Preto & Branco

Infra-estruturas em foco

Hospital Central da Beira em “fragmentos”

Última chuva “chumbou” a resistência de um bloco construído há pouco tempo e paralisou cirurgias

A maior unidade sanitária da província de Sofala e referência regional centro, o Hospital Central da Beira (HCB) está entregue à sua sorte. Ainda não refeita dos efeitos do ciclone IDAI, com várias infraestruturas e serviços por repor, a chuva que se abateu por aquela cidade, passa uma semana, inundou o bloco operatório reabilitado somente há um ano, obrigando ao adiamento de várias cirurgias. Esta unidade hospitalar foi também alvo de um crime cibernético que saldou-se no desvio de cerca de 9 milhões de meticais, em conluio com funcionários internos, cujo caso já tem réus confessos, o que pode despoletar mais falcatruas. Aliás, existe um novo processo ainda em segredo da justiça. No que toca ao combate à Covid-19, as autoridades sanitárias locais consideram a situação sob controlo, mas seis funcionários ficaram infectados e ainda não dispõe de serviço de testagem recorrendo ao laboratório da DREAM.

Na sequência da chuva torrencial que abalou a cidade da Beira na manhã de quarta-feira, da semana passada, o Hospital Central da Beira (HCB) foi uma das pior vítimas, com o tecto a não suportar a maior descarga de água em curto espaço de tempo, afectando o seu funcionamento normal. Este foi o pretexto para entabularmos conversa com o director-geral desta unidade sanitária, o Dr. Nelson Duarte Mucopo.

“Realmente fomos surpreendidos com a chuva que caiu na manhã da quarta-feira entre 6:30 às 7 horas, constatamos que havia uma grande quantidade de água que caía sobre o bloco operatório, especificamente nas primeiras duas salas, sala 1 e 2, foi nestes locais onde a água acumulava-se e acabou escorrendo em todo bloco operatório”, explicou.

Prosseguindo, referiu que na altura os seus colegas procuraram limpar a água que estava a penetrar embora continuasse a chover, no entanto, findo a chuva foi possível limpar o bloco para acolher operações de urgência. “Temos um total de sete salas no bloco operatório, apenas duas sofreram e cinco apenas precisavam de limpeza pelo que improvisamos duas para realizar as cesarianas. Nenhuma cirurgia de urgência foi cancelada, continuamos a operar, mas oito cirurgias que tinham sido agendadas foram adiadas para próxima semana”, revelou.

Questionado sobre a razão da infiltração, considerando tratar-se de uma infra-estrutura relativamente recente, o nosso entrevistado aflorou que “depois procuramos saber o que havia acontecido porque, de facto, passa um ano depois da reabilitação e percebemos que no terraço os tubos de descarga eram insuficientes para fazer a descarga de água que havia lá. Com a sobrecarga as águas pluviais transbordaram para o tecto do bloco operatório, tendo-se aproveitado da tubagem que foi usada para o enfiamento de cabos elétricos acabando caindo para as duas salas”, especificou.

Sobre alguma solução em vista, Nelson Mucopo disse que foi solicitada a empresa construtora das obras e que começara com o processo de correções, enquanto se avalia a real dimensão dos danos. “Havia se instalado uma tubagem de 70 milímetros e neste momento decorre o processo de substituição destes tubos por outros de 120 milímetros, incluindo a quantidade. O construtor não previa esta quantidade de água, incluindo outros desvios que facilmente subcarregaram e consequentemente saturaram o local. Por outro lado, havia um local com uma fraca elevação, trata-se de uma portinhola que permitiu com que com o aumento das águas descaísse por ser a zona mais inclinada”, ajuntou.

Este dirigente hospitalar tornou oportuno a partilha de uma preocupação ainda no contexto de infra-estruturas, aflorando que apesar de o hospital ter tido apoio para a reconstrução parcial dos efeitos do ciclone IDAI, alguns edifícios desta que é a maior unidade hospitalar na zona centro do país, ainda não foram intervencionados. “Estou a falar do serviço de medicina legal, serviço de anatomia patológica, cozinha e da guarita, está tudo de qualquer maneira, sem previsão, por falta de recursos”, desabafou.

Em jeito de grito de socorro, este dirigente hospitalar apelou: “neste momento queria pedir apoio à sociedade civil, no geral, devido a limitações financeiras, para quem possa apoiar neste processo da reabilitação, já passa um ano e meio e continuamos a nos ressentir dos efeitos do IDAI”, lamentou.

 Somente um óbito pela Covid-19

Considerando que todo o sistema de saúde está empenhado no combate à pandemia da Covid-19, quisemos saber do director geral, Nelson Mucopo, como está a ser enfrentado este combate a nível do Hospital Central da Beira. ”Trata-se de uma situação nova, ninguém estava preparado para fazer face a este desafio, organizamos um plano de contingência, temos um lugar de pré triagem onde o individuo antes de entrar no hospital é feito a triagem, para além de indivíduos suspeitos que tem um centro para aguardar para evitar o transporte da doença de fora para dentro do hospital e sempre que for positivo evacua-se para o centro de pandemias”, narrou-nos.

No entanto, por insuficiências, revelou: “o serviço de testagem não é feito no Hospital Central da Beira, apenas colhemos e enviámos as amostras para o laboratório da DREAM, gerido pelo Centro de Investigação Operacional da Beira (CIOB) e depois manda-nos os resultados. Até então não temos razões de queixas”, considerou.

Convidado a falar de números, avançou que “nesta altura estamos a falar de 1952 doentes que foram testados de um total de 116.966 doentes rastreados e dos testados testaram positivo 105 testados, de Março até ao presente período [final da semana passada] tivemos apenas um óbito”, contabilizou.

No que toca aos efeitos desta pandemia nos profissionais da saúde, revelou que seis (6) ficaram infectados mas não desenvolveram sintomas, pelo que depois de gozarem a quarentena domiciliária voltaram às suas actividades normais.

Questionado se a província de Sofala tinha capacidade para testar a todos em tempo útil, Mucopo distanciou-se da questão e lembrou que ninguém esteve preparado, mesmo no velho continente, em alusão a Europa. “Todos fomos acolhidos de surpresa, o que devia ser feito está sendo feito, que é o trabalho comunitário e se for bem feito provavelmente não teremos enchentes nas unidades sanitárias para tratar esses doentes, e ao contrário de outros países o trabalho deve ser a nível comunitário, dos bairros, as pessoas devem ser sensibilizadas acerca das medidas preventivas para garantir a não enchente nas unidades sanitárias, penso que estamos a um bom ritmo de ir ao encontro das expectativas”, assinalou.

 Desfalque agravou insuficiência financeira

Virando a página, procuramos saber sobre o estágio do crime cibernético de que foi alvo aquela unidade hospitalar, que saldou-se no desfalque das contas daquela unidade hospitalar de cerca de 9 milhões de meticais, agravando a sua fragilidade financeira.

“Houve um crime sim e está nas mãos da justiça, foram julgados e condenados e confessaram o seu envolvimento no desvio de cerca de nove milhões de meticais e existe mais um outro processo na PGR que não posso comentar por falta de elementos. Tudo está sobre o segredo da justiça, vamos esperar pelo seu desfecho, há fortes indicações de que os condenados colaboraram com o público interno para este desfalque”, reconheceu.

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