Preto & Branco

Amós Mauaie:

Um instrumentista polivalente

Afeiçoado tocador de timbila – instrumento tradicional moçambicano consagrado património cultural da humanidade – Amós Mauaie, como outros exímios na timbila, é natural de Zavala, mas no seu palmaré de execução perfilam outros instrumentos, como a chigovia, flauta e batuques. Com cerca de 30 anos de estrada artística, já acompanhou grupos e gravações nacionais e internacionais. E sendo também vocalista tem alguns temas gravados, tendo em manga a gravação do seu primeiro albúm.

Na conversa travada com este músico, que responde pelo nome completo de Amós Lamussene Mauaie, apuramos que é natural do distrito de Zavala, província de Inhambane, onde nasceu e cresceu, pelo que considera-se 100% chope, “falo e canto em língua chope”, orgulha-se.

Sobre o seu percurso de instrumentista, revelou-nos que iniciou-se em 1990, com a timbila, mas aprendeu a tocar outros instrumentos musicais com destaque para a vigovia, batuque e flauta, tendo participações em gravações de discos de músicos nacionais e internacionais. E destaca que através do convite de um outro músico, de ritmos tradicionais, Simão Nhacule, fez parte de quatro temas que compõem dois álbuns daquele.

Amós partilha algo que considera digno de registo: “felizmente, na história da minha vida aconteceu aquilo que nós os timbileiros e os nossos fãs sonhávamos, eu e amigos conseguimos juntar os timbileiros residentes em Maputo, fizemos a música intitulado Covid-19, cantada em língua chope e português, fizemos música e clip”, destaca.

Este instrumentista, que tem na timbila o seu instrumento predilecto, também passou a compor e cantar, tendo dois temas editados, nomeadamente “Hamilossa”[que significa saudamos]  e “Muando” [que significa cacimba]. Revelou-nos que as suas fontes de inspiração, a nível nacional, é Eduardo Durão, um dos mestres da timbila e o consagrado músico José Mucavele, outro afeiçoado pelos ritmos tradicionais, enquanto a nível internacional pontificam Hugo Massekela e Youssour Ndour.

A sua temática musical, segundo o próprio artista, versa sobre educação cívica sobre a valorização cultural sobretudo das línguas nacionais e de gratificações aos pais, por serem a razão de estar neste planeta terra.

Contudo, a sua ambição artística passa pela gravação de um ou dois discos e efectivar os respectivos lançamentos em grandes espetáculos. Por outro lado, assume como grande desafio juntar músicos de diferentes instrumentos musicais, criar fusão e apresentar em espectáculos em diversas casas de pasto.

Questionado sobre a condição de ser músico em Moçambique, Amós Mauaie considera ser um desafio muito difícil. “Se existimos até hoje é porque gostamos de fazer música. Para alguns que abraçaram a música é possível viver dela, mas arrasca, somos poucos que vivemos da música”, reconhece.

Sobre a coexistência com a realidade da pandemia da Covid-19, o nosso entrevistado explicou-se: “Durante o processo de confinamento tenho tido muitos obstáculos, já não toco com outros músicos de dentro, assim como de fora, não estou a tocar nos casamentos, enfim não participo na troca de experiência com outros músicos”, lamentou, ajuntando com desalento: “neste momento da pandemia é difícil para mim, não tenho mecanismos próprios para tal”.

Quando não está a ensaiar e actuar, profissionalmente, Amós que diz contar com apoio familiar, tanto moral assim como material, ocupa-se em pesquisar, com recurso a internet, a vida do povo africano durante a colonização e sobre como as independências foram conquistadas. Sobre golpes de Estado depois da independência.” ‘E sobre essas coisas que futuramente vou compor e cantar”, adianta.

Para os fãs pede paciência, que o seu primeiro álbum está pronto somente faltam recursos financeiros para gravação, revelando que este ano não conseguiu patrocínio, mas de forma incansável continuará na busca, de modo que no próximo ano este sonho se materialize, apelando a todos que fiquem em casa, enquanto nada imprescindível justifique a saída, de modo a prevenirem-se contra a Covid-19.

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