Preto & Branco

O Ano em Retrospectiva (Conclusão)

 

  1. A partir do mês de Junho, o cenário político foi marcado pela crescente desestabilização terrorista no centro do país e pelo avanço ousado e sofisticado no norte de Cabo Delgado. Nesta região, em particular, os terroristas ocuparam sedes distritais por dias e noutros locais como o município da Vila da Mocímboa da Praia continua sob o controlo da insurgência. Estranhamente, as autoridades político-administrativas e das Forças de Defesa e Segurança, ridiculamente teimam em não reconhecer a insustentável situação na correlação de forças naquele local. Diferentemente da região central, onde qualquer ataque do terrorista Nyongo é amplamente noticiado e comentado nas mídia pública e privada, os violentos ataques no norte de Cabo Delgado são ocultados, silenciados.
  2. O drama do terror no norte de Cabo Delgado está a gerar o maior drama humanitário no país depois do vivido na guerra civil (ou dos 16 anos dependendo das simpatias ideológicas). As migrações foçadas e a consequente desestruturação de famílias, comunidades está a causar uma enorme sensibilidade política internacional (Vaticano, parlamento europeu, Nações Unidas, parlamento português, etc.). Internamente, a abordagem do assunto foi pálida ou inexistente. A onda de solidariedade começou recentemente. A resposta ao drama humanitário tanto pelas entidades governamentais como das agências internacionais para além de tardia não esta devidamente articulada. Há sobreposição de intervenções, o que denota um despreparo total em lidar com o problema. Não basta dar tendas e terrenos: é necessária uma forte intervenção psicossocial para ultrapassar o trauma causado pelas decapitações e outras formas desumanas vivenciadas pelos afectados.
  3. O Presidente da República propôs tréguas unilaterais ao grupo criminoso de Nyongo para que pudesse negociar e colocar as suas reivindicações. Nyongo fez troça de tal gesto. Mas quando começou a ser acoçado já no início deste mês anunciou as suas tréguas. Na verdade, não são tréguas. É rendição. Nyongo está isolado. Alguns dos seus homens de confiança abandonaram-no, aderindo ao DDR. É um golpe de sobrevivência.
  4. A meio houve eleições para a nova Comissão Nacional de Eleições. Uma autêntica paródia. Ficou claro que a dita Sociedade Civil é um bando de famintos à espera do seu lugar ao sol, ou melhor, à mesa! Ridículo e Vergonhoso! A bem da verdade, NENHUM dos eleitos tem um projecto específico, estruturante, transformacional para a CNE. É apenas para o umbigo: andar de 4×4 e Mercedes Benzes e ajudantes de campo… Triste sina a nossa como moçambicanos.
  5. A Covid-19 continuou a fazer das suas. Desrespeito pelas medidas de prevenção; normalização do anormal, etc. A meio, falta de clareza na execução da despesa dos fundos doados por parceiros internacionais, etc.
  6. O Presidente da República foi ao parlamento para o seu informe anual. No discurso marcadamente longo, abordou o que, na sua perspectiva, forma os principais problemas da nação. Um aspecto interessante, o PR disse que o Estado sabia das movimentações dos terroristas em Cabo Delgado por volta de 2012. A pergunta é: o que fez-se? Sabendo, como deixou-se que o problema atingisse tamanha dimensão? Foi traumatizante ouvir isso do PR; foi grave! Voltando ao informe, há que dar-se um salto qualitativo: não basta identificar os problemas e traçar perspectivas: é preciso dizer como e com que recursos o governo irá lidar-se com este e aquele ‘desafio’.

Enfim, este é o meu diagnóstico de 2020! Para o ano há mais. Forte a abração e boas festas a todos!

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