Preto & Branco

Sobre apoio aos iniciantes nas artes

“O animal tem muito por nos ensinar”

  • Considera a escritora e docente, Solange Macie

  Nesta edição trazemos uma conversa com a escritora Solange Maria José Macie, mais conhecida por Sol Macie nos meandros literários e na cidade da Beira onde reside. No encontro a que tivemos, esta escritora que é formada em linguística pela Universidade Eduardo Mondlane(UEM) e docente de Ciências de Comunicação, fala-nos da sua infância, sua estreia nas lides literárias e sobre o seu ponto de vista em relação às diversas situações sociais e culturais que configuram o pais e a Beira, em particular. E sobre a crítica construtiva e apoio aos iniciantes diz que os animais tem muito a nos ensinar. Siga os excertos da entrevista concedida ao jornal Preto & Branco.

 

Jornal Preto & Branco (JP&B) – Quem é a Solange Maria José Macie, ou simplesmente Sol Macie? E fale-nos da sua infância…

Sol Macie (SM) – É uma moça que nasceu e cresceu na cidade da Beira, filha de um casal de pais que são antigos combatentes. Meu pai nasceu em Gaza e minha mãe em Sofala, distrito de Chemba. Fui criada a semelhança de qualquer menina, mas na década de 1995 o meu pai faleceu e dai em diante tive que “despertar”. O meu pai não nos deixava sair de casa à rua, tinha certa proteção e naquela altura, concretamente em 1991 quando comecei a frequentar a escola primária tinha medo de pessoas que não fossem da minha família, mas superei e comecei a relacionar-me bem.

Quando frequentei a 5ª classe aí comecei a conhecer pessoas e a estabelecer uma relação interpessoal mais forte, pós estava no início da minha adolescência com muitos porquês na minha cabeça: “Porquê a morte do meu pai, “porque agora?”, então, tinha vários “porquês”.

A minha mãe foi trabalhadora da antiga COGRAPA e foi indemnizada em 1994 e em 1995 morreu o meu pai, nessa altura a minha mãe teve que jogar ambos papéis, de mãe e pai para garantir a vida dos adolescentes que um dos quais era eu.

 

(JP&B) – Quando nasce ou desperta o “bicho” da escrita?

(SM) – Só me lembro que com sofrimento da perda do meu pai aos 12 anos, já com 14 anos de idade sentia-me preparada para escrever e lia tudo que encontrava inclusive a Bíblia. Também, graças a muita leitura, afinal tínhamos uma biblioteca em casa e liámos jornais quase sempre. Com a perda do meu pai fiquei isolada e comecei a escrever a sério e entrava em debates de assuntos socio-políticos com os mais velhos, foi quando os vizinhos apelidaram-me de “Mabote” [em alusão a activista moçambicana dos Direitos Humanos Alice Mabote]. Conversava com pessoas adultas e debatia várias ideias.

 (JP&B) – O que escrevia, poemas ou textos em prosa?

(SM) – Inicialmente escrevia poemas, mais tarde contos, nesta altura tenho a cotação para a produção e publicação de uma obra, com pode constatar a credencial da AEMO mas ainda não encontrei financiamento para o efeito. Então, esta obra irá compreender esta coletânea. Por enquanto tenho uma página no facebook onde tenho pulicado os meus trabalhos, embora ainda precise de certa maturidade. Aliás, tenho partilhado os meus escritos com algumas pessoas entendidas na matéria para a devida crítica literária.

 (JP&B) – O que podemos encontrar nas suas obras em termos de temática?

(SM) – Luto pelo espaço da mulher na sociedade, vivemos numa sociedade que tem muitas mulheres desvalorizadas, desde o princípio a sua imagem foi ignorada. Não me refiro no sentido de querer usurpar o espaço do homem, mas é que o homem com o tempo foi invadindo o perímetro da mulher.

 (JP&B) – Mas, olhando para o contexto nacional temos mulheres em cargos cimeiros …

(SM) – Claro que temos Presidente da Assembleia da Republica, chefes de bancadas, ministras, directoras,… isso é muito estimulante, foi uma escolha acertada para mostrar ao homem machista, contudo, penso que há homens feministas que defendem muito que a mulher deve e pode. Sendo mulher e vendo outras a atingir esses patamares sinto honrada parece-me que adiantou uma para abrir a porta para as demais entrar sem arranhões. Pode não ser esta mulher que está aqui, mas aquela que está a chegar…

 (JP&B) – Falou de credencial da Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO) é membro?

Sou membro, mas localmente não há uma delegação e tudo continua a nível da capital o que tem dificultado a adesão da maioria.

 (JP&B) – Nos últimos tempos surgem novos talentos, particularmente jovens, mas queixam-se da falta de apoio, quer comentar?

Aquando da minha apresentação na associação, fui bem recebida pelo que há alguns planos ainda em banho-maria, quero acreditar que há muitas coisas que deviam chegar e nunca chegam. A comunicação é quebrada ao longo do trajecto e como temos apenas um representante as vezes o culpamos, se calhar não recebeu nada, penso ser oportuno redefinir procedimentos para melhorar o atendimento.

Devíamos considerar que organizações estatais não tem tanto para atender à demanda, em muitos casos acabam dando espaço ao canto e dança e a literatura fica de lado. Pelo que não podemos assumir que temos mercado ganho ou total onde possamos expandir, temos um espaço muito limitado.

 (JP&B) – Em Moçambique são poucas mulheres a escrever, a que se deve?

(SM) – Não quero acreditar, não são todas mulheres que escrevem ao nível das províncias e distritos têm capacidade para deslocarem a Maputo para se registar, quero acreditar que se tivéssemos delegações provinciais podia inverter o actual cenário.

 (JP&B) – Sabemos que é formada em linguística e é docente em Ciências da Comunicação na Universidade Uni Zambeze, na Beira, tem algum projecto para o incentivo literário?

(SM) – Beira foi sempre um celeiro cultural e me parece atrofiado neste momento. Tenho um projecto que visa criar um centro cultural e estou atrás de parceria para o efeito, será uma forma para resgatar as culturas, a escrita, por exemplo quero trazer isso de novo, fomos melhor educados que as crianças de hoje em dia, projecto criar um espaço onde pode estimular e encontra novos talentos.

 

(JP&B) – Na sua opinião o que se devia fazer para o surgimento de mais e novos escritores?

(SM) – Há críticos que cortam as asas. Quando um passarinho pela primeira vez sai do ninho é verdade que de quando em vez irá cair. Porquê? Porque ainda está fraquinho e a mãe apoia pelo que o animal tem muito por nos ensinar.

A maioria dos críticos limitam-se a afirmar que este não escreve nada, para mim isso é cortar asas, tem sido crítica não construtiva, mas sim para “matar”.

Tenho recebido jovens que querem escrever mas com desencontros na escrita e tenho estimulado a leitura. Digo, “ leva este livro e leia e depois vamos conversar sobre isso”. Depois de ler duas obras e discutir acerca das mesmas ai devolvo o trabalho e digo por favor de reler e escrever de novo isto.

Os críticos deviam evitar o lado destrutivo em detrimento do construtivo, se não usamos a psicologia de onde é que a gente esteja não saímos do lugar. O que temos que fazer quando entramos num “chapa100” e o cobrador desatar “sai dai, sai dai”, devo dizer o seguinte: diga “senhora afasta-se”. Tem sido comum responder “aqui não é tua casa”, e eu respondo “o senhor também não é meu pai”. Nota que a próxima vez que for apanhar o mesmo transporte ele vai se lembrar do debate anterior se cada um de nós pudesse agir assim podíamos concertar alguns defeitos na sociedade.

 

Recordo-me da obra do José Capela “Moçambique pelo seu Povo”, ele tinha um programa de Rádio rico, onde lia cartas, com o português arrastado  e, como linguista preocupo-me com a língua, futuras gerações estarão interessadas em saber como nos comunicávamos no passado.  A maioria limita-se pelo português europeu e diminuindo os rastos da língua e consequentemente diminuindo o que é nosso, isso mostra claramente que ainda estamos a ser colonizados, temos que preservar o que é nosso temos os nossos falares que não podem ser criticados, é a nossa coisa.

Nós beirense não usamos o determinante que é o artigo. Por exemplo, “mamã está em casa e não digo a mamã está em casa”,  são nossos rastos e quando for a Maputo, por exemplo “você estás a brincar”, falamos e dizemos e não seguimos o rasto das coisas. Vem um europeu e começa a ensinar como você era ontem, não. Temos que guardar e criar a nossa incubadora.

Estou preocupado com rastos da língua porque o falar bonito não nos faz mais ou menos moçambicanos, estamos a tirar os rastos e amanhã não havemos de ligar os rastos do passado com o presente.

 

(JP&B) – Falou que escrevia poesia e contos, tem alguma obra lançada?

(SM) – Preciso dar o meu primeiro parto editorial, já tenho a editora Gala Gala e a obra que será uma coletânea já passou a parte técnica na Associação dos Escritores Moçambicanos.

Mas, em geral tenho produzidas quatro obras: Xiguiane, que versa o abuso ao idoso; Pethasse, trata-se de estória de uma menina nascida em Gaza e que não conhecia a cidade; Tubwé, é uma estória sobre o Ciclone Idai; e, Dispersão de Mim, que trata-se de uma estória onde a mulher procura seu espaço. Mas, estas obras ainda não foram lancadas por falta de financiamento. Por outro lado, como docente na Uni Zambeze e ainda a profundar meus estudos, neste momento estou a escrever a minha dissertação em Mestrado, e também escrevo projectos sociais.

Queria contribuir pela arte e desenvolver as culturas essencialmente fazer a manutenção e o resgate. Estou preocupado com pessoas que não sabem escrever, quem sabe, podíamos usar um gravador. Estão a ir embora muitas pessoas que podiam-nos contar estórias do passado da nossa cultura.

Estou preocupado porque quando chega qualquer cultura abraçamos, se chegamos a um ponto em que alguém com apelido Macie por exemplo criticar “Ku palha” não faz sentido. Vimos um debate na TV acerca da inauguração da ponte Maputo?KaTembe onde levantou debate entre africanos, o que mostra claramente que estamos perdidos.

(JP&B) – Quais são as suas fontes de inspiração para a escrita literária?

(SM) – Quando faleceu o meu avó fui convidada para organizar a sua mini biblioteca e encontrei a obra da escritora Lina Magaia, “Dumba Nengue”, fiquei perdida ali. Quando o mundo me apresentou ao José Craveirinha aí encontrei-me pós ele combateu o inimigo pela escrita, tanto que quis conhecê-lo ainda em vida.

 (JP&B) – O que tem a dizer aos seus admiradores?

(SM) – Ė importante apoiar os novos talentos, devemos dar força às crianças, porque na Beira falamos “você tens abuso”, é importante valorizar esta questão geográfica da língua, os escravizadores colocavam na mesma cela escravos oriundos de diferentes locais para impedir a comunicação entre si. O africano provou criando crioulos, “uma língua”. Uma das maneiras de cortar as asas é a comunicação. Há necessidade de salvaguardar o que é nosso para acabar com essa estória de que quem chega de fora é que tem valor. Podemos sofrer a aculturação sim, mas não perder a nossa identidade e penso que todos devíamos fazer uma corrente da comunicação.

 

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