Preto & Branco

“Temos que mendigar para cantar”

– Desabafa a cantora beirense, Dalila Silva

A cantora e intérprete musical Dalila Silva, que estreou-se na carreira de canto na cidade de Quelimane, mas consagrou-se na cidade de Maputo e na Beira onde reside, numa breve entrevista, mas profunda fala da sua carreira e, sobretudo, das dificuldades existentes para a progressão dos artistas, destacando a existência de descriminação, ao ponto de desabafar: “temos que mendigar para cantar”. Acompanhe os excertos da entrevista concedida por esta cantora que constitui uma das referências da cidade da Beira.

Jornal Preto & Branco (JP&B) – Quando é que começou a cantar?

Dalila Silva (DS)- Comecei a cantar a “solo” em 1980, na cidade de Quelimane, quando tinha 16 anos de idade, mas antes cantava e dançava no âmbito escolar. Quando fui a Quelimane em 1980 foi quando comecei a subir aos palcos e, dai fui a Maputo onde cantei em vários lugares ao lado de conceituados músicos moçambicanos, à semelhança do Romualdo.

JP&B – Em que lugares cantava na cidade da Beira?

DS – Cantava em vários lugares, haviam casas de pastos onde cantava com artistas daquela geração, tais como o falecido Madala, David Mazembe, Estima, Helana Macamo e também, nessa altura, cantava na banda do falecido Mussa, a banda Oceana.

JP&B- Que desafios a carreira colocou na sua vida?

DS – Primeiro, os meus pais não se opuseram, eles viviam em Chimoio e eu vivia na Beira com os meus irmãos, pelo que não tive problemas de impedimento familiar e em mim reinava a vontade de brilhar em palcos grandes embora nunca tive essa oportunidade.

JP&B – Alguma actuação no estrangeiro no âmbito da sua carreira?

Não. Tudo foi a nível nacional, cantei ao lado de Wazimbo, Alexandre Mazuze,  Mahel , Lorena, Anita Macuácuá, Neima,… vieram actuar na Beira a meu convite no âmbito das festividades da Mira Mar. Claro, para além de cantora fazia parte da organização de eventos.

JP&BOlhando para cultura na cidade da Beira o que devia ser feito?

DS – A música está no ponto, o grande calcanhar de Aquiles tem sido o patrocínio, temos que implorar para nos darem a mão na produção musical e para fazer espetáculos. Maioritariamente dependemos das casas de pasto e o pagamento vai de acordo com o consumo.

A organização de eventos públicos à semelhança de espetáculos tem acomodado músicos oriundos de Maputo e os beirense ficam de fora o que frusta o músico local. Sentimos que isto é uma verdadeira descriminação, tem sido o caso da júlia Duarte, natural da Beira e residente em Maputo tem sido a preferência, de Mr. Bow e outros vem tiram bom bolo e ficam apenas migalhas para nós, o que é chato.

O mesmo tem acontecido no longo das campanhas municipais e presidenciais, tem sido o mesmo critério de selecção, em preferir trazer os de fora e deixar o pessoal de Sofala à deriva. A cultura não está a ajudar muito na Beira, nós temos que mendigar para cantar!

 JP&B – A Dalila é membro da Associação Moçambicana de Músicos?

DS – Sim. Mas neste momento estamos fora da associação-mãe, criamos outra associação que achamos que pode nortear a vontade dos músicos na Beira, embora ainda somos poucos, mas acreditamos num futuro risonho.

Uma das frustrações com a associação-mãe foi ter produzido um disco no ano passado que visa consciencializar o cidadão em várias línguas para prevenir a Covid -19 mas até hoje ainda não foi divulgado o trabalho e, recentemente, pedimos a UNICEF para apoiar e ainda não sabemos o que virá.

JP&BOlhando para o governo local no que tange a Cultura o que devia ser feito?

DS – Não é falar muito, mas ainda falta muita coisa por estabelecer para assegurar a relação entre o governo e os músicos. Não estou interessada em falar mal, o governo quando chega a vez convida Helena Macamo, Estima e o filho do David Mazembe o que não devia, existem tantos outros que deviam fazer parte deste leque o que não tem acontecido.

 JP&BO que a Covid -19 tem colocado à cultura?

DS – Bom, já falamos com o governo, mas lá está, com o decreto presidencial não há espaço, tivemos apenas um mês, em Dezembro de 2020, onde alguns conseguiram fazer alguma coisa. Para o meu caso, por exemplo, tive oportunidade na abertura do ano do Município da Beira e o presidente (em memoria) anunciou para todos que a casa estava aberta para todos músicos fazerem eventos e para o nosso azar, no dia seguinte estava sendo anunciado em Maputo o decreto presidencial que visa encerrar eventos culturais a nível nacional e tudo parou, como sabe nós nos assemelhamos ao vendedor ambulante …

JP&B – Como tem sido a relação com governo?

DS – Ė boa, embora no ano passado passamos a vida em reuniões com director da cultura, quase diariamente, que não produziram quase nada. Mesmo a ministra esteve cá e ao fim de cada encontro íamos para casa de mãos abanadas, tomávamos um refresco, mas para casa quase que não se levava nada. Tivemos várias capacitações que em quase nada transformaram as nossas vidas. Um dos músicos foi capaz de informar que havia pedido 10 meticais a esposa para apanhar chapa da Manga à cidade e ela na esperança que o marido traria algo de volta.

Fomos capacitados em matéria para ser contribuinte do INSS, mas como farei as contribuições sem produzir nada, pelo que mesmo haver interesse em aderir a este tipo de serviços não temos de onde ir buscar receitas para o efeito.

 JP&B Com quantos álbuns conta no mercado?

DS – Já produzi um disco com produtor Carlos de Lima, não vi nenhum “centavo” da venda do mesmo. Ofereceu-me apenas um disco mal trabalhado e as vezes ouvia comentários que as minhas músicas passavam em transporte público (Caia a Quelimane ou Cai/ Beira), fiquei frustrada, tenho ainda muitas letras, mas agora prefiro imitar música estrangeira.

 JP&B Quer deixar uma mensagem para seus admiradores?

DS – Muita calma, aguentem e fiquem em casa, respeitem as recomendações das autoridades, quando a crise passar haverá mais, aos meus colegas muita força e a vida continua.

 

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