Preto & Branco

“Beira já foi uma referência cultural”

– Afirma a cantora Helena Macamo

A cantora que saiu do atletismo, Helena Macamo, pontifica como uma das “velhas” glórias da cidade da Beira, considera que a cultura perdeu a sua vitalidade naquelas paragens apesar de actualmente haver mais colaboração entre as diferentes gerações. O calcanhar de aqueles é a falta de patrocínio e agenda estruturada no sector e recorda com nostalgia que a “Beira já foi uma referência cultural”. 

Na rebusca de figuras femininas que foram referência no panorama musical na Beira, e algumas ainda o são mesmo que menos divulgadas, chegamos à falar com a cantora Helena Macamo, natural de Nampula mas que escolheu como residência a cidade da Beira. Uma nota em detalhe é que esta cantora antes de abraçar a música foi recordista dos 500 metros em atletismo a nível da província de Sofala, nessa altura já existia a Lurdes Mutola, que atingiu o estrelato mundial.

Helena começou a cantar na igreja e na escola, aliás, ressalva que na sua infância e adolescência na escola aprendia-se o canto e a ginástica, o que ajudou a despoletar e estimular alguns talentos. Como atleta depois da escola de Matacuane chegou a representar o clube Ferroviário da Beira.

Sobre a cultura, no geral, diz que a Beira perdeu o pedestal do passado, pois, chegou a ser um destino cultural e porta de saída de artistas para a sua internacionalização. Actualmente, sobretudo devido à pandemia da COVID-19, considera que a cultura está ameaçada, revelando que inclusive um disco produzido por vários artistas locais para a sensibilização das comunidades está refém de apoio para ser divulgado.

Siga mais alguns pormenores da entrevista que esta artista, também envolvida em trabalhos humanitários, concedeu ao jornal Preto& Branco.

Jornal Preto & Branco (JP&B) – Como se explica a troca da prática do atletismo pela música?

Helena Macamo (HM) – No passado, nas escolas era comum praticar canto e ginástica, cada um mostrava a sua inclinação e dedicação.

(JP&B) – Quais são os desafios que o dia a dia a tem colocado?

(HM) – Manter o meu nome como artista e singrar tem sido um verdadeiro desafio, mas no passado era diferente. Tínhamos pessoas que organizavam os eventos, havia um empresário chamado Beirão (em memória) organizava tudo e tínhamos eventos marcados, era só seguir o agendado. Há quem diga que as oportunidades estão em Maputo, será que todos devemos sair das províncias para Maputo? Porquê não pode haver patrocínio localmente, pois, existem talentos, acabamos por ficar fechados porque quando batemos as portas e nenhuma delas se abre é frustrante.

(JP&B) – Pode nos falar do desempenho da associação dos músicos moçambicanos na Beira?

(HM) – Eu preferia não falar da associação, pois não a vejo por aqui. Sou membro desde a década de 80, mesmo para emitir os cartões tem sido complicado. Veja que, por exemplo, por ser membro da associação não tenho tido qualquer privilégio no âmbito da carreira, atrevo-me a afirmar que a associação não está operacional, se calhar faz para outros, então prefiro não entrar em detalhes, é muita pena que em vários locais onde temos pedido qualquer apoio tem aconselhado para nos filiar em associações.

Nesta altura faço parte de uma associação formada por mulheres com intuito de apoiar crianças órfãs, doentes e vulneráveis, temos feito acompanhamento dos que não conseguem ir buscar medicamentos. Essencialmente é um trabalho voluntário e sem fundos tem sido extremamente complicado, tem sido a contribuição dos miseráveis ganhos de cada um de nós e apoiamos aos necessitados. Temos a sede em Mafambisse e delegação em Nhamatanda. Estamos a viver um ambiente cíclico de crises, primeiro foi a crise económica e financeira, depois passamos pelo ciclone IDAI e agora estamos diante da COVID-19.

(JP&B) – Salvo erro,  a nível da cidade da Beira, a Helena é das poucas mulheres que canta

(HM) – Isso não constitui a verdade, existe muitas mulheres que cantam e como cantam (risos…. )

 

(JP&B) – Assim, com que tipo de apoios conta?

(HM) – Está dito que a área mais afectada é a cultura. Antes da COVID-19 iremos morrer de fome,  eu vivo da musica tinha meus shows e festas aos fins-de-semana a soma dos magros caches faziam muita diferença na minha vida. A cidade da Beira já foi uma referência cultural no passado, já trouxemos muitas vozes de Maputo, já tivemos várias actuações no Estrela Vermelha, sei lá o que está a acontecer, parece haver uma reabilitação. Foi nesta cidade em que tínhamos uma parada de sucessos que atraia muita gente para ver músicos nacionais e internacionais, mas agora está tudo parado.

No ano 2000 tive convite para uma deslocação a Portugal para participar num festival em Coimbra, partindo daqui da Beira na companhia de conceituados artistas tais como David Mazembe, Madala e Fátima Antero, na companhia de Silva Dunduro, antigo ministro da Cultura, nessa altura era director da Casa da Cultura na Beira.

(JP&B) – O que devia ser feito para devolver o bom nome da Beira como destino cultural?

(HM) – Não posso dizer que as coisas deviam ser como eram antes, houve várias mudanças, agora entras num quartinho para gravar a sua música e vida assim está a andar, mas no passado havia a censura, não devíamos escrever e gravar de qualquer maneira (letra e lançar). Eu penso que naquele tempo as pessoas concluíam que sim devo ir assistir, de acordo com alguns traços que os unia ao artista, afinal o artista contribui na sociedade pelos seus temas.

Penso que devia haver uma harmonia entre o empresário e o artista, em outras palavras, devia haver um fundo destinado a cultura, quando batemos a porta do Governo para pedir apoio eles dizem que não tem e não tem mesmo… Para possibilitar a divulgação de mais trabalhos o empresário devia apoiar, embora este também quer retorno imediato.

Tinha alguns trabalhos em vista mas com a chegada do IDAI tudo ficou parado e agora é a COVID-19, com um fundo disponível podia aliviar o sofrimento de fazedores da cultura.

A cultura está ameaçada com a crise humanitária, da COVID-19 sendo o pilar e/ou a base de um povo devia haver um fundo para assistir ao artista.

A nível da Beira por exemplo produzimos um disco acerca da pandemia, mas o disco está no Estúdio, não há fundos para divulgar, afinal é neste período em que as comunidades através de vários idiomas podiam ser sensibilizadas e consciencializadas.

(JP&B) – Qual tem sido a relação da nova geração e antiga geração?

(HM) – No passado as relações foram acesas, mas agora no meu último trabalho, por exemplo, trabalhei muito com jovens pelo que não vejo espaço para alimentar essa descriminação entre nós.

(JP&B) – Mensagem para seus admiradores?

(HM) – Digo a eles que a Helena ainda está aqui, passamos pelo IDAI e agora temos a COVID-19, se sobreviver irei aparecer porque gosto do que faço e continuarei fazer as minhas letras e um dia isto passará, ainda tenho um álbum que falhou o lançamento com IDAI só para ver que azar.

 

Adicionar comentário

Leave a Reply