Preto & Branco

Sobre a Ida do Chefe à AR

Esta semana o Presidente da República vai ao parlamento para prestar o seu informe anual à Assembleia da República. Este é um ditame constitucional que te sido observado de forma sistemática ao longo dos anos desde as primeiras eleições multipartidárias de 1994. É (ou devia ser) um momento importante em que o Presidente da República faz uma radiografia honesta, objectiva, o mais aproximado possível da realidade dos factos. Não deve ser um momento de exaltação político-partidária de hossanas intermináveis, em que o chefe é elevado à estratosfera como se de um ser sobrenatural se tratasse. Quem não lembra-se dos infames dizeres das senhoras Verónica Macamo e Margarida Talapa quando por estas alturas referiam ao Chembene como Guia Incontestável de todos Nós; O Filho Mais Querido, etc. O presidente tem que fazer uma análise sobre o que estava planificado (PES), o que se materializou (avaliando o grau e qualidade de implementação), o que faltou e explicar porque é não foi materializado. O informe deve reflectir os principais desafios que se impõem à nação moçambicana, os problemas fracturantes que ameaçam a nossa integridade, unicidade e existência como Estado soberano. Deve estar claro sobre como o governo pensa ultrapassar tais problemas para a melhoria da vida dos moçambicanos que estão na cíclica encruzilhada de violência. Não é momento de ocultações, de cinismo e arrogância político-institucional.

Infelizmente não vislumbro qualquer alteração substancial no comportamento político. Uns dirão que o chefe fez uma radiografia fiel dos problemas que enfermam a nação. Outros dirão que o informe foi superficial e que não trouxe nada de interessante e não reflecte a realidade objectiva. TODOS NÓS iremos observar situações em que o chefe será interrompido para ser aplaudido mesmo quando estiver a referir-se às diversas calamidades que apoquentam-nos. E é aqui onde reside um tremendo paradoxo: nas sessões de perguntas ao governo na AR, o executivo tem-se vangloriado de estar a 90 ou 100% da execução do PES, mas o chefe, aparece e diz que este ou aquele aspecto não foi implementado por blá, blá, blá e lá estão os aduladores a bater palmas por algo que não foi concretizado. A AR é composta de jovens com alguma instrução formal. Porem, o debate político não tem qualidade. Salvo algumas excepções, regra geral são bandos de aduladores dos seus chefes. Falta elevação, sentido de estado e patriotismo nos tais deputados. Estão preocupados em fazer bonito de acordo com o estilo da casa em que pertencem, uns porque querem ser ministeriáveis e outros porque querem garantir a sua presença no hemiciclo para continuar no usufruto das benesses que a casa (AR) oferece enquanto NÓS a quem supostamente representam-nos morremos à míngua! Triste sina a nossa. Adaptando o que um grande amigo meu e exímio antropólogo, atravessamos momentos tenebrosos em que um titulo como “A Indizível Dor do Debate Político na AR” faz jus à realidade do espectro político nacional.

 

Adicionar comentário

Leave a Reply