Preto & Branco

Ritos de Iniciação conturbados em Cabo Delgado

Os ritos de iniciação que constituem uma prática cultural, secular, de preparação de adolescentes para a vida adulta em alguns  tribos do norte de Moçambique, com realce para macuas, devido aos ataques em Cabo Delgado, que obrigam ao deslocamento das populações das suas zonas de origem, o que se junta à proibição de aglomeração de pessoas devido à Covid-19, mostram-se comprometidos.

Embora estes ritos de iniciação envolvam ambos os sexos, particularmente, a rapariga é preparada para respeitar os pais, cuidar do lar e para receber o seu “homem”, marido, para ambos gerar filhos e constituir uma nova família, onde o “anel” não basta, por incluir obrigações e deveres que são transmitidas ao longo deste processo.

Amina Alberto, doméstica, do distrito de Mugovolas, posto administrativo de Muatua na província de Nampula disse à nossa reportagem que os ritos de iniciação são a passagem de fase de criança para fase adulta, que abrange as idades entre os 12 a 14 anos de idade. “Ė um processo que visa aconselhar, sobretudo a rapariga  como conviver com os pais, com marido e como cuidar do lar. A mensagem principal tem sido como respeitar os mais velhos”, frisou.

Questionada acerca de rumores que apontam que os ritos de iniciação deviam ser abolidos, porque acontecem num período de aulas e as crianças perdem aulas e acelera a falta de formação da rapariga.

Amina Alberto respondeu nos seguintes termos: “algumas raparigas depois da formação dão continuidade à formação escolar, é verdade que algumas desistem e vão para o lar. Mas, neste processo de ritos de iniciação a rapariga tem oportunidade para dialogar com agentes de saúde, que por sua vez aconselham acerca de doenças sexualmente transmissíveis e prevenção da gravidez”, esclareceu.

Considerando a situação de ataques terroristas em Cabo delgado, a nossa entrevistada explicou que  o  processo tem sido no mato, numa altura em que insurgentes aceleram com ataques nos distritos do norte e centro da província de Cabo Delgado e Nampula tem sido o lugar privilegiado para construir campos de acomodação, se calhar o processo ficará adiado”, aventou.

Questionada se a presença de ataques armados na província de Cabo Delgado  não iria anular por completo esta prática por falta de locais apropriados  para as anciãs trabalhar com as raparigas, a nossa interlocutora disse que “o roteiro pode mudar, mas desaparecer não pode ser, estamos diante de uma identidade cultural, neste momento o que pode acontecer é o improviso na cidade, podemos juntar as raparigas  num lugar fechado para ter este tipo de indução cultural fundamental”, avançou.

Consciente haver muitas especulações em torno desta prática, explicou que no passado o processo tinha a duração de duas semanas no mato mas que actualmente dura apenas uma semana, de modo as crianças a estarem disponíveis mais cedo

Sobre a natureza da realização dos cerimoniais a nossa interlocutora explicou que as anciãs têm monitorado este processo e são legíveis na base de confissões relacionados com sonhos e partilha com a comunidade, porém, revelou que na actualidade pode-se encontrar pessoas mais jovens que aprenderam com os mais velhos.

 

A finalizar, Amina Alberto defendeu que os ritos de iniciação são benéficos porque preparam a mulher do amanhã e lamentou a falta de apoio do Governo, vincando que no presente ano a situação é ainda mais complicada devido aos ataques em Cabo Delgado e, simultaneamente, devido à propagação da Covid-19. “Na perda desta prática diante de vários factores sociais, económicos e políticos será considerada uma grande perda da cultura Macua”, vaticinou.

 

 

 

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