Preto & Branco

“O Deus das Pequenas Coisas”

O Deus das Pequenas Coisas, obra da escritora indiana Arundhati Roy , poderia ser descrito como um livro sobre a relação quase siamesa entre irmãos gêmeos. Ou sobre a Casa Ayenemen, um lugar em que a realidade e imaginação se misturam de forma fluída. Mas a melhor definição é da própria autora: essa é uma obra sobre as leis que determinam “quem deve ser amado, e como. E quanto”.

O livro tem como ponto de partida o retorno de Rahel, uma das metades do casal de gêmeos bivitelinos que protagoniza a narrativa, para a cidade em que nasceu, após um longo tempo distante da Índia. Essa volta é significativa porque é a partir dos fragmentos da história que persistem em móveis, objetos e paredes de sua antiga casa que a escritora nos guiará até o dia fatídico em que tudo mudou. Logo na primeira página, Arundhati Roy nos encanta com seu poder descritivo, sua capacidade de criar imagens fortes e vívidas, nos deixando familiarizados com o ambiente que ela busca retratar:

Maio em Ayemenem é um mês quente, parado. Os dias são longos e húmidos. O rio encolhe, e corvos pretos se banqueteiam com belas mangas em árvores imóveis, verde-empoeiradas. Bananas vermelhas amadurecem. Jacas explodem. Varejeiras dissolutas zunem vagabundas no ar perfumado. Depois se estatelam contra vidraças transparentes e morrem, totalmente enganas, ao sol. (…) Mas no começo de junho irrompe a monção sudoeste, e vem três meses de vento e água com curtos intervalos de sol duro e brilhante em que crianças excitadas aproveitam pra brincar.

Conforme Rahel explora o entorno da casa, ela nos apresenta o “microcosmo” composto por sua família, uma representação da Índia presa entre tentativas de modernização e velhos preconceitos arraizados na sociedade. No mosaico familiar composto pela mãe divorciada, pelo tio sem rumo, por uma avó de personalidade forte e por uma tia cujos sonhos desabaram, um a um, até que só sobrasse o rancor e a inveja, vamos conhecendo os personagens decisivos para a noite do Terror, como é descrito o dia em que “tudo mudou”.

A chegada de Sophie Mol, filha do tio Chacko, inglesa de peles claras e cabelo afogueado, estará indelevelmente associada à esses acontecimentos, mas é apenas aos poucos que a autora constrói esse quebra-cabeça.

 

Antes de tudo, ela parece querer nos mostrar que o mais insignificante dos acontecimentos, a menor das vergonhas, a mais banal conversa, podem levar a tragédias familiares sem precedentes. (…)

 

Leia e se envolve nesta estória se reflecte em parte a vicissitudes da sociedade indiana, muita das vezes embrulhada em tabus.

 

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