Preto & Branco

Recordando a ‘Minha’ Mocímboa

Hoje, quase um ano depois, com alguma nostalgia recordo-me da minha última viagem á Mocímboa da Praia em Novembro-Dezembro de 2019

Ido de Maputo para Pemba num voo da LAM numa sexta-feira 29 de Novembro. Na segunda-feira seguinte, dia 2, às 3.00 horas apanhei um táxi-mota que levou-me ao cruzamento do aeroporto. O autocarro da transportadora Nagi fez-se ao local passavam poucos minutos das 4.00 horas (fiquei quase 1 hora em pé, já que não lugar para sentar ali no cruzamento do aeroporto!).

Às 5 horas partimos…estava apreensivo como qualquer um pode imaginar tendo em conta a onda de ataques a viaturas ao longo da N380. Vários pensamentos ocorreram-me……meu filho menor e esposa…o que seria deles se algo me acontecesse…..Anyway, não podia mudar nada. Já estava ali! O primeiro sinal de violência surgiu logo em Silva Macua (desvio para os distritos de Macomia e Montepuez. Estava um camião estacionado que transportava uma cabina de camião recentemente carbonizada.

Chegamos a Macomia e, no controlo, agentes da UIR fizeram-se ao autocarro para o devido controlo das identificações e questionamentos do motivo da viagem. Prosseguimos e logo depois começamos a ver as aldeias recentemente atacadas e queimadas em Mianguelewa. Havia um desvio por causa das obras da ponte sobre o rio Messalo que foram forçadas a parar devido ao ataque ao empreiteiro. Todo o equipamento fora abandonado no local. Avançamos até a entrada do distrito de Muidumbe.

Dali em diante as aldeias queimadas eram várias: Mucojo, Quitarajo, Mbau.  Estranhamente não estava assustado. Ensaio uma conversa com dois passageiros sentados comigo…descubro que são agentes da UIR…mas a conversa flui…não dá para entrar em muitos detalhes da situação: dizem que não podem falar porque não se sabe quem esta no autocarro. Os novos recrutas dos insurgentes provenientes de Memba, diziam, e doutras partes de Nampula podiam estar ali…muitos já tinham sido encontrados e capturados durante as viagens.

Chegamos finalmente a Oasse (Diaca). O posto de fiscalização tem equipas multidisciplinares das FDS. Todos os passageiros eram obrigados a descer com os seus pertences. Faz-se uma fila e entra-se para uma sala onde cada um, incluindo a sua bagagem é revistado e a identificação verificada. Fazia-se uma pequena entrevista sobre o motivo da viagem. No meu caso, o agente pediu-me a credencial. Noto ao meu lado uma senhora a ser revistada…infelizmente em situações de guerra não há pudores etc…o agente apalpa a senhora…enfim. Da Oasse à Vila Autárquica de Mocimboa da Prai são 42 quilómetros. Fizemos a distância em 40 min. Foi a primeira vez que viajei de Nagi..só ouvia falar…a velocidade é estonteante e aterradora…confesso que não gostei e finalmente chegamos `a vila: É uma vila militarizada…tanques e BTRs, mahindras com militares e forcas especiais encapuzados circulando à alta velocidade. Os olhares eram intimidatórios. Disse à minha família que já tinha chegado. Era uma cidade linda, muito bem concebida. Com todo o aparato militar que via, acreditava, ingenuamente, que estava num dos lugares mais seguros deste país. Meses depois tudo mudou! A minha Mocímboa foi dilacerada, ultrajada, estuprada por uma estirpe humana que não pode ser homo sapiens. Penso insofismavelmente que há bípedes que atrasaram-se na evolução humana. Gente não são, são outra coisa.

 

Adicionar comentário

Leave a Reply