Preto & Branco

“Somos originais em canto e dança”

– Afirma Julinho, vocalista dos Djaaka

A banda os Djaaka que constitui uma referência no panorama musical, sobretudo no resgate de ritmos tradicionais, está atravessando uma fase desafiante, sobretudo com a morte do seu vocalista principal, o Walter. Contudo, o novo vocal, Júlio Chissico ou, simplesmente, Julinho, acredita em aparições mais lustrosas, resgatando os temas consagrados e novas propostas, crédulo que a sua banda tem espaço privilegiado no panorama cultural e musical moçambicano devido à sua originalidade no canto e dança tradicionais.

Foi tudo numa tarde chuvosa de quarta-feira, salteando poças de água estagnada da chuva que se fez sentir, no bairro Palmeiras II, na cidade da Beira, quando nos deparamos com o conceituado músico, Júlio Sebastião Chissico, mais conhecido por Julinho, que é vocalista da famosa banda Djaaka. Convidado para dois dedos de conversa com o jornal Preto & Branco, prontamente acedeu.

Questionamos sobre o desaparecimento da banda na praça, ao que Julinho preferiu fazer um rescaldo histórico: A banda Djaaka foi constituída em Agosto de 2000 em Maputo, com dez elementos dos quais nove são activos na Beira e um em Maputo. No meio de muitas dificuldades temos trabalhado arduamente embora o mercado seja condicionado, quando recuperava da crise económica e financeira, chegou a crise humanitária causada pela Covid-19.”.

Ainda no rescaldo sobre a caminhada dos Djaaka assinalou um momento difícil e irreparável: ‘Foi do conhecimento de todos termos perdido o Walter [em memória] que era o vocalista principal da banda desde a fundação da banda, situação que nos colocou um desafio grande, embora ambos trabalhávamos na Casa da Cultura provincial na Beira onde praticávamos o canto e dança, foi um desafio para mim ascender a vocalista principal e perdemos algum tempo para voltar ao normal”, vincou o nosso entrevistado.

Outro obstáculo que constitui empecilho para a vitalidade da banda é o facto de “estamos fora da capital, é difícil para encontrar apoio para levar avante as nossas actividades, para ter patrocínio para gravar um sigle ou um álbum a nível provincial não tem sido fácil, em muitos casos temos que atravessar o Save até à capital para ter qualquer apoio, contudo, por cá um e outro empresário com bom coração tem apoiado”, considerou.

Questionado se a banda fazia parte da Associação Moçambicana dos Músicos, respondeu positivamente, mas reclamou a falta de seriedade a nível da delegação na Beira.

“Sim estamos filiados, mas não estamos bem integrados, lembro-me que quando escrevemo-nos para ter cartão de membro foi em Maputo e quando voltamos para casa, na Beira, descobrimos que a delegação da associação não era séria. Pergunto, como é que uma instituição pode funcionar dentro de casa de alguém se na casa da cultura pode haver espaço para exercer esta actividade?”, Questiona Julinho.

Perguntamos sobre as eventuais saídas para os problemas que apoquentam a classe artística em Moçambique, ao que o nosso interlocutor explanou-se: “O Governo sempre lamentou a falta de dinheiro para alavancar a cultura nacional, mas há em vista muitos potenciais parceiros que acho que o Governo podia apadrinhar os fazedores e produtores da cultura junto dos mega projectos, pois eles têm a parte da responsabilidade social. Cá entre nós, o que seria de um país sem cultura? Faizal António deu grande exemplo em Maputo, quando juntou todos os músicos [através da iniciativa geração de Ouro], mas esta sorte não coube para as outras províncias”, lamentou.

Questionado sobre a opção de cantar locais, nomeadamente Sena e Ndau e não em português como geralmente optam os músicos jovens, o vocalista dos Djaaka respondeu:  “Esta é uma herança dos artistas locais mais velhos (Jorge Mamade, Madala, David Mazembe e outros), quando íamos assistir os espetáculos colocavamo-nos uma pergunta, porquê seguir o Rapper? Os nossos mais velhos são originais e quando começámos a frequentar a Casa da Cultura Provincial, na sua maioria os temas eram interpretados na língua local e a dança era tradicional, quando formamos a banda optamos em seguir o mesmo estilo de música e dança”, justificou.

Para vincar o valor da originalidade contou-nos que “numa das actuações na Dinamarca ficamos surpreendido com um pesquisador de ritmos moçambicanos em línguas locais, de norte a sul, quando deu um comentário acerca da nossa originalidade e identidade (músicas e danças), ficamos impressionado com este tipo de comentário fora de casa”, referiu, para de seguida frisar que “somos originais em canto e dança tradicional”.

Convidado a dar algumas referências da banda em termos de premiações, apontou registos nacionais e internacionais.

“Já conquistamos alguns prémios em Mocambique e alguns fora. No âmbito do Ngoma Moçambique chegamos a conquistar o prémio Revelação, Música Popular e Melhor Música do Ano.

Além-fronteiras conquistamos no EXPO-2008, na Espanha, o prémio de Melhor Banda, Melhor Comportamento e também conquistamos um prémio na Holanda, salvo erro, já conquistamos seis (6) prémios”, contabilizou.

Como mensagem para os amantes da cultura e das artes, em particular e para a sociedade, no geral, o vocalista dos Djaaka deixa a seguinte: “Haja muita esperança apesar da crise humanitária, Covid-19. Por favor, sigam as recomendações das autoridades para se prevenir deste mal, vivos e saudáveis haverá espaço para nostalgia e se calhar apresentar novos trabalhos”.

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