Preto & Branco

Nações Unidas apoiam aliança regional

Aperta cerco ao tráfico na costa moçambicana

O tráfico de droga na costa moçambicana considerada fonte de financiamento de redes terroristas e do crime transnacional, está a ter revés graças a actuação conjunta com países da região, com registos de apreensões, o que é congratulado pelas Nações Unidas, cuja unidade contra droga e crime organizado disponibiliza o seu apoio, tendo montado seu escritório em Maputo.

 A procurar reverter a má fama de Moçambique como corredor de droga, o Governo tem, nos últimos tempos, mostrado algum serviço com o desmantelamento ou inviabilização de entrada de droga no território nacional, como via de trânsito, tendo como destino vários países do mundo.

Várias quantidades de droga tem sido apreendidas nos principais aeroportos nacionais, com destaque para o de Mavalane, na cidade de Maputo, e o de Nampula e de Nacala Porto na província de Nampula, além de ao longo da orla marítima moçambicana, inclusive dentro do território nacional.

Mais recentemente, concretamente no dia 2 de Fevereiro, as autoridades policiais detiveram um empresário na cidade de Pemba, província de Cabo Delgado, na posse de 180 quilos de efedrina, substância que, se acredita, tinha como destino o fabrico de drogas, com realce para cocaína.

Em finais de Janeiro último, a Polícia deteve um homem na posse de 61 quilos de heroína e cinco de metanfetaminas em Nacala Porto, na província de Nampula.

O circuito de entrada de droga ou substâncias para o seu fabrico no território nacional ou para trânsito tem como porta de entrada a extensa costa moçambicana, pelo Canal de Moçambique, na “boca” do oceano Índico.

Aliás, ainda no final de Janeiro último, uma fragata da marinha francesa apreendeu 444 quilos de metanfetaminas e heroína num barco à vela artesanal, no Canal de Moçambique, onde França tem algumas ilhas. A droga foi avaliada em mais de 50 milhões de dólares.

Para o representante  do Escritório das Nações Unidas para a Droga e Crime Organizado (UNODC), César Guedes as apreensões de heroína no norte e ao largo de Moçambique mostra que as autoridades estão engajadas. “Se temos apreensões, é boa notícia: isso significa que as autoridades estão a fazer um trabalho mais certeiro, mais dedicado, mais profissional e dão as mãos com a cooperação internacional”, considerou Guedes, citado pela agência Lusa esta semana.

Este representante da ONU considera que as apreensões milionárias mostram avanços contra o narcotráfico, na senda de contrariar e fazer face à constatação tornada pública ano passado pelos Estados Unidos da América (EUA) de que o tráfico na costa de Moçambique era a principal fonte de financiamentos de redes terroristas.

Ainda sobre o desempenho das autoridades moçambicanas, César Guedes referiu que apreensões recentes mostram de forma “clara” que “Moçambique não está sozinho neste combate e estas apreensões, em diferentes momentos, tiveram o apoio de países que têm uma agenda de trabalho” comum para o combate ao narcotráfico.

 Aliança contra o narcotráfico

Segundo apuramos, ao nível da cooperação regional, a capital moçambicana deverá receber ainda este ano um escritório de segurança marítima tripartida, partilhado com especialistas da África do Sul e Tanzânia, em parceria com a UNODC. Será um órgão consultivo e de troca de experiências para os países reforçarem em conjunto a vigilância sobre o sudoeste do oceano Índico.

Por outro lado, sabe-se que desde em 2019 a UNODC abriu escritório em Moçambique, após solicitação do Governo, cujo representante, César Guedes, tem longa experiencia na lida com o narcotráfico. Alias, antes de Moçambique representou aquela unidade das Nações Unidas na Bolívia e cinco anos antes esteve em funções similares no Paquistão, precisamente o país onde se fazem ao mar os barcos que atravessam o oceano Índico com heroína até Moçambique.

Segundo apuramos, esta unidade das Nações Unidas já tem prestado treinos e formação às autoridades moçambicanas para o combate ao narcotráfico.

Rota Paquistão/Costa moçambicana

Se debruçando sobre a preferência de Moçambique na rota do narcotráfico, sobretudo pelo maior fornecedor do mundo que é o Paquistão, o responsável da UNODC em Moçambique, César Guedes, destacou a tendência de os traficantes entrarem “mais e mais” no sudoeste do oceano Índico por a considerarem uma rota “fiável” e “previsível”, apesar de ser a mais longa para chegar aos mercados do hemisfério norte, sendo que Moçambique é uma passagem por ter a maior costa entre a Somália e África do Sul e permite ligação terrestre para vários países e desses para o destino.

Tudo isto, num contexto em que as nações a norte de Moçambique – Tanzânia e Quénia — têm empurrado o crime organizado para longe das suas costas, obrigando os traficantes a procurar entradas a sul e numa altura em que o Afeganistão vive dias de instabilidade acrescida.

“Quanto maior instabilidade no Afeganistão”, mais a droga é uma “alternativa de negócio” num país responsável por 85% da heroína que circula no planeta e quase 100% da efedrina de origem vegetal – e isso reflecte-se na costa moçambicana, considera este agente das Nações Unidas.

Por outro lado, sendo Moçambique rico em fauna bravia, pedras preciosas e madeiras raras que constituem cobiça de outras redes de tráfico, estas as vezes se interligam com o narcotráfico.

“Duas faces da mesma moeda”, descreveu César Guedes, explicando que por vezes, a embarcação que leva droga para Moçambique regressa com o resultado de tráfico de recursos naturais do país.

Pelo que, a resposta em Moçambique passa pelo esforço de parceiros, algo que faz parte “do ABC da cooperação internacional” porque “nenhum país pode enfrentar estas dinâmicas sozinho”, frisou, salientando porém que há sinais claros de que as autoridades moçambicanas estão motivadas para o combate ao narcotráfico e abertas à cooperação, bem como à capacitação institucional que é prioridade da UNODC.

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