Preto & Branco

Entre Moçambique e Tanzânia

Pacto transfronteiriço no combate aos terroristas

  • Nyusi anuncia clemência a terroristas arrependidos

Após o acordo celebrado no ano passado, para a troca de informações sobre as incursões de grupos armados, entre Moçambique e Tanzânia, nesta semana, em encontro de alto nível, o estadista moçambicano, Filipe Nyusi, e o da Tanzânia, John Magufuli, selaram o pacto transfronteiriço de encurralar o grupo terrorista que assola a província nortenha de Cabo Delgado, desde 2017, e que tem como porta de entrada para Moçambique e zona de recuo o território tanzaniano.

Em reunião de alto nível, havida nesta segunda-feira (11 de Janeiro), na Tanzânia, entre o presidente moçambicano Filipe Nyusi e seu homólogo John Magufuli, ambos acompanhados de altas patentes das forças de defesa e segurança, discutiu-se estratégias de acções conjuntas e coordenadas para se encurralar o grupo de insurgentes, como modus operandi terrorista, com lideranças estrangeiras, que perpetram terror em distritos da província de Cabo Delgado, ceifando vidas e destruindo infraestruturas sociais e económicas.

Pacto de vida ou morte

Após este encontro que durou cerca de três horas, em território tanzaniano mas próximo a Cabo Delgado, o Presidente da República, Filipe Nyusi, já em território moçambicano, sem entrar em detalhes, explica o pacto da seguinte maneira: “a Tanzânia está a dizer que prefere morrer connosco”.

Oficialmente, a Tanzânia, país que faz fronteira com Moçambique, através de Cabo Delgado, manifestou-se disponível para cooperar com Moçambique na luta contra grupos armados nesta província, cujos ataques, que remontam de 2017, são classificados desde o ano passado pelo estado moçambicano e autoridades internacionais de ameaça terrorista.

Em jeito de rescaldo da reunião, perante a imprensa em Cabo Delgado, Filipe Nyusi preferiu iniciar com uma abordagem contextual, referindo que o objectivo da visita foi para aprofundar as relações de amizade e cooperação, vincando que as relações têm que ser sempre alinhadas, não sendo um produto acabado, centrando-se depois nas questões da segurança.

“Era um tema incontornável em função da realidade que o nosso país vive. Nós queremos desenvolver Moçambique e os tanzanianos querem desenvolver a Tanzânia. Querem água e energia. Querem boa habitação, estradas e comida e essas coisas só acontecem com segurança. Então, em todos momentos em que se discute o desenvolvimento de um país ou de uma sociedade discute-se automaticamente a segurança. Demos nossos pontos de vista e explicamos qual a realidade actual de Moçambique”, disse o estadista moçambicano, sem avançar detalhes do conteúdo do diálogo securitário com o seu homologo tanzaniano.

Em referência aos ataques em Cabo Delgado e no centro do país, disse: “transmitimos as nossas informações no âmbito da segurança no teatro operacional norte e centro. Afirmamos que vamos retornar às reuniões das comissões mistas entre Moçambique e Tanzânia, incluindo na área da Defesa e Segurança”, referiu o estadista, considerando a reunião como positiva.

É de recordar que em Novembro transacto, Moçambique e Tanzânia assinaram um acordo para troca de informações sobre as incursões de grupos armados.

Na altura, o Comandante-geral da Polícia da República de Moçambique (PRM), Bernardino Rafael, após a assinatura do documento que também teve lugar na Tanzânia, referiu que “o acordo prevê que nós trabalhemos em conjunto no sentido de controlarmos a fronteira do Rovuma, trabalhando com as populações para que elas denunciem a possível movimentação dos terroristas”, revelou, pelo que a mais recente reunião foi mesmo para selar este pacto transfronteiriço de combater sem tréguas estes grupos terroristas que encontram “esconderijo” na Tanzânia.

Clemência a recrutas …

O estadista moçambicano, em conferência de imprensa a partir de Cabo Delgado, propriamente da cidade de Pemba, após a visita de trabalho a Tanzânia, apelou à vigilância no seio da juventude das regiões afectadas, avançando que muitos jovens que aceitaram  juntar-se aos grupos rebeldes estão seriamente arrependidos. “Receberam várias promessas e não estão a ver os resultados. Estão a ser dirigidos por pessoas que não conhecem nem sabem que língua falam. Vocês não são assassinos de natureza”, considerou Filipe Nyusi, em mensagem dirigida aos jovens recrutados para as infâmias incursões, recomendando-os a entregarem-se as autoridades e que terão a devida clemência.

“Encontrem forma para falar com as Forças de Defesa e Segurança para vocês voltarem ao convívio de nós todos. Nós vamos fazer tudo por tudo para o povo moçambicano compreender que foram manipulados e usados. Vocês não são assassinos por natureza, estão a ser movidos para essa guerra”, considerou Filipe Nyusi.

Para demonstrar a vontade de conceder clemência aos terroristas arrependidos, o estadista explicou o que aconteceu durante o último ataque à Ilha de Matemo, no distrito de Ibo, na semana passada, apontando que os jovens que entraram em Matemo foram repelidos pelas Forças de Defesa e Segurança. “Estas fizeram tudo por tudo para que os mesmos jovens saíssem tranquilamente por saberem que “são inocentes”, aludiu.

Junta Militar dividida

Além de Cabo Delgado, Filipe Nyusi falou também da situação na zona centro do país, concretamente de Manica e Sofala, onde a Junta Militar da Renamo continua a protagonizar ataques armados contra cidadãos civis e bens, incluindo ceifando vidas como ocorreu no último sábado.

Flipe Nyusi disse que sabia existirem divisões na Junta Militar, com dois grupos distintos, considerando que “a maioria tem consciência de que esta guerra não tem que ser movida, por isso, os que pensam desta forma vamos recebê-los. Vamos deixar o Nhongo sozinho” ou “com esse grupo” com o qual insiste em protagonizar ataques, ajuizou o estadista.

Àqueles que pretendem voltar à sociedade, Filipe Nyusi apelou para que “não hesitem” em contactar as autoridades “porque não foram feitos para matar” os próprios pais ou irmãos e prometeu continuar com o espírito de perdão que caracteriza a sua governação.

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