Preto & Branco

Contributo para imortalizar a timbila

Filho do mestre Mbande cria museu virtual

Venâncio Mbande Júnior, filho de um dos mestres da timbila, seguindo as peugadas de seu progenitor, além de tocar este instrumento já declarado património cultural da humanidade pela UNESCO, o estuda e ensina em universidade sul-africana, tendo em marcha a instalação de um museu virtual que já conta com o apoio da União Europeia, através do programa ProCultura. Nesta entrevista fala-nos da sua trajectória e divulgação da timbila além-fronteira, sua carreira académica em etnomusicologia na África do Sul e do seu contributo para a imortalização da timbila. Obviamente, sem deixar de falar do legado do seu pai para os chopi, para Moçambique e para o mundo.

Jornal Preto & Branco (JP&B): Pode se nos apresentar na primeira pessoa? 

Venâncio Mbande (VB) – Chamo-me Venâncio Mbande Júnior, mais conhecido por Venâncio, nasci a 2 de Junho de 1982, no distrito de Zavala, província de Inhambane. Sou filho de pais do grupo étnico chope, permaneci em Zavala até 2006 [com 24 anos de idade]. Como qualquer outra criança local, aprendi os ofícios locais, incluindo, neste caso, a arte de tocar e fabricar timbilas e outros instrumentos musicais locais. Toco um leque de instrumentos musicais, desde a timbila, xitende e chinveka/flautas locais.

 

JP&B: Descendes de uma família de timbaleiros, onde sobressai o seu pai, um dos considerados mestres da timbila no país, o Mestre Mbande…

VM- Sim, sou filho do Mestre Venâncio Mbande, reconhecido a nível nacional e internacional pelo seu exímio conhecimento das timbilas, ele herdou a veia artística e desde tenra idade foi sofrendo influência musical, juntamente com os irmãos. De facto, meu pai, é um dos mais destacados, se não mesmo o mais destacado mestre das timbilas. Ele jogou um papel muito importante para que a cultura de timbila fosse conhecida a nível internacional, através das várias digressões que efectuou pelo mundo. Enquanto mineiro, na África do Sul, massificou a arte das timbilas entre os membros do grupo étnico chope que trabalhavam em diferentes companhias mineiras sul-africanas.

Já reformado, contribuiu para o resgate de grupos de timbila, seriamente prejudicados pela guerra civil e jogou um papel importante para a criação do M’saho – Festival de timbila e influenciou a vários jovens para a valorização cultural da timbila.

 

JP&B: Sabido que fazes parte de um grupo de timbileiros, como procuram resguardar este rico legado nacional e familiar?

VM – É certo que a maioria dos agrupamentos, não só de música tradicional, quando morre o seu mentor ficam desestabilizados. Portanto, como grupo, não estamos à altura dos velhos tempos mas há muito que está sendo feito e temos fé que continuaremos no activo ainda por um longo período. Temos tentado conquistar a entrada de mais membros no grupo, sobretudo os mais jovens, para que se garanta a continuidade.

 

JP&B: A título individual o que tens feito?

VM – Pessoalmente, encontro-me a frequentar o curso de mestrado em etnomusicologia na Rhodes University, na África do Sul e tenho estado a ensinar a música de timbila na mesma Universidade.

Desde 2017, tenho também feito residências artísticas por alguns países, quando consigo financiamento. Em Agosto, deveria ter viajado ao Brasil para mais uma residência, resultado do financiamento do ProCultura [ iniciativa de financiamento das artes e cultura da União Europeia]. A par disto, consegui outro financiamento do ProCultura para a criação de uma galeria virtual de timbilas. Uma página web que deverá conter diversas informações de timbila, imagens, vídeos e áudios.

Neste caso, estão previstas gravações de álbuns/áudio, com participação de todos os grupos de timbila existentes em Zavala e um documentário que mostrará os processos de fabricação das timbilas.

Contudo, é impossível trilhar os mesmos passos do mestre Venâncio Mbande, mas à nossa maneira, temos tentado fazer o nosso próprio caminho.

 

JP&B: Tens alguma imagem dos reportórios do mestre Mbande?

VM – A maioria das canções do mestre Mbande veiculam temáticas de interesse social. Falam de fenómenos sociais como fome, violência baseada no género e contra idosos, guerra e paz, sobre corrupção e muito mais. Mas, para mim, o tema mais marcante é o que retrata a vida e obra de Eduardo Mondlane, tanto pela mensagem como pela qualidade artística.

 

JP&B: Como olhar para a valorização das artes e cultura no país?

VM- Para mim a arte tem que ser considerada como qualquer outro trabalho, com as suas especificidades claro. É verdade que nos últimos anos regista-se alguma tendência nesse sentido, mas na maioria de casos a arte é tratada como brincadeira.

Aliado a isto, temos o grande entrave de falta de programas locais de financiamento para a arte e cultura moçambicana. Sem querer comparar com outros países, mas reparando para a região, estamos muito atrás em relação ao financiamento no sector cultural. Portanto, acho que se fosse criado um estatuto do artista, carteira artística ou coisa parecida e um investimento sério para este sector, ajudaria muito para o desenvolvimento artístico.

 

JP&B: Qual é a sua grande espectativa para o futuro?

VM- O meu grande sonho é que me torne no futuro, uma das grandes referências na preservação, ensino e difusão da música tradicional moçambicanas e talvez africana.

Neste momento não tenho qualquer apoio do ministério que vela pela Cultura, nem de qualquer outra entidade. No entanto, quero aqui apresentar em nome da família do Mestre Mbande, uma profunda gratidão pelo apoio prestado pelo Governo, desde quando o Mestre estava hospitalizado até ao funeral. Sentimo-nos, na altura, muito bem amparados.

 

JP&B: Uma palavra aos seus admiradores …

VM – Para os admiradores e apreciadores dos nossos trabalhos em particular, mas também da música e dança de timbila, de forma geral, agradeço pelo apoio moral e dizer que brevemente disponibilizaremos uma plataforma digital, uma página web que poderão a acessar e encontrar muitas informações, vídeos, fotos, entre outro tipo de informação sobre timbila, podendo, igualmente, comprar musicas e instrumentos musicais tradicionais

 

 

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