temos factores naturais e humanos. Recentemente, a população foi autorizada para tirar areia da costa para proteger e reforçar os tectos aquando da passagem do ciclone “Eloíse”. Nota que a população aproveitou-se desta situação para acomodar outros fins, se andar pelos bairros ao longo da costa pode ver na íntegra, pelo que são vários os elementos que contribuem para esta vulnerabilidade.

A erosão costeira na cidade da Beira está a um nível acelerado, pelo que a medida de proteção suave já não pode causar nenhum efeito, há necessidade de um outro olhar, no sentido de encontrar medidas de maior envergadura, precisa de uma intervenção mais profunda.

Ia propor o reflorestamento da costa, da praia Nova ao rio Maria, mas já não temos vegetação, o mangal, devia haver o plantio de pinheiro como forma de resiliência das próprias dunas e consequentemente a multiplicação das espécies marinhas.

Também podíamos implementar outras tecnologias que fosse resiliente com consistência para impedir a invasão das águas do mar para o continente, podíamos construir diques, incremento da construção de pequenos esporões de pedra porque já existem algumas construções de género e uso de geotêxtil preenchido de área.

(JP&B) – Qual é a relação entre meio ambiente, poluição e saúde?

(TR) – Existe uma relação directa entre meio ambiente, poluição e saúde. O meio ambiente é o ar que respiramos, tudo que nos rodeia; a poluição é o efeito dos seres humanos, a pratica diária das nossas actividades, em muitos casos, feri a saúde, é o caso do crescimento da população automóvel, crescimento da produção industrial e reduzimos significativamente o plantio de árvores; e, quanto a saúde, se nós temos um ambiente poluído, degradado, significa que a nossa qualidade de vida vai reduzir consideravelmente, se uma praia tem uma situação de poluição obviamente mina a saúde dos banhistas.

A cidade da Beira tem sérios problemas de saneamento do meio, que tem um impacto directo na saúde humana, é o caso da cólera que tem sido uma constante nos bairros, a falta de limpeza nos bairros acelera a multiplicação de mosquitos e consequentemente provoca a malária.

O ciclo de contaminação no meio rural

 (JP&B) – No contexto rural, que desafios para minimizar a violação ambiental?

(TR) – As zonas rurais têm um lado bom na conservação do meio ambiente, se calhar por falta de conhecimento científico, sem querer negligenciar o conhecimento empírico que as comunidades têm com o seu meio, são tabus ou proibições que gerem as comunidades mas não descartamos algumas práticas que influenciam a erosão. Por exemplo, quando as comunidades praticam a agricultura nas margens dos rios, os resíduos que depositamos nos rios são de várias formas. Em vários momentos a exploração mineira artesanal tem tido lugar ao longo dos rios, por exemplo, a lavagem destes minérios, que são altamente tóxicos, com elevadas quantidades de mercúrio, isto pode-se notar com a turvação das águas em locais de lavagem.

Tem sido nos mesmos rios em que a população tira água para beber, praticar a pesca,… só para ter a ideia da rede de contaminação, vai se contaminar ao beber, ao consumir o peixe pescado no mesmo local.

(JP&B) – Dra. neste momento as mudanças climáticas globais são uma realidade. Até que ponto este fenómeno deve preocupar Moçambique?

(TR) – Falar de mudanças climáticas globais, não exclui nenhum país, são mudanças do clima ao longo de vários anos, até no século passado falava-se que a terra ia aumentar 2 graus centigrados de aquecimento, significa que hoje ressentimo-nos de isso. O caso de ciclones que afectam Moçambique tiveram origem em outros países. Os países devem investir na investigação. A deposição final de resíduos deve implicar que antes deve haver um processo selectivo do lixo, de categorizar cada um, o que significa que não é qualquer lixo que deve ir a uma lixeira comum.

(JP&B) – Há quem diga que em Mocambique não existe lixeiras, mas sim possíveis destinos de lixo, onde catadores tem acesso a todo tipo de lixo…

(TR) – As lixeiras deviam ter uma vedação e impedir o acesso a pessoas comuns, devíamos ter aterros sanitários o que na maioria das cidades nacionais não têm, catadores de lixo não deviam ter acesso ao lixo.

É preciso mapear as zonas de maior produção de lixo

 (JP&B) – O município tem tirado areia do desaguador para o mar e mais tarde amontoada, transportada em viaturas de grande tonelagem. Segundo apuramos, para obras do município. Dra,. na sua opinião, esta não é uma forma para acelerar a erosão costeira?

(TR) – Um desaguador deve ser feito a limpeza quase sempre para permitir o escoamento das águas do continente para o mar. Na minha opinião a areia tirada deste local poderia ser usada para repovoar outras zonas ao longo da costa que necessitam, à semelhança das zonas baixas, para ser aproximadas às zonas altas, agindo assim, estaríamos a contribuir para aliviar a erosão.

(JP&B) – Últimas considerações e recomendações para a sociedade e governo local.

(TR) – No âmbito da gestão dos resíduos sólidos os munícipes têm muito por contribuir, fazendo a coleta selectiva em casa. Em vez de depositar todo lixo, podia reutilizar uma boa parte, se tem muitas garrafas em casa pode reutilizar na construção de uma vedação. É importante depositar correctamente o lixo. Temos assistido munícipes depositando lixo nas valas de drenagem que em épocas chuvosas impede o curso normal das águas pluviais para acomodar as inundações a nível dos bairros, pelo que é urgente a consciencialização do cidadão: temos de reduzir o lixo por depositar, reutilizando e reciclando cada vez mais e depositar o lixo em locais adequados.

Quanto à erosão costeira, importa lembrar a importância de investir na produção científica, a comunidade académica pode apresentar várias propostas razoáveis ao nível do município.

Algumas actividades deviam ser interditas ao longo da costa, as que podem prejudicar o sistema eco costeiro. A construção de restaurantes ao longo da costa é uma violação à conservação da costa e se estão la é porque foram autorizadas por uma entidade.

O meio ambiente da cidade da Beira devia ser a preocupação de todos, um eco sistema saudável. O Município devia trabalhar com os bairros para mapear as maiores zonas de produção de lixo para estimular a recolha, porque se não conhecemos a realidade de produção de resíduos da nossa cidade dificilmente podemos chegar a um bom Porto.

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