Preto & Branco

Nhongo denuncia sequestros em tempo de trégua

O líder da autoproclamada Junta Militar da Renamo, Mariano Nhongo, revela que no dia em que entrava em vigor a trégua anunciada pelo Presidente da República e Comandante em Chefe das Forças de Defesa e Segurança (FDS), Filipe Nyusi, Domingo (27 de Outubro), dois membros do seu grupo foram sequestrados, o que considera de batota. Contudo, diz estar aberto a negociações com o Governo liderado pela Frelimo, mas reitera que Ossufo Momade deve deixar a liderança da Renamo. Por outro lado, a União Europeia defende a prevalência do diálogo para a resolução de problemas mas adverte que não há espaço para renegociações do acordo de paz legitimamente assinado pelo Governo e pela Renamo.

O Presidente da República, Filipe Nyusi, reunido em conclave partidário em Pemba, capital da província de Cabo Delgado, sábado último, anunciou que de forma unilateral declarava trégua militar de uma semana, com efeitos a partir de Domingo (25 de Outubro), orientado as FDS para pararem de perseguir o grupo da autoproclamada Junta Militar, para dar espaço para um diálogo com vista a pôr fim às hostilidades perpetradas na zona centro do país, concretamente em comunidades das províncias de Sofala e Manica.

“Não vamos perseguir a Junta durante uma semana, precisamente para dizer que nós estamos abertos, eu estou aberto, o país está aberto. Eles já sabem como estamos a trabalhar as vias necessárias para ver se encontramos a solução para que o problema não prevaleça com os moçambicanos a matarem outros moçambicanos”, anunciou publicamente o Presidente da República e também da Frelimo, no fim do retiro partidário.

Nyusi esclareceu: “Vamos dizer para pararem por enquanto. Depois, chamo mais uma vez a Junta Militar da RENAMO para aproveitarmos essa oportunidade que estou a dar para poder juntar-se ao diálogo e, assim, encontrarmos soluções como moçambicanos e sairmos a ganhar”.

Porém, nesta segunda-feira, o líder da autoproclama da Junta Militar da Renamo, Mariano Nhongo, veio a público, através da Voz da América, para dizer que ainda não foi contatado por nenhuma estrutura do Estado para um diálogo, muito menos pelo próprio Presidente Nyusi e revelar que vê o anúncio presidencial com desconfiança, visto no mesmo Domingo em que entrava em vigor a trégua seus homens terem sido sequestrados.

Para o líder dissidente, o Governo devia primeiro criar condições e ambiente de confiança, apropriados para o diálogo, e negociar o próprio cessar-fogo com o grupo, o que iria permitir medir as intenções das partes.”Ele [o Presidente] ainda não me ligou e eu nem recebi um telefonema. Como eu estou no mato, nem rádio eu tenho. Quando eu ouvir e ver que a FRELIMO [Frente de Libertação de Moçambique] está interessada para que haja paz, eu enviarei os meus homens para negociar com a FRELIMO”, disse.

“A FRELIMO está a sequestrar. Aqui na Gorongosa, dois homens foram raptados [recentemente]. Dizem ‘vamos negociar’, mas não está certo, isto é batota. Em Moçambique, não podemos viver em batota”, sublinhou Mariano Nhongo., acrescentando que “quando o Governo falar a verdade e não enganar o povo e os militares, se o Governo está a falar verdade, eu tenho todos métodos quer internacionais quer nacionais e eu vou provar o meu eu. Eu não vou me esconder mais, vou sair ao público e dizer: Estou aqui, venha, Governo. Negociamos, mas com enganos não, não, não. Não vamos aceitar, porque temos medo de enganar o povo”, vincou.

Contudo, Mariano Nhongo garantiu que vai criar uma espécie de um corredor de diálogo com o Governo, se a intenção deste for “realmente honesta” de pacificar o país, particularmente a região centro de Moçambique.“Eu só enviarei homens para preparar as negociações se tiver certeza que a intenção da Frelimo (Governo) é verdadeira, se não for para sequestrar”, precisou, Mariano Nhongo, quem salientou que as anteriores negociações fracassaram devido às inverdades do Governo.

Apesar de mostrar-se aberto a negociar, avança que iniciaria conversações apenas com o Presidente da República e não com Ossufo Momade, líder da RENAMO, reiterando que o mesmo deve ser afastado da liderança do maior partido da oposição moçambicana para que uma eventual negociação de paz tenha sucesso.

Acordo de paz “não pode ser renegociado”

Enquanto o presidente Nyusi reforça a sua diplomacia para o diálogo com a autoproclamada Junta Militar da Renamo, cuja abertura manifestou, primeiramente, a 9 de Outubro corrente, em Chimoio no âmbito de uma visita presidencial, aflorando a disponibilidade para dialogar  e colocar fim à insegurança em estradas e aldeias do centro do país que voltavam a ser assoladas por ataques armados, a União Europeia, precisamente no dia 17 de Outubro, enaltecia o gesto, mas categoricamente defendia que não havia espaço para renegociar o Acordo de Paz.

Pois, uma das grandes contestações de Nhongo é exactamente o Acordo de Paz, assinado a 6 de Agosto de 2019, entre Filipe Nyusi e o presidente da Renamo, Ossufo Momade, que ora ele não reconhece como legitimo representante da Renamo, mesmo que democraticamente eleito.

Na ocasião, o embaixador da União Europeia em Moçambique, António Sanchez-Benedito, defendeu que não há espaço para renegociações no acordo de paz de 2019, como exige Nhongo. “O acordo de paz não pode ser aberto ou renegociado, estamos bastante claros sobre isso”, disse António Sanchez-Benedito, frisando que a RENAMO comprometeu-se com a paz no acordo assinado com o Governo e não pode ser refém das exigências de um “grupo minoritário”.

Contextualizando a situação da pobreza, o embaixador da União Europeia referiu que “estamos todos cientes de que em alguns pontos do país os indicadores macroeconómicos ainda são muito baixos, mas a maneira de avançar não é com recurso a violência”, vincou Sanchez-Benedito.

O acordo de paz em Moçambique foi assinado em agosto de 2019 pelo chefe de Estado moçambicano, Filipe Nyusi, e pelo presidente da RENAMO, Ossufo Momade, prevendo, entre outros aspetos, o Desarmamento, Desmobilização e Reintegração (DDR) do braço armado do principal partido de oposição.

Num momento em que decorre o processo de DDR, no quadro dos entendimentos, o embaixador da UE em Moçambique entende que Mariano Nhongo devia aproveitar a oportunidade para largar as armas.”Há uma janela que ainda está aberta, mas pode estar fechada daqui a algum tempo”, alertou o membro da UE. Apesar dos desafios impostos pelo grupo de Nhongo, segundo António Sanchez-Benedito, que visitou recentemente o centro para avaliar o processo do DDR, as coisas estão a tomar um bom rumo.

A União Europeia disponibilizou até agora cerca de 62 milhões de euros para o DDR, que está na sua terceira fase, com mais de mil ex-guerrilheiros da RENAMO já abrangidos de um total de 5 mil que se espera que entreguem as armas.

Pelo que a trégua oferecida pelo Chefe de estado, Filipe Nyusi, deve ser capitalizada pelo grupo de Nhongo para “enterrar” definitivamente as armas e enveredar pela luta política caso tenha aspirações de liderança na Renamo, como o próprio filho de Dhlakama manifestou publicamente a intenção de concorrer as próximas eleições presidenciais, sem ameaças de pegar em armas.

Pelo que, as suas exigências no diálogo ao mais alto nível deve ser razoável e não a desfeita do Acordo de Paz aclamado pela maioria do povo moçambicano, não havendo, inclusive, nenhuma força politica ou da sociedade moçambicana que se oponha!

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