Preto & Branco

Que transformara-se no epicentro da acção governativa no país

Frelimo trava show do ministro Correia

O ministro Celso Correia, que desde que Filipe Nyusi assumiu as rédeas do Governo em 2015 constitui a peça governamental mais visível e actuante, confundindo-se com um virtual vice-Presidente da República, despertou preocupação nas hostes mais conservadores do partido Frelimo, no qual não tem história, motivando a colocação de freios na sua actuação omnipresente cuja agenda desconhece-se. Aliás, tacitamente, em nome da Frelimo, que forma o Governo que dirige os destinos deste país, Celso Correia, de empresário bancário de sucesso transfigurou-se, em cinco anos, em político mais mediático, liderando ministérios estruturantes e programas multissectoriais e mobilizando biliões de meticais

Na verdade, quando premiou-se o empresário Celso Correia pelo financiamento que prestou à candidatura de Filipe Nyusi para candidato da Frelimo, nas eleições internas muito renhidas, e depois nas presidenciais contra Afonso Dhlakama, em 2014, não se esperava que talvez tivesse um tacto e ambição politicas focalizadas.

Ao formar o seu primeiro Governo em 2015, Filipe Nyusi nomeou Celso Correia para ministro da Terra, Ambiente e Desenvolvimento Rural e logo começou a exibir a sua capacidade criativa, misturada com algum populismo para não só cair nas graças das altas esferas decisórias do Governo e da Frelimo, sobretudo, mas também das instituições internacionais, segmentos da sociedade civil moçambicana e da população, no geral.

Criou o programa “Terra Segura” prometendo 5 milhões de DUATs, sobretudo para populações desfavorecidas de modo a terem a posse de terra como um bem económico. Em nome do “nacionalismo” e combate ao contrabando e tráfico de recurso naturais, dinamizou a “Operação Tronco”, com algum show off sobre apreensões de madeira em vias de exportação ilegal ou interdita, parte dela convertida ao sector da Educação para fabrico de carteiras; cornos de rinocerontes e pontas de marfim apreendidos foram incinerados.

E para tornar sustentável e independente a sua actuação tridimensional [Terra, Ambiente e Desenvolvimento Rural] servindo-se do seu faro empresarial criou o Fundo Nacional de Desenvolvimento Sustentável (FNDS), um “saco” financeiro para fazer um pouco de tudo no meio rural, … para desenvolvê-lo. Celso Correia já actuava na componente de infra-estruturas como vias de acesso, fornecimento de electricidade e de água; no sistema financeiro; parcelamentos de terra; gestão ambiental e biodiversidade; e nas áreas sociais, reposicionou o distrito como o foco da acção Governativa, várias iniciativas assumiram a liderança presidencial de Filipe Nyusi mas o grande espevitador intelectual foi Celso Correia.

Os doadores que haviam cortado o apoio directo ao Orçamento do Estado devido às famigeradas dívidas ocultas viram no FNDS um repositório alternativo para o contínuo apoio ao povo moçambicano e para o desenvolvimento do país.

Com esta centralidade, Celso Correio tornou-se omnipresente na acção governativa o que despertou a atenção dos círculos securitários do Estado, alinhados com a visão partidária, com as tradições desconfianças intestinas, uma onda de boatos foi criada para gerar um mau ambiente e desinteligências entre o Presidente da República e do partido Frelimo, Filipe Nyusi, e o seu confidente e “vice” virtual, Celso Correia

Mas, o pacto entre ambos parecia mais sólido que as eventuais intrigas e Filipe Nyusi reforça os créditos ao ministro Correia e procurava a todo custo viabilizar as suas ideias e visando revolucionar a agricultura o ministro esboçou o Sustenta e iniciou os primeiros ensaios.

O grupo de conspiradores internos, nas hostes do partido, quando Filipe Nyusi renovou o mandato, em 2020, esperava o descarte de Celso Correia, mas observou-se o contrário. Certa vez, em jeito de mensagem à distância, chegou a dizer em público, que não se muda a equipa que ganha.

Para consolidar a sua supremacia, Celso Correia conseguiu ser nomeado para um novo ministério, resultante da desintegração do anterior, passou a ser o ministro da Agricultura e Desenvolvimento Rural, à luz do qual Filipe Nyusi comprometeu-se, para este seu segundo e último ciclo de governação, “erradicar” a fome, anunciando inclusive a alocação de 10% do Orçamento de Estado para a agricultura. E foi na base deste nova missão ministerial que Celso Correia anuncia a expansão do SUSTENTA sob a liderança presidencial para todo o país.

Que se diga em abono da verdade, Celso Correia consegue arrastar nas suas iniciativas ou programas que lidera vários doadores, desde instituições multilaterais, como o Banco Mundial, Banco Africano, FMI e bilaterais como os vários países europeus e os Estados Unidos da América. Ademais, levou consigo o FNDS para o novel ministério que constitui a centralidade do actual Governo de Filipe Nyusi, que espera ser a marca indelével deste seu último mandato.

Um outro projecto estruturante e de relevância nacional é a famosa Agência do Desenvolvimento do Zambeze, lançada oficialmente em Agosto do ano passado, que visa espevitar e orientar o desenvolvimento de três províncias nortenhas, nomeadamente Niassa, Cabo Delgado e Nampula.

Celso Correia e captação financeira 

Talvez pelo apego à sua vida bancária, que perfez a sua vida empresarial e de forma evidente, Celso Correia é o ministro que tutela os maiores financiamentos, aliás, também os mobiliza.

Somente para ter-se uma ideia, o programa SUSTENTA tem um orçamento indicativo de 145,5 biliões de meticais que deverão ser aplicados até 2024, sendo que cerca de 105 biliões de meticais vai para a componente de financiamento.

Somente para o presente ano estão previstos cerca de 6 biliões de meticais, para o financiamento aos produtores que submeteram projectos em todo o país e a gestão destes valores está nas mãos de Celso Correia.

Desde o lançamento da iniciativa SUSTENTA, em 2017 somente em duas províncias, por sinal as mais populosas do país, Nampula e Zambézia, o Banco Mundial manifestou a sua disponibilidade para financiamento, tendo havido um sinal preliminar de 60 milhões de dólares

Quanto à ADIN, o próprio ministro Correia, no acto do lançamento oficial revelou que esta agência para o seu funcionamento necessita de 764 milhões de dólares e que 700 milhões de dólares seriam desembolsados pelo Banco Mundial, 60 milhões de dólares pelo Banco Africano de Desenvolvimento (BAD) e 3,6 milhões de dólares pelo Reino Unido. A posterior, a embaixada dos Estados Unidos da América anunciou que parte dos 42 milhões de dólares destinados à assistência humanitária e económica em Cabo Delgado seria canalizada à ADIN.

 Será o silenciar de uma vedeta?

Em alguns círculos do partido Frelimo, avança-se que considerando que este é o último mandato de Filipe Nyusi urge o reposicionamento de estratégias para os próximos pleitos eleitorais, que não somente significarão a sucessão de Filipe Nyusi na candidatura à Presidência da República, mas também para a liderança dos destinos do partido enão pode haver “poeira”.

Os de visão mais aberta, consideram que em condições normais, um ministro com visibilidade boa podia aspirar a primeiro-ministro ou mesmo ser presidenciável, mas a disciplina partidária e militância frelimista não se compadece com isso, sobretudo, aos olhos das alas mais conservadoras.

Outros consideram Celso Correia muito ambicioso e com agenda obscura, visto a sua militância ser meramente circunstancial. Mesmo descartando-se uma eventual ambição presidencial, acredita-se que a sua omnipresença nas decisões e acção governativa pode influenciar o xadrez politico a ser montado em 2024, com forja de alguma candidatura fora do controlo do partido. Como esteve para acontecer nas eleições internas para o candidato presidencial de 2014, que escolheram a ferro e fogo Filipe Nyuisi.

Fontes próximas do núcleo duro da Frelimo, afiançam que houve orientações para frear as aparições robustas e omnipresentes de Celso Correia a nível da acção governativa do país e sua mediatização a nível da imprensa, sobretudo pública. Aliás, nos órgãos públicos, já cessaram os salamaleques que eram dedicados ao Celso Correia e alguns de forma velada até o criticam.

Seja como for, Celso Correia constitui uma peça importante e indispensável para a vitalidade deste mandato de Filipe Nyusi, considerando sobretudo os programas e projectos estruturantes e multisectoriais que dirige. Será o silenciar de uma vedeta?

Adicionar comentário

Leave a Reply