Preto & Branco

Forjado nos bons sinais de Quelimane

Celso, uma “Máquina” que procura firmar se no Alcananense de Portugal

 Moçambicano sonha em “virar” Mamba

Joga a lateral direito, assim com a esquerdo. Actualmente milita na formação do Atlético Clube Alcanenense de Portugal. Não tem nenhuma internacionalização pelas camadas de formação. Contudo, promete trabalhar para alcançar o sonho de ser chamado à selecção nacional de futebol, os Mambas.

Em entrevista ao jornal Preto e Branco, afirmou que representar uma selecção nacional é sonho de qualquer jovem jogador de qualquer parte do planeta e com ele não poderia ser uma excepção.

Entretanto, diz que trabalha todos dias de olhos postos no objectivo de vergar a camisola dos Mambas, a começar pela a selecção nacional dos Sub-20, Sub-23, dando passos curtos, mas certeiros e firmes.

Celso Máquina, como é carinhosamente tratado nos meandros desportivos, entra para essa lista de jogadores que, muito jovens, apartam-se do convívio familiar em busca de seus sonhos na Europa, tendo Portugal como porta de entrada. Até porque, tal como nos segredou o nosso entrevistado, a Europa era Portugal. Dono de um poder explosivo na hora de atacar, Celso Máquina contou ao Jornal Preto & Branco que, embora seja extremo de raiz, podendo descair tanto pela direita, assim como pela esquerda, é polivalente, actuando também nos sectores mais recuados do terreno, concretamente a lateral. Teve passagens pelo Sporting, Bons Sinais, todos de Quelimane. Chega ao Atlético Clube Alcananense de Portugal pela mão da Associação Black Bulls, equipa com a qual tem contrato de formação. Leia na íntegra, a entrevista concedida ao nosso jornal.

“Assinei um contrato com o Black Bulls que incluía formação académica”

 

Jornal Preto & Branco (P&B) – Celso Maquina é um jovem jogador que está ainda se lançando no futebol. O pouco que se sabe é que Celso foi a Portugal pela mão da Associação Black Bulls, clube com o qual tem contrato de formação. Conta-nos a sua história no futebol.

Celso Maquina (CM): os meus primeiros toques na bola foram em casa, com o meu pai e meus primos, que são uns fanáticos do futebol. Até por que nós éramos uma família alargada. Mas, para além do quintal de casa, eu também costumava jogar a bola com outros rapazes da minha idade, e outros relativamente mais adultos que eu, dentro do Bairro Mapiazua, em Quelimane, minha terra natal. E foi exactamente nessas andanças que surgiu a alcunha “Máquina”, que perdura até hoje.

P&B- Então Máquina não é originariamente seu apelido?

CM: Exactamente. É uma alcunha que me foi atribuída no meu bairro. Mas como ia dizendo, joguei a bola no meu Bairro, inclusive participei do torneiro infantil denominado Bebec. Foi exactamente neste torneiro que pensei em jogar futebol e apostar neste desporto como minha profissão. Então fui enquadrar-me na equipa Bons Sinais de Quelimane, como forma de começar a jogar como federado. Aprendi muito nesta equipa durante as cinco épocas que lá estive (2012-2016). Para além do Clube Bons Sinais, tive uma passagem, a título de empréstimo, pelo Sporting de Quelimane, onde joguei nos Juniores. Depois fui ao Matchedje, também de Quelimane, já para jogar pelos seniores.

P&B: De Quelimane para Maputo.Como é que chegou ao Black Bulls.  

 CM:  Fui ao Black Blulls numa altura em que, por causa de problemas financeiros com que a minha família passava, eu estava a desistir do futebol. Estava concentrando-me na escola e fazendo pequenos trabalhos para poder ter algum valor e ajudar nas despesas de casa. Porém, num belo dia, eu estava em aulas e apareceu um dos meus melhores amigos, o Michel Eduardo (Dudú), e disse-me que tinha que viajar à Maputo fazer testes no Black Bulls em seu lugar, já que ele não poderia participar, por que tinha compromissos com a sua equipa que na altura actuava no Moçambola. A ideia de ir a Maputo jogar já me fascinava, mas quando disse que há possibilidade de vir a Portugal, fiquei mais entusiasmado ainda. Contei a família que me deu total apoio. Viajei à Maputo com mais quatro amigos que também iriam fazer os testes. Eu fui enquadrado nos Juvenis pelo Mister Paulo Paiva. Aquilo não me agradou, afinal eu já jogava a sénior. Mas eu aceitei mesmo assim e dei tudo de mim em campo. Fomos aprovados e começamos a jogar, mas sem contrato definitivo. Em finais de 2018 assinei um contrato com o Black Bulls que incluía a minha formação académica.

P&B:  Saiu de Moçambique para jogar em Portugal no ano passado. Como recebeu a notícia?

CM: Foi das melhores notícias que já recebi na minha vida, tomando em consideração o contexto. E a emoção é claramente indescritível. E quando parti para Portugal, fui confiante que não regressaria a Moçambique, até por que eu vislumbrei naquela oportunidade, a chance de poder mudar a minha vida e da minha família, ao mesmo tempo que realizaria um sonho que carregava comigo desde miúdo, de pisar os palcos europeus.

P&B: Muitos moçambicanos quando saem de Moçambique, são, na sua maioria, chamados pelos três grandes (Porto, Benfica e Sporting), mas acabam se firmando em outras formações. Foi o seu caso?

CM: Não foi o meu caso. Eu não recebi alguma proposta dos tidos três grandes do futebol português. Vim a Portugal dentro daquilo que era o plano de actividades e política da Black Bulls e acabei deixando boas indicações quando tive a oportunidade de jogar por cá. Comecei por jogar no Brangança e durante dois meses trabalhei duro, mas, infelizmente, não fiquei por lá e não tenho detalhes sobre como não consegui lá ficar. Depois de não ter dado certo no Bragança, tive a proposta de jogar nos Juniores do Atlético Clube Alcananense, na Segunda Divisão, do campeonato Nacional de Juniores, e eu aceitei na hora. Até por que não tinha outras propostas por analisar. Foi assim que me juntei ao clube.

P&B: Portugal sempre foi seu sonho? Ou é apenas um caminho para se lançar no futebol europeu?

CM: O sonho sempre foi jogar na Europa. Quando se está em Moçambique, e numa província como Zambézia, você ouve e acompanha tanto o futebol português e acaba confundindo Portugal com a Europa toda). Mas estando aqui, vejo que Portugal é apenas uma porta de entrada, embora não tenha problemas em permanecer por cá. O que eu quero, a partir de Portugal, é chegar a militar numa equipa que está na primeira divisão. Este é o principal objectivo. Mas sei que para lá chegar, preciso trabalhar muito. Até por que sou jovem ainda e tenho muito a dar.

Nos Mambas somos todos moçambicanos

P&B:  Ainda não tem nenhuma internacionalização pela selecção de Moçambique, em nenhuma das formações de base. Já sonha com os Mambas?

 CM: Penso que representar uma selecção nacional é sonho de qualquer jovem jogador de qualquer parte do planeta e eu não poderia ser uma excepção. Trabalho todos dias de olhos postos no objectivo de vergar a camisola dos Mambas, a camisola que simboliza a união de todos moçambicanos, porque quando estamos trajados daquele equipamento, aí não há moçambicano do Norte, Centro ou Sul, e o mesmo se sucede com os adeptos. Portanto, é sonho meu vestir de Mamba ao Peito. Até lá, tenho outros objectivos, como por exemplo representar a selecção nacional dos Sub-20, Sub-23. Pretendo dar passos curtos, mas certeiros e firmes.

P&B: É médio-avançado, mas que também actua a lateral. Em qual das posições sente-se mais à vontade?

CM: Sinto me mais a vontade jogando a médio-ofensivo que é o extremo em que tenho trabalhado mais nele quase a vida inteira. Mas eu desenvolvi habilidades que me permitem jogar em diversos extremos, como por exemplo a lateral, que é a posição em que jogo agora.

“Ninguém é do outro planeta”

 P&B – Geny Catamo, Kamo Kamo são alguns dos nomes dos jovens promessas na posição em que joga actualmente e eles têm quase a mesma idade consigo e já são opção do técnico Luís Gonçalves. Sente que tem pernas suficientes para disputar lugar com eles nos Mambas, quando for chamado?

CM: Citou aqui nomes de jogadores excelentes e que eu lhes reconheço a qualidade. Agora se tenho pernas ou não para ombrear com eles na posição de extremo, penso que sim. Mas a resposta mais acertada à esta questão será dada pelo tempo. Afinal, ninguém é doutro planeta.

P&B: É certo que está ainda no início de carreira, mas já pode servir de exemplo para muitos jovens em Moçambique que queiram pisar grandes palcos. Que conselho dá a um jovem que está ainda na formação?

 CM: uma das primeiras coisas e fundamentais é deixar o ego de lado e focar-se no trabalho. Em quanto jogador, já notei comportamentos em que as pessoas se acham muito bons até chegar ao ponto de desobedecer as ordens dos dirigentes, staff e também aos demais colegas de equipa. Na formação, todos são iguais. O mais importante é focar-se no trabalho e dar duro.

P&B: No seu percurso como jogador, desde o escalão infantil até aqui, quais jogadores sempre apreciou?

CM: Admiro meu tio Lorindo. É uma das pessoas que, por ser próxima a mim, influenciou-me bastante a jogar a bola. Aprecio também o Mamudo, jogador do 1̊ de Maio de Quelimane. Admiro, igualmente, o capitão dos Mambas, Elias Pelembe, ou simplesmente Dominguez. No panorama internacional, aprecio Zainadine Zidane e Ronaldinho. Refiro-me aos jogadores mais antigos, mas que tive oportunidade de vê-los jogar um pouco. Nos jogadores que estão em actividade ainda, gosto do jogo do Pogba, Trent Alexandro Arnold.

P&B: Qual o treinador o marcou, de todos que teve? E porquê?

CM: Com certeza, Mister Mozer é o treinador que marcou. Foi o meu primeiro treinador da formação. O carinho, atenção é inesquecível. Tive vários treinadores muito bons e agradeço o imenso apoio que deram-me durante a minha caminhada até aqui.

Quero também aproveitar esta oportunidade para agradecer a todos que apoiaram-me na minha jornada. Eu luto para que todos cantos do mundo saibam que na Zambézia, especialmente em Quelimane, há talentos.

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